quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Solidão

É noite. Espero meu raio de sol penetrar pela porta cerrada que me protege do mundo. Protege, mas também me aprisiona comigo mesmo. E uma porção de pensamentos que rodopiam furiosos dentro de mim.

É trevas. E não há flores. Apenas ruídos de um rádio qualquer, que toca uma música qualquer, e em ritmo igualmente qualquer. De qualquer forma não presto muita atenção mesmo...

Penso besteiras e um nevoeiro embaça meu pensar. É espesso, vai cobrindo tudo. Perdido nessa bruma que é a solidão, espero. Espero meu sol voltar e dissipá-la, salvando-me de mim mesmo. Porque sei que não importa a densidade e a frieza de qual seja o nevoeiro, o raio solar sempre irá destruí-lo e aquecer novamente o mundo.

E as flores crescerão de sorrisos e olhos brilhantes, e a noite aqui dentro de mim será dia de novo.

                        (setembro de 2013)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Depois de Maus e A metamorfose...

O mundo assemelha-se a um robô das produções oriundas da ficção científica. Um autômato distópico construído há milhares de anos que, com o passar destes, desenvolveu-se mais e mais, aprimorando-se dia a dia até atingir uma inteligência única, superior, artificial e, muitas vezes, maligna. E agora nós, pobres seres humanos, somos peças dessa gigantesca máquina com vida e vontade próprias.

E ele vai, naturalmente, nos envolvendo, nos assimilando em sua estrutura sinistra. Vai estraçalhando nossos eus com suas vorazes e doentias engrenagens... Nos compelindo a encaixarmo-nos em suas juntas férreas, enfumaçadas e sujas de óleo, à medida que avança desenfreadamente sobre a gente, como um rolo compressor  incansável e indestrutível.

Tudo num absurdo só. Artificialidades transformadas em coisas naturais, impossíveis de serem alteradas por esses simples chips que somos nós. E comprimidos, espremidos nessa imensa máquina autocontrolada, oprimidos por tudo quanto é lado, somos condenados a viver, sob seja lá quais desígnios a nós reservados por esse estranho mundo. Aprendendo e assimilando fatos insólitos, absurdos diários, como naturalidades.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

ano-novo

Enfim: ano-novo.
E outra vez a vida segue,
desbravando o novo.

             (Haicai XVI, 02-01-2017)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Obra final

O sujeito acordara tomado de inquietude. Levantou-se sobressaltado, a mente um fervilhão só. Andou de um lado a outro pelo seu pequeno quarto, cujas paredes de aspecto mofado iam do chão ao teto, apinhadas de livros, cadernos gastos, papéis e mais papéis. Ele sabia que, hoje, talvez agora mesmo, escreveria algo grandioso; algo que marcaria indelevelmente as Letras  universais.

Agarrou prontamente a caneta, alcançou um caderninho todo rabiscado, feito em material barato e... Nada. A mente em rebuliço fechara-se. E um desfile de trivialidades atravessou suas avenidas principais.

..................................................................................................................................................................................!

Jogou tudo a um canto, com estardalhaço. Passou a mão pelo rosto. Com fúria e desalento lembrou dos prazos com seu agente, com seu editor. Nervoso, dirigiu-se à janela. Uma lufada de vento refrescou-lhe as faces.

Olhou o horizonte longe, pontilhado de luzes. Percorreu com os olhos cansados as ruas lá embaixo, seguindo alguns faróis - vaga-lumes na noite - até uma curva qualquer que os escondesse.

Inclinando ainda mais a cabeça para baixo, pensou nos prazos, em seu agente irritado, no editor aguardando respostas. Cerrou a mão. Respirou fundo, exausto, e com força. Passou as mãos no rosto e afastou prontamente, com um balançar de cabeça, a ideia que, nos últimos dias, insistia em apoderar-se de seus pensamentos. Tal qual uma patologia crônica.

Abruptamente fechou a janela. Encaminhou-se até o caderno e à caneta, espalhados pelo chão do apartamento. Recolheu ambos. Tentou escrever novamente. Em vão. Largou os objetos sobre a mesa. Percorreu o olhar por alguns dos volumes em suas prateleiras. Pensou nos grandes autores, dispostos lado a lado, aleatória e displicentemente. E mais uma vez lhe veio à mente os prazos, seu agente, seu editor...

