quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Ela

(Soneto I)

Espectro sombrio e sepulcral
Que oprime e faz fenecer toda a vida,
Que a sufoca de maneira fatal
Quando vagas, Oh! Caveira incontida.

Em seu louco passeio só de ida
Espalha o Medo e o Fim pelo caminho...
Pobre Homem, numa luta renhida
E vã, cai flagelado, em desalinho.

E no chão permanece, até o pó!
Privado do mundo, lançado ao Nada
Apodrecendo, abandonado e só!

Morbidez e egoísmo: essa é a Morte.
Qu' Eterna, insaciável e calada
Passa. E nós? Qu' imploremos ao Deus Sorte.
  

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O interior da gente

O interior da gente é escuro e estranho; margeia o irracional. São estilhaços e mais estilhaços de loucura pra tudo quanto é canto. Pequenos fragmentos de um grande espelho quebrado que nos revela e, paradoxalmente, nos esconde. Espelho este que, a cada vislumbre, mais e mais nos deforma.

Nesse pequeno-infinito universo, como criancinhas amedrontadas, chora e tateia, estupidamente, nossa razão. Recolhendo e juntando cacos na vã tentativa de montar o inútil quebra-cabeça de nós mesmos. Na infrutífera batalha para encontrar e dar sentido a essa torrente de aleatoriedades que resume o nosso Eu.

É sempre uma descida difícil em nós mesmos. E sempre temos que fazê-la. E enfrentar nossos medos, monstros e tormentos. Sozinhos.

E lutar para não nos deixarmos petrificar e permanecer lá, aprisionados e abandonados nesse casarão assombrado pelos demônios da nossa consciência. Tateando a esmo um mundo insano, estranho e escuro. O interior da gente.



P. S.: Depois de Asilo Arkham - Uma séria casa em um sério mundo pretendia fazer uma resenha. No entanto, saiu este texto...

P. S. 2: A obra é dos autores Grant Morrison (roteiro) e Dave Mckean (arte) e metaforiza, por meio da prisão-manicômio Arkham, os conflitos psicológicos de Batman - numa viagem ao seu eu.




terça-feira, 7 de novembro de 2017

Navegante do acaso

Em meio ao universo-linguagem
o poeta navega.
Tal qual miríades de estrelas
as palavras
vastas
reluzem em sua mente:
aduela
estirada
açodar
coturno
- Velozes estrelas cadentes a cair.
Estranhas (im)precisas ocasionais aleatórias:
antirrábica.
Mudas mas sonoras:
calorento aldeamento...
Austero, sensível e inquieto
finda-se a labuta
(garimpo estelar):
Sobre a mesa
fica este papel
e estas tintas
sem'inúteis (?)
a/c do acaso.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Guerra Remota: 2117

D. T. ainda não completara dezesseis anos, mas sua inteligência e habilidades, aliadas a um desempenho singular para sua idade num dos melhores institutos de educação e pesquisas, o qualificaram um ano antes ao Projeto G. M. - contrariando um pouco seu criterioso regulamento. Findado o período inicial de rigorosos testes e adaptações,  ele estava apto a dar o passo derradeiro de sua promissora carreira: as avaliações em campo.

Disciplinado férrea e arduamente, não demonstrava inquietação alguma, assim como todos os membros do Projeto. Trajou mecanicamente sua vestimenta azul e branca estrelada e dirigiu-se  à sala de operações 1.0.1 - 1984, que ficava cerca de um quilômetro abaixo do gigantesco edifício em que estava, fortificada em aço, concreto e variados sistemas de segurança físicos e digitais. 

Sua impassividade era assustadora. Salvo o brilho úmido e indisfarçável de seus olhos azuis, podia-se dizer que não era humano, mas sim um dos recentes modelos de robôs lançado pela gigante tecnológica Natura Máquina - Vidas inorgânicas. A pele clara, com cabelos lisos e de coloração semi-alaranjada a enfeitar-lhe o alto da cabeça, mais seus traços finos e delicados, aristocráticos, faziam-no lembrar uma importante figura política e histórica do século passado - o principal idealizador e articulador do Projeto G. M, para o qual, agora, trabalhava.

Uma combinação de leituras de suas digitais e de seus globos oculares permitiu seu acesso ao espaço para onde fora designado recentemente. Designação esta acompanhada de êxito e, em virtude de seu precoce ingresso, uma primeira condecoração.

***

A sala era bastante vasta. Uma sucessão de painéis de controle, luzes e monitores preenchiam suas quatro paredes. Uma infinidade de botões e mecanismos altamente sensíveis e tecnológicos, com ares de importância e periculosidade extremas, eram manipulados precisamente por seis indivíduos de aspectos juvenis e sadios, de olhares inteligentes e atentos por trás de grossos óculos.

Impressionava a grande redoma de vidro localizada milimetricamente no centro daquele ambiente. Tinha cerca de cinco metros de extensão e uma altura que se aproximava dos três e meio. Era transparente e com um aspecto de grande poder de resistência. Em seu interior, podia-se ver uma solitária e confortável poltrona giratória. Tubos entravam e saíam de alguns orifícios rente ao chão e conectavam-se, objetivamente, à aparelhagem geral do restante da sala.

Frio e impassível, D. T. repetiu as ações já feitas inúmeras vezes em incontáveis simulações. Caminhou com passos firmes e decididos, em linha reta, até a construção vítrea, tocando-a com seus cinco dedos. Uma luz vermelha rapidamente deu lugar a uma luz verde para, em seguida, uma portinhola deslizar para cima - garantindo-lhe passagem até o assento solitário daquela fortificação de vidro.

Ao sentar-se, algo penetrou rapidamente e com um pouco de incômodo sua nuca. Uma leitura de retina foi realizada por uma fraca luz azul, acompanhada de um suave zunido. Um instante depois, um capacete descia e se acoplava em sua cabeça, óculos especiais encaixavam-se em seus olhos, agulhas perfuravam as veias de ambos os braços e um painel de controle surgia-lhe na frente, flutuando à altura do abdome. Tudo isso nos poucos segundos necessários para que a pequena porta da redoma se abaixasse, fechando-se silenciosa e hermeticamente - apartando-o da realidade exterior.

Os seis técnicos trocaram olhares e gestos que denotavam satisfação. A fase de acomodação e simbiose indivíduo-console estava completa.

***

D. T. tinha agora os olhos injetados, fixos em pontos definidos da gigantesca tela de trezentos e sessenta graus que a estranha redoma de vidro havia se transformado, e a qual, rodeava-lhe completamente. Suas pupilas dilatadas e inquietas revelavam tensão e atenção extremadas, e o contínuo injetar de drogas estimulantes em sua corrente sanguínea intensificava ainda mais suas capacidades cognitivas e sensoriais. Seus dedos frenéticos moviam-se com espantosa rapidez - rivalizando com o deslocar de seus olhos. Os controles sob suas mãos eram operados rápida e eficientemente, enquanto sua poltrona girava com desvairada velocidade e precisão. Hora ou outra, seus olhos reviravam e sua respiração e batimentos cardíacos, monitorados com doentio esmero pelos sujeitos fora da construção vitralizada, tornavam-se mais intensos.

O grande abrigo de vidro exibia, em toda a sua extensão curvilínea, imagens de guerra e terror. Explosões e mais explosões tomavam consideráveis partes da tela. Em outras, soldados destroçados, rajadas de armas cada vez mais letais, fogo e confusão preenchiam tal pandemônio. Essas cenas alternavam-se, tal qual antigos jogos de videogames, com visões panorâmicas, aéreas, da totalidade do terreno. Nestas, viam-se umas dezenas de máquinas humanoides, forjadas em aço, devastando e massacrando uma cidade periférica qualquer. Edifícios em chamas, carros destruídos e capotados, pessoas mortas ou correndo insanamente. Se Deus olhava e cuidava sobre a face do globo, nessa hora sua face estava distraída e virada para algum outro canto do universo. Aquele pedaço miserável da Terra, nesse momento, era perscrutado, cuidadosamente, e de um assento remoto e solitário, pelo jovem D. T.

Alteravam-se novamente a visão e as imagens da tela. Mais uma vez via-se tudo de perto, frontalmente: esguichos vermelhos, misturados à poeira, respingavam na câmera dianteira do módulo de batalha. Tudo com os movimentos rápidos e precisos dos dedos de D. T. Inimigos eram atravessados violenta e bruscamente por potentes e letais raios luminosos; em desespero, escondiam-se onde era possível: dispositivos de busca os localizavam e, simultaneamente, os destruíam; granadas solares os secavam até seus ossos retorcerem-se, expostos e calcinados, após céleres toques e deslizar de mãos.

***

Pouco mais de uma hora se passara. O suficiente para que os clarões de bombas fossem diminuindo, dando lugar à devastação caótica e irracional, escombros, cadáveres e uma quantidade estonteante de fumaça subindo e encobrindo um habitual cinzento céu lá no alto.

Estimulantes pararam de escorrer para as veias de D. T., enquanto seus movimentos iam ficando mais lentos e seus olhos começavam a  assumir seu aspecto frio e corriqueiro. O drone de batalha projetava, desta vez e do alto, a imagem de uma dezena de módulos de batalha vasculhando o perímetro e eliminando, aqui e ali, os poucos sobreviventes caídos pelo caminho. A cidade fora tomada. A missão de anexação e expansão territorial tivera êxito.

Os tubos que conectavam D. T. à poltrona giratória foram retirados, óculos e capacete foram devidamente suspensos, e um último toque de dedos desconectou seu cérebro da fortificação de vidro e fez desaparecer todas as luzes e cenas e monitores ao seu redor. Ele levantou-se um pouco ofegante e tomado por uma leve tontura, com algumas gotas de suor a escorrer-lhe das faces. Dirigiu-se à saída transparente, deixando atrás de si uma caixa craniana vazia e mortal.

Um dos sujeitos da sala apertou-lhe as mãos, amparando-o e guiando-o até seu alojamento, para que ele descansasse. O caminho estava apinhado de jovens iguais a D. T., saídos, igualmente, de outras tantas esferas vítreas, todos em direção a um obrigatório descanso.

***

Horas depois, já descansado e em seu alojamento, D. T. recebeu, via dados digitais e em seu córtex cerebral, o relatório da missão. Rapidamente absorveu as informações e, mais uma vez, surgiu algo que o diferenciava de uma máquina qualquer. Um quase imperceptível sorriso de satisfação, orgulho e patriotismo brotou espontaneamente no canto de seus lábios ao ler as últimas linhas da síntese do documento:

Anexação e expansão de território concluídas com sucesso.

Margem de êxito da missão: 100%;
Baixas entre o inimigo: 100%;
Baixas do Império Ocidental: 0%;
Tempo efetivo de realização da missão: 1h e 13 min.;
Tempo a ser superado: 1h e 05 min.;
Pontuação do soldado D. T. : 0.98 (escala de 0 a 100).
Fim do relatório.


segunda-feira, 31 de julho de 2017

Por dentro

Somos labirintos.
Que se fecha e faz perder
quem entra pra ver.
                  (Haicai XXIV)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Carta espacial pós Rauzito

Ei, moço do disco voador,
que anda meio esquecido
mas que foi cantado com fervor
em tempos idos

Resolvi te escrever isso
só pra você saber
que ainda estamos aqui. E além disso,
esperamos uma visita acontecer

À maneira de antigamente:
com bastante luz...
pouca gente...
um ovoide que reluz...

Divertindo-se com seu belo disco
nos céus deste planeta...
preenchendo-os de riscos
de reluzente cometa...

E se possível
nos garanta aquela viagem
tão sonhada... até mesmo implausível
aos que não têm coragem

Aquela viagem pra qualquer lugar
(pro)fundo do espaço sideral
pra longe de tudo. E pra terminar:
Um abraço terrano mas Universal.

P.S.:
Te peço que venha urgentemente
em dobra espacial, na velocidade da luz
pois por aqui, basicamente,
o Caos é quem conduz

Tudo desaba, vai mal
e o homem não quer mais nem pensar...
tá rastejando num buraco irracional
e contentando-se em lá ficar.

domingo, 2 de julho de 2017

A bela e estranha Dylan Dog - Retorno ao crepúsculo


Dylan Dog

Uma região fronteiriça dos mundos dos vivos e dos mortos. Um homem que conhece tal lugar e deve, mais uma vez, ir até lá, agora ajudando uma jovem desconhecida e com um problema a ser resolvido. Tempo e espaço misturados e confusos, teorias para deter a morte, devaneios, realidades e reflexões sobre a profusão existencial do universo.

Algumas histórias são tão ricas quantos às possibilidades imaginativas e interpretativas que, findadas, nos deixam um mosaico de sentido, um quebra-cabeça semântico que vamos, inquietos, tentando montá-lo; porém, depois de concluída tal montagem, não conseguimos - talvez por estarmos próximos demais do objeto - observá-lo como um todo.

Dylan Dog - Retorno ao crepúsculo é uma dessas histórias. Escrita pelos artistas Tiziano Sclavi (texto), Giuseppe Montanari e Ernesto Grassani (desenhos), é uma trama absurda, calcada nas dualidades que perpassam o ser humano: vida e morte, sonho e realidade, desconhecido e cognoscível, mente e corpo, lá e cá... e mais uma porção de opostos que existem, parece, para nos comple(men)tar (e atormentar! também).

Até então nunca havia lido nada da personagem. Confesso, entretanto, que a vontade sempre se fez presente - mas os caminhos, muitas vezes, nos lançam em outras direções... Depois de feito, com a presente publicação da Editora Lorentz, vejo-me surpreendido e embaraçado com a força criativa da HQ - tão bem desenhada e, muito mais ainda, escrita. Em suma, é uma peça fantástica - com tudo de positivo e interpretativo que tal palavra contém em si.

Já nas primeiras páginas fui obrigado a reler, pois percebi que não seria apenas uma simples narrativa de terror. Não. É complexa e metafórica - e tais atribuições vão se intensificando com o desenrolar do enredo, chegando ao ápice de nos mostrar o contista Allan Poe num universo onírico e filosófico, subindo e descendo escadas extraordinárias até deparar-se com um "inferno" bastante familiar ao leitor: o século XX (e o XXI também, claro!).

A personagem principal, o detetive Dylan Dog, é ofuscada pela presença de outra: a dualidade existencial. Assim, a vida e a morte, o real e o surreal são os verdadeiros protagonistas da narrativa, nos sufocando, pressionando e impelindo para alguma de suas extremidades. Nos forçando a observar, aprender e caminhar para fora de nossos mundinhos confortáveis - metaforizados pelo equilíbrio dos polos que, na trama, aparece como a região conhecida por Zona do crepúsculo. Logo, talvez, nem dia nem noite, nem vida nem morte, nem realidade nem fantasias... Mas sim a compreensão e apreensão do todo, pois é um todo que nos define e, portanto, nos orienta o existir. 

Essa Zona crepuscular parece simbolizar o Desconhecido, simples e ao mesmo tempo complexo; e este, metaforiza-se inteligentemente na figura da significativa personagem Opal - encapuzada, escondida, sensível, perseverante... às vezes repugnante e, em outras, atraente e irresistível. É sempre o Desconhecido que nos impele a algum lugar, a algum dos extremos do existir... ou à apatia da vida. É ele que nos move em direção a sentidos e significados. Na narrativa é, pois, ele (ou ela, Opal) que atrai Dylan e o lança na aventura insólita da edição.

É claro que a contextualização existente acerca do conto O caso do sr. Valdemar, de E. Allan Poe, base da narrativa, vem a calhar. Mas, mais interessante é suspender a leitura da HQ lá pela metade e mergulhar na referida e aterradora, sinistra, mórbida peça literária, publicada em meados de 1845. O clima da leitura muda completa e complementarmente pra melhor - garantindo um tom ainda mais sombrio à história. Sombrio e assustador!

Garantindo maior inteligência à aventura, o que não poderia faltar, há as críticas ao homem e ao modo como este encara a vida - críticas ora mais, ora menos, contundentes, porém sempre presentes. Uma delas é a indagação, feita por Dylan, se não estamos todos confinados à Zona do crepúsculo, repetindo gestos, palavras, pensamentos, perguntas e respostas dia a dia, incansável e imperceptivelmente...


Outra, mais crua e direta, é o "inferno" (segundo Poe) que habitamos. Essa torrente infindável e colossal de coisas e pessoas e concreto que atordoa, oprime e sufoca nossas sociedades modernas e civilizadas...



Há, ainda, o questionamento sobre o que é, de fato, o real, e como despertamos para a realidade: dormindo ou acordando?

O uso dos recursos da linguagem dos quadrinhos também é bem feito, enriquecendo ainda mais a HQ, como podemos perceber a partir das sequências dos quadros e imagens contidas abaixo...