Lentamente dirigiu-se à janela. Abriu-a. Olhou para longe. Em seguida para baixo. E novamente para longe... Suspirou fundo... Uma miríade de luzes da cidade aproximava-se de uma infinidade de estrelas que se tornavam mais visíveis à medida que a noite se aprofundava no céu. Tudo suspenso num negrume só.

...................... Olhou até fundir-se, também, nos pontinhos prateados do terrível universo... Sentiu o corpo em velocidade. Um vento rápido e agradável atravessava-lhe o corpo de modo estranho. Tudo passava numa velocidade estonteante, e ele já não sabia o que acontecia. Apenas sentia como se aproximava, cada vez mais, das estrelas.

Lembranças boas mesclavam-se ao pensamento, enquanto uma calma quase celestial invadia, paulatinamente, todo seu ser. E cores passavam em majestosos e fugidios borrões pelos seus olhos, pintando um quadro tão único, numa linguagem tão simples, clara, mas inexplicável. Uma vertigem dominava-lhe os sentidos, na mesma proporção que se entregava àquela inebriante sensação de liberdade e plenitude velozes.

Um baque surdo na calçada. Aglomeração de pessoas em torno de alguém que caíra do último andar de um edifício... O corpo, pastoso, espalhava-se no chão. Esguichos vermelhos formavam um raio ao seu redor. O sangue brilhava e refletia as estrelas e luzes do alto.

Os olhos, ainda brilhantes, fitavam, além, o céu noturno. Um brilho e ternura puros visavam constelações longínquas, com uma convicção sublime de alguém que descobrira algo único. Algo que colocava qualquer artista num nível elevado de criação.

                                                 (? - 22/11/2016)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Do vento

O vento soprou
trazendo alento e alívio
pelo que passou.
             
                    (Haicai XIV, 17-11-2016)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Despedida

É triste, mas necessário, dizer adeus. Triste porque, a partir de agora, restarão apenas lembranças; e necessário pois as pessoas, em geral, só evoluem após a passagem de etapas e obstáculos que encontram em seus caminhos.

Assim, é com bastante orgulho que eu vejo o final desse ciclo na vida de vocês, alunos - afinal sei o quanto foi difícil para cada um vencer essa batalha representada pela escola.

E quando me refiro às dificuldades, não quero dizer apenas as relacionadas aos conteúdos escolares. Falo das dificuldades da vida mesmo: problemas pessoais, adolescência, sociedade, trabalho, desejos, medos, esperanças, frustrações etc. São estes obstáculos que vocês venceram diariamente para conseguirem estarem aqui. E é por isso que vocês têm a minha eterna admiração.

Saibam que, além de vitorioso, esse adeus representa metade do sucesso das suas vidas. E esta metade será o degrau que os levarão ao sucesso que os esperam. Desejo e sei que encontrarão este sucesso - seja ele qual for.

Deixo, aqui, um último conselho: apesar dos problemas que surgirão na estrada que irão trilhar, permaneçam nela até o fim e serão vitoriosos como foram aqui. Não desistam nunca, pois como diz Raul Seixas em uma de suas músicas "nunca é tarde demais pra recomeçar tudo outra vez".

Sejam críticos e observadores do mundo que nos rodeia. Aprendam a cair e, principalmente, a levantar. Tornem-se, dia após dia, melhores, inteiros e, assim, grandes. Sempre.

Abraços e (mais) vitórias.

De alguém que quis ajudar. Sinceramente.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Teu olhar

Sol castanho, vem!
Ilumina todo eu:
fora e dentro e além.

            (Haicai VIII, 28/10/2016)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Um novo mundo. Um Mundo Paralelo

A recente publicação em quadrinhos Mundo Paralelo - aventura e ficção surge para dar novas esperanças aos entusiastas do quadrinho nacional. De estilos variados e temática centrada na ficção científica e fantasia, a HQ faz jus ao usar os adjetivos "insólito" e "fantástico" em sua (extraordinária) capa, dada a qualidade da obra.