Referenciando e homenageando Edgar Allan Poe, Dylan Dog - Retorno ao crepúsculo é absurda e fantástica. Inteligente, estranha, assustadora, inquietante e, acima de tudo, INTERESSANTE; espatifa nosso pensamento e nos deixa atordoados na busca por sentido. É, pois, uma excelente experiência de leitura, e torna tudo o que foi dito neste texto apenas uma pequena mostra das várias e variáveis impressões que a narrativa nos proporciona. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

A graça literária em O caso de Charles Dexter Ward, de Lovecraft

Uma parte interessante a respeito da literatura, que é, grosso modo, a palavra empregada artisticamente, reside no acabamento formal de determinada obra. Sendo, pois, a arte literária a materialização de suprarrealidades, de mundos fictícios - reflexos verossímeis, portanto, da nossa realidade -, a expressão de um conteúdo por meio de palavras, contida na dualidade forma X conteúdo, é indissociável para a expressividade artística de qualquer peça dessa natureza.

Edificar universos. Eis o fundamento da arte da palavra. Seja romântico, fantástico, de horror, aventuresco e investigativo, de crítica social etc., estes universos são forjados pelo léxico, ou seja, tomam formas a partir da inter-relação, seletividade e disposição deliberada deste. Tal qual arquiteto, portanto, labuta o escritor.

Sendo assim, se a literatura é essa dança entre forma e conteúdo, significante e significado, pode-se estabelecer, prontamente, que parte da graça desta arte existe apenas quando o primeiro elemento da dicotomia citada é TRABALHADO - com esmero, apuro e dedicação deliberada. Caso contrário, é somente mais uma história entre tantas outras existentes. Em O caso de Charles Dexter Ward, do norte-americano H. P. Lovecraft, tem-se um perfeito exemplo do que foi até aqui exposto.

Na obra, conta-se a história de um sujeito, Charles, que, interessado em arqueologia e antiguidades, descobre a existência de um parente antigo, praticante de magia negra e pesquisador do ocultismo. A partir dessa constatação o protagonista se lança num passado sombrio e de horrores cósmicos - elementos da mitologia criativa e do estilo do autor.

Na sinistra trama, extremamente rica quanto à linguagem utilizada, e de um alto nível de detalhamento, depois de descobrir a existência de um tio, cuja bruxaria nefasta se resume ao oculto e sobrenatural, Dexter Ward se embrenha em pesquisas acerca de rituais mágicos até, inconscientemente, trazer em si mesmo a reencarnação macabra do sinistro parente - o feiticeiro Joseph Curwen.

Além de ser uma ótima história de horror e investigação, destaca-se no livro o requinte linguístico em alto grau de formalidade, obviamente empregado para a obtenção de efeitos de sentidos relativos ao passado histórico que sustenta a trama, e o detalhamento quando da construção da narrativa, com um bom e paulatino progresso dos acontecimentos - até o seu terrível auge. Tais elementos engrandecem e edificam a leitura da obra.

Com referências a entidades cósmicas e abissais, práticas ritualísticas, investigações ocultas em livros velhos etc., O caso de Charles Dexter Ward consegue ser interessante, envolvente e assustador, deixando de lado sustos bobos e aparições sobrenaturais tolas e desnecessárias bastante presentes nas histórias de terror. Assim, por meio da materialização tensa, profunda e rica desse enredo simples, tem-se a riqueza expressiva da qual se extrai parte fundamental da referida graça literária.

É, portanto, todo esse trabalho formal, esmerado,  por parte do escritor, que torna os mundos ficcionais mais sensíveis, verossímeis e palpáveis ao leitor. Sem a construção e exploração dos sentidos que a forma garante para o conteúdo, qualquer enredo - por mais interessante que venha a ser - torna-se menos instigante e, consequentemente, a obra artística resultará insípida e superficial.







quinta-feira, 11 de maio de 2017

Noite (simbolista)

Permaneci acordado
Enquanto a noite caía.
Tal qual caixão, soterrado
Em profunda terra fria.

Escuridão e eu só
Inerte, vagando a eternidade...
Tornando-me pó
Entre o Nada e sua imensidade.

E ainda assim, no escuro,
Entre vermes e lodo,
Havia poesia.
Que de furo em furo
Invadia e consumia eu todo
Na noite que caía.

E dos buracos de mim mesmo
Nascia flores e vida, a esmo.

E eu girava pela eternidade
Entre o Tudo e o Nada e sua intensidade.

Eu raiz de tudo, agora espalhado
Na noite que caía
Integrava-me ao mundo, feliz e calado...
E entre os sussurros da poesia
Tudo morria e renascia, mais forte
Dentro da noite fria.

                                        (novembro/2016)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Sabedoria (atemporal)

Reitero que sei
Somente que nada sei
Séculos depois...
                         (Haicai IX)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Solidão

É noite. Espero meu raio de sol penetrar pela porta cerrada que me protege do mundo. Protege, mas também me aprisiona comigo mesmo. E uma porção de pensamentos que rodopiam furiosos dentro de mim.

É trevas. E não há flores. Apenas ruídos de um rádio qualquer, que toca uma música qualquer, e em ritmo igualmente qualquer. De qualquer forma não presto muita atenção mesmo...

Penso besteiras e um nevoeiro embaça meu pensar. É espesso, vai cobrindo tudo. Perdido nessa bruma que é a solidão, espero. Espero meu sol voltar e dissipá-la, salvando-me de mim mesmo. Porque sei que não importa a densidade e a frieza de qual seja o nevoeiro, o raio solar sempre irá destruí-lo e aquecer novamente o mundo.

E as flores crescerão de sorrisos e olhos brilhantes, e a noite aqui dentro de mim será dia de novo.

                        (setembro de 2013)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Depois de Maus e A metamorfose...

O mundo assemelha-se a um robô das produções oriundas da ficção científica. Um autômato distópico construído há milhares de anos que, com o passar destes, desenvolveu-se mais e mais, aprimorando-se dia a dia até atingir uma inteligência única, superior, artificial e, muitas vezes, maligna. E agora nós, pobres seres humanos, somos peças dessa gigantesca máquina com vida e vontade próprias.

E ele vai, naturalmente, nos envolvendo, nos assimilando em sua estrutura sinistra. Vai estraçalhando nossos eus com suas vorazes e doentias engrenagens... Nos compelindo a encaixarmo-nos em suas juntas férreas, enfumaçadas e sujas de óleo, à medida que avança desenfreadamente sobre a gente, como um rolo compressor  incansável e indestrutível.

Tudo num absurdo só. Artificialidades transformadas em coisas naturais, impossíveis de serem alteradas por esses simples chips que somos nós. E comprimidos, espremidos nessa imensa máquina autocontrolada, oprimidos por tudo quanto é lado, somos condenados a viver, sob seja lá quais desígnios a nós reservados por esse estranho mundo. Aprendendo e assimilando fatos insólitos, absurdos diários, como naturalidades.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

ano-novo

Enfim: ano-novo.
E outra vez a vida segue,
desbravando o novo.

             (Haicai XVI, 02-01-2017)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Obra final

O sujeito acordara tomado de inquietude. Levantou-se sobressaltado, a mente um fervilhão só. Andou de um lado a outro pelo seu pequeno quarto, cujas paredes de aspecto mofado iam do chão ao teto, apinhadas de livros, cadernos gastos, papéis e mais papéis. Ele sabia que, hoje, talvez agora mesmo, escreveria algo grandioso; algo que marcaria indelevelmente as Letras  universais.

Agarrou prontamente a caneta, alcançou um caderninho todo rabiscado, feito em material barato e... Nada. A mente em rebuliço fechara-se. E um desfile de trivialidades atravessou suas avenidas principais.

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Jogou tudo a um canto, com estardalhaço. Passou a mão pelo rosto. Com fúria e desalento lembrou dos prazos com seu agente, com seu editor. Nervoso, dirigiu-se à janela. Uma lufada de vento refrescou-lhe as faces.

Olhou o horizonte longe, pontilhado de luzes. Percorreu com os olhos cansados as ruas lá embaixo, seguindo alguns faróis - vaga-lumes na noite - até uma curva qualquer que os escondesse.

Inclinando ainda mais a cabeça para baixo, pensou nos prazos, em seu agente irritado, no editor aguardando respostas. Cerrou a mão. Respirou fundo, exausto, e com força. Passou as mãos no rosto e afastou prontamente, com um balançar de cabeça, a ideia que, nos últimos dias, insistia em apoderar-se de seus pensamentos. Tal qual uma patologia crônica.

Abruptamente fechou a janela. Encaminhou-se até o caderno e à caneta, espalhados pelo chão do apartamento. Recolheu ambos. Tentou escrever novamente. Em vão. Largou os objetos sobre a mesa. Percorreu o olhar por alguns dos volumes em suas prateleiras. Pensou nos grandes autores, dispostos lado a lado, aleatória e displicentemente. E mais uma vez lhe veio à mente os prazos, seu agente, seu editor...

Lentamente dirigiu-se à janela. Abriu-a. Olhou para longe. Em seguida para baixo. E novamente para longe... Suspirou fundo... Uma miríade de luzes da cidade aproximava-se de uma infinidade de estrelas que se tornavam mais visíveis à medida que a noite se aprofundava no céu. Tudo suspenso num negrume só.

...................... Olhou até fundir-se, também, nos pontinhos prateados do terrível universo... Sentiu o corpo em velocidade. Um vento rápido e agradável atravessava-lhe o corpo de modo estranho. Tudo passava numa velocidade estonteante, e ele já não sabia o que acontecia. Apenas sentia como se aproximava, cada vez mais, das estrelas.

Lembranças boas mesclavam-se ao pensamento, enquanto uma calma quase celestial invadia, paulatinamente, todo seu ser. E cores passavam em majestosos e fugidios borrões pelos seus olhos, pintando um quadro tão único, numa linguagem tão simples, clara, mas inexplicável. Uma vertigem dominava-lhe os sentidos, na mesma proporção que se entregava àquela inebriante sensação de liberdade e plenitude velozes.

Um baque surdo na calçada. Aglomeração de pessoas em torno de alguém que caíra do último andar de um edifício... O corpo, pastoso, espalhava-se no chão. Esguichos vermelhos formavam um raio ao seu redor. O sangue brilhava e refletia as estrelas e luzes do alto.

Os olhos, ainda brilhantes, fitavam, além, o céu noturno. Um brilho e ternura puros visavam constelações longínquas, com uma convicção sublime de alguém que descobrira algo único. Algo que colocava qualquer artista num nível elevado de criação.

                                                 (? - 22/11/2016)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Do vento

O vento soprou
trazendo alento e alívio
pelo que passou.
             
                    (Haicai XIV, 17-11-2016)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Despedida

É triste, mas necessário, dizer adeus. Triste porque, a partir de agora, restarão apenas lembranças; e necessário pois as pessoas, em geral, só evoluem após a passagem de etapas e obstáculos que encontram em seus caminhos.

Assim, é com bastante orgulho que eu vejo o final desse ciclo na vida de vocês, alunos - afinal sei o quanto foi difícil para cada um vencer essa batalha representada pela escola.

E quando me refiro às dificuldades, não quero dizer apenas as relacionadas aos conteúdos escolares. Falo das dificuldades da vida mesmo: problemas pessoais, adolescência, sociedade, trabalho, desejos, medos, esperanças, frustrações etc. São estes obstáculos que vocês venceram diariamente para conseguirem estarem aqui. E é por isso que vocês têm a minha eterna admiração.

Saibam que, além de vitorioso, esse adeus representa metade do sucesso das suas vidas. E esta metade será o degrau que os levarão ao sucesso que os esperam. Desejo e sei que encontrarão este sucesso - seja ele qual for.

Deixo, aqui, um último conselho: apesar dos problemas que surgirão na estrada que irão trilhar, permaneçam nela até o fim e serão vitoriosos como foram aqui. Não desistam nunca, pois como diz Raul Seixas em uma de suas músicas "nunca é tarde demais pra recomeçar tudo outra vez".

Sejam críticos e observadores do mundo que nos rodeia. Aprendam a cair e, principalmente, a levantar. Tornem-se, dia após dia, melhores, inteiros e, assim, grandes. Sempre.

Abraços e (mais) vitórias.

De alguém que quis ajudar. Sinceramente.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Teu olhar

Sol castanho, vem!
Ilumina todo eu:
fora e dentro e além.

            (Haicai VIII, 28/10/2016)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Um novo mundo. Um Mundo Paralelo

A recente publicação em quadrinhos Mundo Paralelo - aventura e ficção surge para dar novas esperanças aos entusiastas do quadrinho nacional. De estilos variados e temática centrada na ficção científica e fantasia, a HQ faz jus ao usar os adjetivos "insólito" e "fantástico" em sua (extraordinária) capa, dada a qualidade da obra.



Editada por Walter Klattu, e com colaboração de Edson Simão Jr., Ilma de Moraes e Rogério Rocha, Mundo Paralelo conta com treze histórias curtas - todas em preto e branco, belamente ilustradas e com boas narrativas - ao longo das suas cerca de 150 páginas.

Seu tamanho grande contribui para o forte impacto visual causado por bons desenhos, além de aumentar a expressividade de algumas histórias, como é o caso de Obuz, de Eduardo Cardenas e Walter Klattu, e Arena, de Fábio Cobiaco e Klattu, por exemplo.

Ao preço de 8,00 reais, o quadrinho surge rompendo o paradigma de que boa qualidade está atrelada a um alto valor, já que é possível, em Mundo Paralelo, encontrar um bom resultado tanto na forma e acabamento quanto no conteúdo das narrativas.

Diante de tantas histórias presentes na obra, há, obviamente, as mais e as menos interessantes, a depender do tipo de leitor atingido por elas - o que, por ser variadas as narrativas ali contidas, variados também serão seus leitores (espera-se!). Destaca-se, aqui, a joia Macarius, com roteiro de Nando Alves e desenhos de Júlio Brilha; Obuz, de Klattu e Cardenas - roteiro e arte, respectivamente  -; a insólita e intrigante Loop, de Caio Majado (arte) e Stefano Robert (texto); a dinâmica e visual Arena, com texto de Klattu e desenhos de Cobiaco; e as fantásticas Muru (Sam Hart desenhos e Klattu roteiro) e Urian - com a fabulosa arte de Mozart Couto e a boa escrita de Rose Mário, encerrando a revista.

Mundo Paralelo - aventura e ficção é, por fim, um gibi que vem para preencher o espaço deixado pelas revistas Vertigo, Dark Horse Apresenta e Juiz Dredd Megazine, não mais publicadas, e nos transporta à época da incrível Heavy Metal e Aventura e ficção, esta última da editora Abril. É, portanto, uma porta de entrada para o novo mundo do que há de melhor nas narrativas gráficas do Brasil. Vida longa à promissora publicação.


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Resposta do mundo

Ouvir o grito
estridente
do silêncio
perguntando
"Quem é você?"
E ter como resposta
apenas o barulho
silencioso e insuportável
do mundo em movimento
em velocidade
que numa babel de vozes
e ruídos
sabe a resposta
grita a resposta
nos dá a resposta
- incompreensível
fragmentada em tudo
e que por isso mesmo
ecoa como indagação:
"QUEM SOU EU"?

                                  (Setembro de 2013)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

HQs

Histórias

em

q u a         d  r  i        n h o s
s   d         a     n        i     q
o   r         u     h        r d a u
h n i         q  s  o        

Q                  u               a

s           Histórias em           d

o       h         n       i        r

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Noite

toda noite
toda a noite do mundo
tá aqui
tá aqui dentro de mim

escura
escura o suficiente
pra ofuscar
pra ofuscar e fazer sumir todo eu

... que vagueia
que vagueia e tateia
na escuridão
na escuridão de si mesmo

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Reflexão aos 28

A vida é probabilidade
emaranhada e dispersa de forma aleatória
numa profusão de existências
que segue
por rotas tortas
setas retas
ruas nuas
becos
escuros...
caminhos
que dão de frente
- sempre -
com o acaso.

                                                      (08/01/2015)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Poema-canção

Calma, morena
remenda mais uma vez
as rachaduras e
não deixa transbordar
as lágrimas

Que a dor final
ainda está pra chegar

Agarra as migalhas
boas que a felicidade
nos atirou
amarra os teus amores
bem forte contra o peito convulso
e aguenta mais um pouco

Que a dor final
ainda vai chegar

Inunda teu ser...
mas não transborda:
bote
às coisas boas
morte
a todo o resto

Que a dor final
logo vai chegar

Suga do mundo
a beleza
toda a grandeza
da pequenez humana
e se entorpeça
pra aguentar mais um pouco

Até  a dor final
que já vem

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ausência tua

passo
com arrastados passos
os espaços
infindáveis e vazios
da casa

caminho inquieto
o caminho quieto
que faz lembrar você

vago
com pesar
os cômodos vagos
e preenchidos
pelos vãos da falta sua

corro e percorro
divago
perdido neste universo-lembrança
da tua ausência

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Desigualdade mundial (repetição absurda)

Século XXI:
2016.
99 por cento
de toda a riqueza do mundo
está nas mãos
de 1%
da população do planeta!