Editada por Walter Klattu, e com colaboração de Edson Simão Jr., Ilma de Moraes e Rogério Rocha, Mundo Paralelo conta com treze histórias curtas - todas em preto e branco, belamente ilustradas e com boas narrativas - ao longo das suas cerca de 150 páginas.

Seu tamanho grande contribui para o forte impacto visual causado por bons desenhos, além de aumentar a expressividade de algumas histórias, como é o caso de Obuz, de Eduardo Cardenas e Walter Klattu, e Arena, de Fábio Cobiaco e Klattu, por exemplo.

Ao preço de 8,00 reais, o quadrinho surge rompendo o paradigma de que boa qualidade está atrelada a um alto valor, já que é possível, em Mundo Paralelo, encontrar um bom resultado tanto na forma e acabamento quanto no conteúdo das narrativas.

Diante de tantas histórias presentes na obra, há, obviamente, as mais e as menos interessantes, a depender do tipo de leitor atingido por elas - o que, por ser variadas as narrativas ali contidas, variados também serão seus leitores (espera-se!). Destaca-se, aqui, a joia Macarius, com roteiro de Nando Alves e desenhos de Júlio Brilha; Obuz, de Klattu e Cardenas - roteiro e arte, respectivamente  -; a insólita e intrigante Loop, de Caio Majado (arte) e Stefano Robert (texto); a dinâmica e visual Arena, com texto de Klattu e desenhos de Cobiaco; e as fantásticas Muru (Sam Hart desenhos e Klattu roteiro) e Urian - com a fabulosa arte de Mozart Couto e a boa escrita de Rose Mário, encerrando a revista.

Mundo Paralelo - aventura e ficção é, por fim, um gibi que vem para preencher o espaço deixado pelas revistas Vertigo, Dark Horse Apresenta e Juiz Dredd Megazine, não mais publicadas, e nos transporta à época da incrível Heavy Metal e Aventura e ficção, esta última da editora Abril. É, portanto, uma porta de entrada para o novo mundo do que há de melhor nas narrativas gráficas do Brasil. Vida longa à promissora publicação.


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Resposta do mundo

Ouvir o grito
estridente
do silêncio
perguntando
"Quem é você?"
E ter como resposta
apenas o barulho
silencioso e insuportável
do mundo em movimento
em velocidade
que numa babel de vozes
e ruídos
sabe a resposta
grita a resposta
nos dá a resposta
- incompreensível
fragmentada em tudo
e que por isso mesmo
ecoa como indagação:
"QUEM SOU EU"?

                                  (Setembro de 2013)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

HQs

Histórias

em

q u a         d  r  i        n h o s
s   d         a     n        i     q
o   r         u     h        r d a u
h n i         q  s  o        

Q                  u               a

s           Histórias em           d

o       h         n       i        r

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Noite

toda noite
toda a noite do mundo
tá aqui
tá aqui dentro de mim

escura
escura o suficiente
pra ofuscar
pra ofuscar e fazer sumir todo eu

... que vagueia
que vagueia e tateia
na escuridão
na escuridão de si mesmo

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Reflexão aos 28

A vida é probabilidade
emaranhada e dispersa de forma aleatória
numa profusão de existências
que segue
por rotas tortas
setas retas
ruas nuas
becos
escuros...
caminhos
que dão de frente
- sempre -
com o acaso.

                                                      (08/01/2015)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Poema-canção

Calma, morena
remenda mais uma vez
as rachaduras e
não deixa transbordar
as lágrimas

Que a dor final
ainda está pra chegar

Agarra as migalhas
boas que a felicidade
nos atirou
amarra os teus amores
bem forte contra o peito convulso
e aguenta mais um pouco

Que a dor final
ainda vai chegar

Inunda teu ser...
mas não transborda:
bote
às coisas boas
morte
a todo o resto

Que a dor final
logo vai chegar

Suga do mundo
a beleza
toda a grandeza
da pequenez humana
e se entorpeça
pra aguentar mais um pouco

Até  a dor final
que já vem

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ausência tua

passo
com arrastados passos
os espaços
infindáveis e vazios
da casa

caminho inquieto
o caminho quieto
que faz lembrar você

vago
com pesar
os cômodos vagos
e preenchidos
pelos vãos da falta sua

corro e percorro
divago
perdido neste universo-lembrança
da tua ausência

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Desigualdade mundial (repetição absurda)

Século XXI:
2016.
99 por cento
de toda a riqueza do mundo
está nas mãos
de 1%
da população do planeta!