Vinte e um séculos de história:
Dois mil e dezesseis.
99%
de todo o dinheiro do mundo
concentra-se nas mãos
cofres bancos conglomerados industriais mansões
pequenas ilhas...
de 1% das pessoas da Terra!

2016 anos
de riqueza
(concentrada)
na posse de 1%
dos homens.
E a humanidade?

Dois mil e dezesseis anos.
Sete bilhões sobre o Globo.
E 1% dos seres (humanos?)
detém (!)
NOVENTA E NOVE %
de TODA
a riqueza do mundo!

99%
de toda a riqueza
DO MUNDO
está nas mãos
de UM %
da população do planeta!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

H. P. Lovecraft



Howard Phillips Lovecraft (1890 — 1937). Este escritor é, sem sombra de dúvidas, um gênio da literatura de horror - e das Letras em geral. Afirmo isso baseando-me na recente leitura de duas obras que dão mostras da sua genialidade: A tumba e outras histórias e O cão de caça e outras histórias - esta última uma adaptação em quadrinhos de contos do autor.

O livro A tumba e outras histórias, publicado pela editora L&PM, é ideal tanto para quem já conhece Lovecraft, quanto para quem quer conhecê-lo. Isto porque, ao longo das suas pouco mais de duzentas páginas, pode-se encontrar três fases do escritor: uma apresentando-o com um estilo já consolidado, contendo os contos A tumba, O festival, Aprisionado com os Faraós, Ele, O horror em Red Hook, A estranha casa que pairava na névoa, Entre as paredes de Eryx e O clérigo diabólico; outra mostrando algumas de suas primeiras narrativas - tais como A fera na caverna (escrita aos quinze anos de idade) -, O alquimista, Poesia e os deuses, A rua e A transição de Juan Romero; e ainda mais outra, revelando alguns esboços  que poderiam vir a se tornar, futuramente, novos contos.


Quando se diz, aqui, sobre um estilo consolidado, refere-se às marcas linguísticas e temáticas encontradas na obra do escritor após 1920. Assim, pode-se ressaltar o requinte e rebuscamento da linguagem utilizada, as descrições pormenorizadas, o simbolismo fantástico contido nas narrativas, a narração em primeira pessoa, o horror psicológico das personagens e, principalmente, o medo evocado pelo incognoscível e misterioso deus Universo - visto que é nas vastidões do cosmo, entre as suas trevas inescrutáveis, que se concentra a fonte do terror de Lovecraft e de todos os homens: o Desconhecido.

A figurativização disso tudo aparece em O cão de caça e outras histórias, do mangaka (ou quadrinhista) Gou Tanabe, cuja arte casa-se perfeitamente com o estilo de Howard Phillips Lovecraft. O volume é de uma riqueza gráfica impressionante, que revela a morbidez, o horror, a atmosfera depressiva e lânguida, além de cenários decadentes, antigos e lúgubres que encerram personagens soturnos e fantásticos num turbilhão de irracionalidade e medo, divididos entre a vontade de penetrar o desconhecido e o temor de se defrontar com o que houver entre as trevas. Tudo isso num traço firme e detalhista, alicerçado num branco e preto muito bem trabalhado.



O volume, publicado pela editora JBC, é muito bem acabado e apresenta, além de O cão de caça, a adaptação de O templo e A cidade sem nome - os três contos datados da primeira metade da década de 20. As ilustrações de Tanabe suprem, perfeitamente, as descrições de Lovecraft, mantendo o clima pavoroso, denso e insano do escritor - fazendo da edição algo imperdível para quem aprecia a obra lovecraftiana.

Nascido nos Estados Unidos (Providence - Rhode Island) em meados do século XIX, H. P. Lovecraft ampliou a literatura de horror psicológico iniciada por Edgar Alan Poe. Com seu estilo romântico-simbolista, denso, lírico e fantástico, deixou uma obra vasta e rica, que flerta com o incognoscível, com o cósmico e com o eterno medo do homem em face ao que escapa-lhe à razão, arrastando-o para as trevas de seus terrores mais íntimos e assustadores. Esse elemento é o fundamento da sua produção literária e, ao longo do tempo, veio a ser a base criativa de uma infinidade de escritores sob sua influência, tais com Robert E. Howard (seu amigo), Alan Moore, Stephen King, Gou Tanabe e outros. Falecido em 1937, Howard Phillips Lovecraft mantém-se presente e atual por meio dessas duas preciosas obras geniais, ótimas para penetrar nas profundezas da imaginação do escritor.


P. S.: Fotografia de Lovecraft retirada das imagens do Google.



segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Dos cachos dos seus cabelos ao castanho dos seus olhos

Perdi-me num turbilhão
de cores e tons castanhos...
Tonteei, senti vertigem
e c
     a
       í

Em queda,
agarrei-me em teus cabelos...
nos cachos, embaracei-me
e me      p   e   r                    d   i

Daquela floresta escura,
cuj' único sol era castanho,
tornei-me habitante
e fugitivo de todo o mundo.

E estarrecido e hipnotizado por tal astro,
cujas brilhantes migalhas sobre mim derramava,
encerrei-me naquelas vastidões eternas
de amor e de mistério pro
                                       
                                       
                                         
                        F
                       
                        U

                        N
               
           
                                         
                           do.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Raul Seixas e seus extremos



Catalizador de extremos. Talvez seja esta a mais verdadeira e óbvia definição sobre a figura Raul Seixas e sua incrível e extraordinária obra poética. Poética? Sim, visto que, inicialmente, os poemas eram cantados com o acompanhamento de instrumentos musicais.

Claro que esta característica foi sendo deixada à margem ao longo da sucessão dos séculos, mas a sonoridade se perpetuou nas composições dos poetas, que exploravam cada vez mais o aspecto sonoro das palavras quando da confecção artística dos seus versos. Assim, pode-se, sim, considerar grandes feitos musicais como poemas.

E as músicas de Raul Seixas, muitas delas, são bons exemplos da definição dada no início deste texto, de que o músico foi um catalizador de extremos. Uniu em si e na sua poética o ordinário e o extraordinário, o popular e o erudito, o místico e intrincado com o real e de fácil assimilação. Roque e baião, jegue e lambreta, nacional e estrangeiro etc.. Enfim, metamorfoseou-se, deliberadamente, com o vulgar e o insólito, numa dança que amalgamava o velho e tradicional e o novo e contracultural, sendo um dos exemplos mais notórios  da antropofagia modernista na música brasileira.

Essa faceta multifacetada do maluco beleza é bastante visível se pensarmos nas músicas Conserve seu medo e Magia de amor - ambas com a coautoria de Paulo Coelho e pertencentes ao LP Mata virgem, de 1978 (WEA). A primeira representando o domínio de composições poéticas populares, ou seja, construída por meio de redondilhas - neste caso, menores - , e a outra revelando características eruditas, com versificação hendecassilábica, isto é, com onze sílabas poéticas em cada verso. As duas mostrando fundamentação literária.

Conserve seu medo

Conserve seu medo
mantenha ele aceso
se você não teme,
se você não ama
vai acabar cedo

Esteja atento
ao rumo da história
mantenha em segredo
mas mantenha viva
sua paranoia

Conserve seu medo
mas sempre ficando
sem medo de nada
porque desta vida
de qualquer maneira
não se leva nada

E ande pra frente
olhando pro lado
se entregue a quem ama
na rua ou na cama
mas tenha cuidado!

Além de ter uma mensagem linda e simples, de fácil assimilação, vê-se o uso dos versos pentassílabos, de cinco sílabas poéticas, na metrificação da canção. Esse tipo de versificação foi e é bastante usado em composições populares e seu uso mostra o quanto Raul conhecia as ferramentas necessárias para criar sua arte de acordo com suas finalidades expressivas. Assim, uma temática popular como em Conserve seu medo, é apresentada em estrutura também popular. Temos, aí, um bom exemplo de um dos extremos da criação raulseixista.

Por sua vez, refletindo o outro lado do artista,

Magia de amor

Me fascina tua morte mal morrida
e tua luta pra ficar em tal estado
E teu beijo, tão fatal, nunca me assusta
pois existe um fim pro sangue derramado

Me fascinam os teus olhos quando brilham
pouco antes de escolher quem te seduz
e me fascinam os teus medos absurdos
a estaca, o alho, o fogo, o sol, a cruz

Me fascina a tua força, muito embora
não consiga resistir à frágil aurora
E tua capa, de uma escuridão sem mácula

Me fascinam os teus dentes assustadores
e teus séculos de lendas e de horrores
e a nobreza do teu nome, Conde Drácula

Aqui, uma breve observação revela o uso da métrica hendecassilábica, ou seja, os versos se apresentam com onze sílabas poéticas, além das estrofes se materializarem em dois quartetos e dois tercetos, característica do soneto - que por si só já é algo requintado. Este tipo de versificação, de acordo com alguns estudiosos, marcou um novo estágio nas produções poéticas do século XVI, sendo ofuscado, posteriormente, pelo verso decassílabo (este sim, parte fundamental do soneto). Em Magia de amor, não há um tema popular; pelo contrário, há uma espécie de homenagem a um Conde, alguém de posição social elevada. Justamente por isso, essa temática é apresentada numa forma requintada e erudita, exemplificando o outro extremo da produção de Raul Seixas.
 
O que se quer dizer com tudo isso é que o maluco beleza transitava, deliberadamente, por esses extremos acima mencionados. Tanto em questões temáticas, quanto em relação à materialização expressiva desses temas, encontram-se os extremos popular X erudito expressos por versos redondilhos e hendecassílabos.

É claro que esses detalhes não são perceptíveis à maioria das pessoas; necessitam, pois, de uma análise e de um estudo para virem à tona. Porém, essas análises existem aos milhares para comprovar uma genialidade bem antes já revelada (e, aí sim, percebida facilmente por àqueles que escutam com atenção essas músicas) pelo conteúdo e pela mensagem das criações poéticas de Raulzito - esse eterno ícone da cultura brasileira.


   
P. S.: Imagens retiradas do Google.
P. S. 2: As informações referentes à versificação constam na Gramática do português contemporâneo, de Celso Cunha.

     

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Algumas palavras sobre o ótimo Projeto AYLA, de Marcelo Cassaro e Eduardo Francisco



Em um futuro próximo, o planeta já terá escapado de uma invasão alienígena, sua tecnologia será altamente avançada, viagens interestelares serão uma realidade e a criação de seres cibernéticos será a solução para a defesa da Terra, bem como para a exploração espacial. Esse é o pano de fundo de Projeto AYLA, a mais recente publicação em quadrinhos do escritor e roteirista Marcelo Cassaro.

O álbum, com pouco mais de 190 páginas, capa dura, e publicado pela editora Jambô, é ilustrado pelo artista Eduardo Francisco. Com um enredo que gira em torno de uma cientista e uma corporação tecnológica empenhados em desenvolver uma androide superpoderosa, um conflito entre duas raças alienígenas inimigas, além da figura de um agente (governamental?) que monitora atividades extraterrestres em nosso solo, este parece ser o melhor trabalho em quadrinhos, depois de Holy Avenger, de Cassaro. 

A narrativa, bem entrelaçada, é dividida em cinco capítulos, mais um epílogo, e apresenta uma ficção científica bem contada e muito bem expressada pelos traços firmes, e em estilo mangá, do desenhista Edu Francisco - como ele assina. Aliás, um simples folhear de páginas causa um impacto bastante positivo aos olhos de quem aprecia bons desenhos, tão bom o resultado final alcançado pelo artista na elaboração das personagens e dos cenários futuristas da HQ.

  


O roteiro, por sua vez, sintetiza bem o trabalho do veterano Marcelo Cassaro, mostrando-se dinâmico, especulativo e repleto de ação. É bem construído e arrematado, além de espalhar, ao longo das páginas, as referências que edificam a obra do melhor representante do gênero mangá e um dos mais competentes quadrinhista do Brasil. Assim, nota-se de maneira explícita sua apreciação pelo gênero literário F.C., bem como pela produção nipônica referente à nona arte e aos animes e, ainda, pela cultura pop em geral. Tudo isso incrustado no universo já estratificado do autor de Espada da galáxia.

Cassaro, com este Projeto AYLA, reafirma a sua familiaridade e experiência com o meio e se firma, ao lado de figuras como Bá e Moon, Mutarelli, Angeli e Laerte - cada qual com seus objetivos e estilos, obviamente - um grande contador e construtor de histórias em quadrinhos, revelando que, se fosse em outras terras, suas produções já teriam alcançado repercussão e visibilidade maiores nos diversos meios artísticos do cenário cultural nacional.
   
Repleto de robôs e artefatos tecnológicos, batalhas devastadoras e seres superpoderosos, este trabalho - inteligente, criativo e gostoso de ler - é mais uma daquelas obras que nos faz perceber que o mercado de HQ do Brasil tem um potencial gigantesco, com artistas altamente competentes, que precisa apenas ser explorado pelas grandes editoras.
   
Por fim, Marcelo Cassaro, juntamente com Projeto AYLA, representam motivo de orgulho para todos os entusiastas pela solidificação de um mercado produtivo e bem fundamentado em narrativas gráficas brasileiras. 


P. S.: Torço para a publicação alcançar vitórias com os troféus HQ MIX e Ângelo Agostini, em 2016.

P. S. 2: Um prólogo ou um texto introdutório seria bem-vindo ao trabalho. Além de uma revisão mais cuidadosa, já que em alguns balões faltam algumas palavras.

P. S. 3: Comprei a edição no Fest Comix, mas infelizmente não consegui um autógrafo...


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Você e eu. E só.

Não cabe neste poema
a alegria que tento escrever!
Mas escrevo ainda assim.
Na verdade, o que tem aqui dentro,
em rebuliço e exultação,
não caberia mesmo qualquer explicação,
pois esta prescinde ordem,
e não há razão neste instante
dentro de mim.
Até onde posso descrever,
há eu e você. E só.

Depois disso
minha racionalidade assiste a uma narrativa toda fragmentada
onde desfilam imagens de pernas e corpos nus
braços e abraços que se enroscam
e línguas que se queimam
num toque qualquer

Aí já é noite
o álcool entorpece
cigarros aquecem pulmões suicidas
enquanto um som alto
estremece o nosso filme
a nossa história
e tem dança
e beijos
e mais beijos e abraços

Vem a madrugada
cai uma paulistana garoa
e as pessoas passam
e as luzes dos carros ofuscam a realidade
dentro da noite escura e gelada
e tua voz agora é música
e eu sou todo plateia...

A razão, boquiaberta,
busca simetria,
tenta costurar o sentido
da caoticidade daquelas cenas.
Distingue os pares de olhos,
as duas estrelas da noite,
e para, estupefata,
no ponto de partida.
Onde tudo começou.
Até onde é possível descrever:
Você e eu.
E só.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Poema pessimista

O mundo, já velho, apodrece
Expondo gangrenadas feridas
Habitadas pelo Verme, que cresce
E as consome, em famintas mordidas.

Pus e sangue coagulado represam as veias
Enquanto um coração pútrido bate, em desespero.
O Verme, insensível, prossegue em sua mórbida ceia
Tendo, nesta podridão, sádico esmero.

Grandes nacos de carne podre abocanha
E devora-os sem compaixão.
À geração futura - esta ganha -
Os restos que caem pelo chão.

Verme gerando Verme a partir da podridão
Ao longo da insana história do mundo.
Que com estertores se debate, agoniza, em vão,
Morrendo num abismo sujo, escuro e fundo.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Alienação (?)

Agora:
a fome come com voracidade o vigor de milhares o suor escorre e corre das faces de um político qualquer prestes a ser preso por inúmeras "improbidades administrativas" outro grupo festeja um conluio secreto e sombrio que saqueia os cofres públicos a guerra passeia displicentemente pelos cantos do mundo novas armas são criadas testadas efetivadas vendidas doenças "surgem" por intermédio divino da grande indústria farmaceutica homens planejam a conquista do espaço vasto o universo ainda perturba por ser uma incógnita os fanáticos religiosos se autoexplodem por deuses jamais conhecidos inexistentes suicidas atiram-se de pontes prédios trilhos já não suportando a descoberta de múltiplas sufocantes realidades que nos são impostas toneladas de lixo e fumaça química são atiradas na lixeira caída ao chão dos céus e sorvidas em pequenas doses diárias por nossos pulmões de ferro árvores e animais e homens entram em extinção genocídios dizimam índios negros palestinos mendigos idosos o dinheiro compra honestidades cumplicidades lealdades vidas e mortes e tudo isso passa a ser natural e prende-se com viscosidade pegajosa nas teias das rotinas do nosso dia a dia nos fazendo coniventes passíveis apáticos pacíficos a consciência procura alienação 
Aqui e agora:
a mente abstém-se de tudo (?)
garimpando rios de linguagem
atrás de palavras (certas?)
e as incrusta neste inútil poema.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Olhando o mar

Da areia
olhávamos o mar
e a hipnótica formação
das incessantes ondas
sob a eterna noite -
que soprava um hálito
suave e úmido
em nossos rostos.

Agora navegávamos.
Em nós mesmos.
Envolvidos pela sinfonia
interminável
do marulhento deus-Mar.

(ela abrigada em si mesma
e eu encerrado em mim
e cada vez mais longe e profundo
navegávamos em nós)

Tempestades... e colossais ondas
arremetiam contra a f-r-a-g-i-l-i-d-a-d-e dos barcos
Vent
os furio... sos
os
açoit... avam
Re
    lâm
         pa
    gos
e
TRO... VÕES! castigavam-nos...
O mundo parecia não nos querer

E então naufragamos
no bravio mar-Interior -
profundo e violento de medo.
A força das ondas nos atirou
de volta à Praia.
Éramos embarcações salva-vidas um do outro:
Nossos olhos: faróis
Nossos abraços: âncoras
E nossos beijos: AR.

E dentro daquela noite
sobre a areia beijada pelas águas
nasceu um sol
à beira-mar.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Primeiro beijo

Se eu pudesse
eu ficaria ali
parado
e perdido
no tempo

Aquele tempo infinito
em minutos e segundos
envolvendo nossos lábios
e nossos olhos
e nossos corpos

Eu ficaria por ali mesmo
embalado por nossos corações
(tum, tum tum, tum, tum tum...)
perdido num sentir macio
e úmido da sua boca

E exigiria a suspensão de tudo:
Que tudo pare!
E que só nós existamos
E que o mundo sejamos nós
E que nele pairemos nos ares
Impulsionados pelo nosso eterno
E primeiro beijo.

Criando imagens em meio à tempestade

a umidade desprendia-se de um céu tingido de noite
mãos invisíveis riscavam
de maneira aleatória e com giz prateado
a negra lousa noturna
explosões balançavam-na
enquanto um forte vento
varria violentamente o chão encharcado da Terra

um céu líquido desabava em gotas frias
que desfiguravam meu rosto 
e as árvores 
e as coisas todas do Mundo
enquanto flashes fotográficos registravam
em fotografias preto e branco
imagens de desespero
dentro da tempestade.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A força expressiva de Watchmen



Após quatrocentas páginas, terminei a leitura da obra máxima (?) de Alan Moore e Dave Gibbons: Watchmen (1986/1987). Há, ainda, umas dezenas de folhas com extras que umas duas horas resolverão. Enquanto lia, ainda sob o peso do forte impacto do roteiro de Lição de anatomia, também de Moore, fui anotando algumas coisas a respeito da história - pois sabia que me sentiria obrigado a registrar por escrito minhas impressões sobre algo tão singular no universo da arte sequencial.
             
A primeira qualidade perceptível já a partir das primeiras páginas do gibi é a riqueza do roteiro. Este é escrito e disposto de maneira detalhada, intrincada, cuidadosa. Não há pontas soltas; tudo é perfeitamente amarrado e perturbadoramente profundo. Nada, na trama, é superficial. Muito pelo contrário: com o avançar das edições, o nível de profundidade só aumenta, nos impelindo, forçosamente, à reflexão.
                            
Em Watchmen há algo, genuinamente, sem igual. O que ora parece uma história panorâmica do tão conturbado século XX mostra-se, ainda, maior. Explora o conceito de heroísmo e super-heroísmo, bem como a ascensão do gênero nos quadrinhos nas décadas de 30 e 40, a paranoia do fenômeno UFO - alimentada com a divulgação de A guerra dos mundos, de Orson Wells -, o cinzento pós-guerra e suas consequências: a questão do Vietnã, os mandos e desmandos políticos das potências mundiais (em especial, a dos EUA) e, principalmente, o medo ante a iminência de um conflito nuclear apocalíptico, resultante da Guerra Fria.
                
Ainda permeando a trama com fatos do século XX, Alan Moore espalha mais algumas importantes referências, tais como: literatura Beat, as experiências alucinógenas de expansão da mente por meio de algumas drogas, a valorização das culturas orientais, o avanço desenfreado (e inconsequente!) da tecnologia, o avanço do capitalismo e a sua hegemonia com a globalização. Enquanto o (frio) Dr. Manhattan simboliza a descoberta, o uso e o poder nuclear, Adrian Veidt representa o inescrupuloso e poderoso mercado. É nestes dois personagens que está o núcleo, o centro da HQ.
                
Watchmen nos apresenta uma realidade distópica, onde a loucura e a paranoia com o fim do mundo coexistem com a esperança de um futuro de paz. Uma paz imposta com autoritarismo e com as “maravilhas” que os mercados podem oferecer. E por isso mesmo há uma aura nostálgica envolvendo a narrativa. Uma nostalgia de quando se acreditava que o mundo não era tão complicado.
                
A guerra, a sordidez política, o comodismo e o distanciamento entre os homens, a bipolarização do mundo, a desigualdade social são o pano de fundo onde circulam pessoas feridas pelos anos e pelas condições impostas pela vida. E quando pensamos haver alguma esperança, algum resto de sensibilidade dos poderosos, somos surpreendidos com o apocalipse.
                
Deus, um ser híbrido constituído de megalomania, beligerância atômica e “princípios” mercadológicos nos condena a um “paraíso”. Nos ofusca com o brilho de uma paz fabricada e nos afoga no comodismo de um universo globalizado e politicamente correto. Nos lança, paradoxalmente, nas trevas luminosas de um mundo “pacificado”

..................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... Mas Watchmen é muito mais que isso. É de uma profundidade sem igual. E eu poderia ainda tentar falar do por que ser o centro de tudo um simples jornaleiro, seus clientes e sua banca de jornal. Ou mesmo tentar discutir a "loucura" e as sequelas proféticas de Rorschach. Ou mesmo a sensibilidade e fúria de Laurie. Ou a metáfora viva da comédia humana: o Comediante. Ou... a relação do mundo presente, e seus personagens, com a narrativa pulp que engendra a trama...

O roteirista parece ter um segredo. Um segredo indispensável a qualquer um que queira trilhar estes caminhos: escreve com a obrigação de tentar conceber a melhor obra artística já criada pelo homem. É exigente além dos limites consigo mesmo, tem uma obrigação social, estética, moral e política na realização de algo inconcebível. E, por isso mesmo, sua criação não pode ser adjetivada por outras palavras que não sejam extraordinária, fantástica e genial.
               
Enfim, a obra é vasta - em política, filosofia, história, literatura, psicologia etc. - é atemporal - embora dependente daquele contexto histórico específico - e tudo o que aqui fora dito não representa muita coisa não. Mas parece ser a ponta desse grandioso e interessante iceberg.


P. S.: Interessante como a questão da força criadora da mente humana está presente tanto em Lição de anatomia - já que é ela que dá vida ao Monstro do Pântano - quanto em Watchmen e no acidente que garantiu o poder atômico do Dr. Manhattan. O poder de conceber tudo por meio do pensamento do homem deve ser uma ideia fixa em Alan Moore. 

P. S. 2: No capítulo "Relojoeiro", construído sob a temática do tempo, o Dr. Manhattan aparece contemplando "A persistência da Memória", de Salvador Dalí - o que é extremamente significativo ao personagem, pois para ele o tempo (passado, presente e futuro) é fluido.

P. S. 3: O fundo dos quadrinhos apresenta, também, uma narrativa, uma movimentação. Não é estático e esquecido pelos criadores, pelo contrário: há encontros e desencontros que culminam no próximo quadro.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Mas talvez se estivesse...

Estou sozinho em casa. E por isso mesmo, ela parece maior. Gigantesca. Vago de um cômodo a outro, arrastando o tédio comigo. Lanço-me numa cadeira, outra hora no sofá... por vezes na cama.
Nenhum gesto resolve minha inquietação, um desespero contido, reprimido, prestes a furar e jorrar por todo meu corpo. Ligo o rádio: vozes intermináveis. Desligo. Ligo a televisão: vozes intermináveis e movimentos estáticos. Desligo. Não me dizem, perguntam, respondem nada.

Talvez se ela estivesse aqui... Mas não está! Mas talvez se estivesse... eu poderia distrair-me nos seus sorrisos, prenderia-me nos seus cabelos, entorpeceria-me na tua voz e descobriria-me, perdido, em seus abraços. E isso seria tudo pra mim.

Faríamos brincadeiras bobas um com o outro, riríamos hora de leve, hora estridentemente por pequenas coisas. Falaríamos coisas sérias também. Tão sérias que nossos rostos se contrairiam, se tornariam pesados e tristes.

Mas nossos olhos se encontrariam novamente, nos fazendo lembrar o quanto nos amamos. E então voltaríamos a sorrir - por dentro e por fora e principalmente por dentro. E em nossas consciências, findado o riso externo, do corpo, ainda ecoaria os sons dos sorrisos de dentro - seja do coração ou da mente ou de Deus ou dos cosmos.

E passaríamos as manhãs e as tardes e as noites juntos. E na escuridão noturna, eu esperaria você dormir, e ainda lhe daria uma última olhada, um último afago, um beijo na testa, e então eu dormiria. E, muito provavelmente, eu sonharia com você, meu amor.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Sobre Lição de anatomia, de Alan Moore

Recentemente, li a narrativa em quadrinhos Lição de anatomia, arco de histórias do Monstro do Pântano, escrita pelo já lendário Alan Moore, desenhada pelo magistral Stephen Bissette e artefinalizada por John Totleben. E a considero extraordinária.

Publicada pela editora brasileira Metal Pesado, no ano de 1997, sob o selo Obras Primas Vertigo – N°1 (em preto e branco), conta com uma boa introdução, escrita por Moore, que serve para situar o leitor sobre as fases anteriores do personagem, e mais dois textos: um do estudioso das narrativas sequenciais Álvaro de Moya e o outro do (editor?) Jotapê, ambos bem importantes por trazerem um panorama do gênero terror nos quadrinhos e, também, curiosidades sobre publicações da DC Comics e seu rico universo.

Lição de anatomia é fantástica e chama atenção, principalmente, pelo seu enredo e pelo modo como este é disposto na sucessão das páginas. O roteirista escreve e distribui quatro microcontos de horror que, quando unidos, compõe um todo incrível, minuciosamente arquitetado, envolto numa insana atmosfera cinza, pegajosa, úmida e realmente assombrosa que mistura humanidade, política e ideologia – a típica simbiose realizada pelos bons escritores e pelas boas histórias em quadrinhos.

Assim, o Monstro do Pântano luta, página após página, contra o fato de se descobrir, simplesmente, uma casca oca, vazia, desprovida de sentimentos e de essência humana. Este, além de digladiar com seus medos interiores refletidos em seu aspecto exterior, simboliza a unidade resultante do homem com a natureza – indissociáveis e interdependentes na História.

A narrativa apresenta, ainda, um tom político e ideológico, pois termina abarcando o discurso ambientalista de proteção à natureza e criticando a inutilidade das cúpulas do poder mundial (tal como a apática ONU na questão Israel x Palestina) sobre as Guerras – seja do homem com ele mesmo, seja deste em relação a sua sanha expansionista sobre o planeta, não respeitando os recursos naturais para se atingir gananciosos fins.

Desse modo, é crítica e significativa a aparição (mesmo que obrigatória) da Liga da Justiça (da América, claro!) que, à distância – tal como os poderosos grupos que decidem os destinos do mundo – discutem, ponderam, refletem... mas não agem, não se envolvem no corpo a corpo dos problemas que realmente afetam milhares de indivíduos. Não, isso fica a cargo dos verdadeiros donos do poder: o povo – tão bem representado por um aparentemente simples camponês e sua necessidade de lutar pela sobrevivência, enfrentando o vilão que encarna a fúria da natureza e que passa a destruir tudo a sua volta, almejando a aniquilação do ser humano – até compreender que ele próprio é resultado da simbiose e da interdependência Homem/Natureza.

Esse enredo, todo bem amarrado e ricamente materializado pela arte sensacional dos artistas Bissette e Totleben, faz dessa história em quadrinhos, incontestavelmente, uma pérola dos anos 80, engrandecendo, ainda mais, a arquitetônica estética do escritor Alan Moore. Merecidamente.




sábado, 26 de julho de 2014

Ser Humano

Ato
e condição:
Serumano.
Fato
e contradição:
Ser-humano.
Euforia
(sem explicação)
Calmaria
(em ebulição):
Ser humano.
Ato
e condição.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

"Pena não ser burro, não sofria tanto"

A coisa mais importante, e também a mais inquietante ao homem, é o tomar consciência do mundo que o cerca. É de máxima importância pois sem essa conscientização não nos situamos (nem sitiamos!), não nos posicionamos e não nos inserimos efetivamente na realidade circundante. Mas tudo isso inquieta e aflige.

Causa inquietação porque mexe com nossos valores, coloca em risco nossas crenças, ameaça o nosso porto-seguro e nos obriga a ficar em ação - histórica, social, cultural e politicamente. Assim, passamos a ver o mundo em um eterno conflito - desigual, muitas vezes armado e, sempre, ideológico.

Sem igualdade pois nos mostra e nos acostuma com a verticalidade das relações dos homens e a eterna CLASSESFICAÇÃO das sociedades. Bélico em virtude da sanha IMPERIALISTA, dominadora e doentia dos governantes. E ideológico porque TUDO está envolto por ideologias - os filmes, os desenhos, os livros, as igrejas, as escolas... enfim, tudo se engendra nessa trama que, sutilmente, controla e se legitima (simultaneamente).

E nada escapa a isso. E isso é assustador. Principalmente pelo fato de que poucos tomam ciência do mundo em que vivem e do quão opressora é a Realidade. Assim, faz sentido a citação que dá título a este texto, retirada de uma das músicas do maluco beleza: "Pena não ser burro, não sofria tanto."

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Linhas sobre o tempo

Nada mais será como antes
pois o segundo não é mais o mesmo
e os olhos acompanham os segundos
e estes, céleres, misturam-se aos minutos
que se arrastam até as horas - que jorram os dias.
E nesse mar temporal
somos engolfados
e fustigados
até aprendermos a navegar a vida
e a desejar horizontes e terras novas
que serão pisadas por homens novos
Nós!
já transmutados pelo tempo.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Sem título...

Entre cimento, blocos e
ferros retorcidos: escombros
materializando a morte
O amor não desistiu
O amor - seja da amizade
ou da solidariedade
ou do homem e da mulher - 
não venceu a Morte (Deusa invencível e eterna)
Mas eternizou-se nela (!),
e a comoveu, por meio
da simplicidade de 
um abraço.
                  (11-05-2013)


P. S.: A partir da comovente foto que percorreu o mundo, eternizando (tristemente) a catástrofe de Bangladesh.



sexta-feira, 14 de março de 2014

do mundo: ainda e sempre

Não... o mundo não está tão mal!
As árvores ainda permanecem verdes e plantadas na e dependentes da terra.
Não... o mundo não está tão mal!
As estrelas ainda são visíveis a olho nu e ainda estão incrustadas no negrume do universo.
Não... o mundo não está tão mal!
O universo ainda é vasto e infinito e o homem ainda não decodificou seus mistérios.
Não... o mundo não está tão mal!
Ainda há um céu normal que segura o sol (de dia! enquanto pensamos) e a lua (de noite! enquanto sonhamos).
Não... o mundo não está tão mal!
Ainda existem homens e mulheres e crianças e velhos dispersos e amontoados e sonhadores pelo seu território. E eles ainda lutam e amam e perdem e vencem e vão e ficam sob o céu ora azul ou preto ou cinzento ou esfumaçado mas ainda o teto natural da humanidade.
Não... o mundo não está tão mal!
Ainda há desejo fora das máquinas e eles pulsam e impulsionam os seres também fora das máquinas a viverem.
Não... o mundo não está tão mal!
Ainda há consciência único deus perceptível na nossa cabeça e dentro dela fazendo crer em Bem e em Amor e em Corações e que todo o Mal fenecerá e ainda existem as perguntas sem respostas que exigem serem indagadas e há o Ser que quer saber e rumina o saber para mais poder saber e há o Ser que quer amar e rumina o amor e quer mais amor pois há esperança e é ela quem grita sufocada flagelada no meio de todo esse turbilhão que é o mundo:
NÃO! O MUNDO NÃO ESTÁ TÃO MAL!!