Vinte e um séculos de história:
Dois mil e dezesseis.
99%
de todo o dinheiro do mundo
concentra-se nas mãos
cofres bancos conglomerados industriais mansões
pequenas ilhas...
de 1% das pessoas da Terra!

2016 anos
de riqueza
(concentrada)
na posse de 1%
dos homens.
E a humanidade?

Dois mil e dezesseis anos.
Sete bilhões sobre o Globo.
E 1% dos seres (humanos?)
detém (!)
NOVENTA E NOVE %
de TODA
a riqueza do mundo!

99%
de toda a riqueza
DO MUNDO
está nas mãos
de UM %
da população do planeta!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

H. P. Lovecraft



Howard Phillips Lovecraft (1890 — 1937). Este escritor é, sem sombra de dúvidas, um gênio da literatura de horror - e das Letras em geral. Afirmo isso baseando-me na recente leitura de duas obras que dão mostras da sua genialidade: A tumba e outras histórias e O cão de caça e outras histórias - esta última uma adaptação em quadrinhos de contos do autor.

O livro A tumba e outras histórias, publicado pela editora L&PM, é ideal tanto para quem já conhece Lovecraft, quanto para quem quer conhecê-lo. Isto porque, ao longo das suas pouco mais de duzentas páginas, pode-se encontrar três fases do escritor: uma apresentando-o com um estilo já consolidado, contendo os contos A tumba, O festival, Aprisionado com os Faraós, Ele, O horror em Red Hook, A estranha casa que pairava na névoa, Entre as paredes de Eryx e O clérigo diabólico; outra mostrando algumas de suas primeiras narrativas - tais como A fera na caverna (escrita aos quinze anos de idade) -, O alquimista, Poesia e os deuses, A rua e A transição de Juan Romero; e ainda mais outra, revelando alguns esboços  que poderiam vir a se tornar, futuramente, novos contos.


Quando se diz, aqui, sobre um estilo consolidado, refere-se às marcas linguísticas e temáticas encontradas na obra do escritor após 1920. Assim, pode-se ressaltar o requinte e rebuscamento da linguagem utilizada, as descrições pormenorizadas, o simbolismo fantástico contido nas narrativas, a narração em primeira pessoa, o horror psicológico das personagens e, principalmente, o medo evocado pelo incognoscível e misterioso deus Universo - visto que é nas vastidões do cosmo, entre as suas trevas inescrutáveis, que se concentra a fonte do terror de Lovecraft e de todos os homens: o Desconhecido.

A figurativização disso tudo aparece em O cão de caça e outras histórias, do mangaka (ou quadrinhista) Gou Tanabe, cuja arte casa-se perfeitamente com o estilo de Howard Phillips Lovecraft. O volume é de uma riqueza gráfica impressionante, que revela a morbidez, o horror, a atmosfera depressiva e lânguida, além de cenários decadentes, antigos e lúgubres que encerram personagens soturnos e fantásticos num turbilhão de irracionalidade e medo, divididos entre a vontade de penetrar o desconhecido e o temor de se defrontar com o que houver entre as trevas. Tudo isso num traço firme e detalhista, alicerçado num branco e preto muito bem trabalhado.



O volume, publicado pela editora JBC, é muito bem acabado e apresenta, além de O cão de caça, a adaptação de O templo e A cidade sem nome - os três contos datados da primeira metade da década de 20. As ilustrações de Tanabe suprem, perfeitamente, as descrições de Lovecraft, mantendo o clima pavoroso, denso e insano do escritor - fazendo da edição algo imperdível para quem aprecia a obra lovecraftiana.

Nascido nos Estados Unidos (Providence - Rhode Island) em meados do século XIX, H. P. Lovecraft ampliou a literatura de horror psicológico iniciada por Edgar Alan Poe. Com seu estilo romântico-simbolista, denso, lírico e fantástico, deixou uma obra vasta e rica, que flerta com o incognoscível, com o cósmico e com o eterno medo do homem em face ao que escapa-lhe à razão, arrastando-o para as trevas de seus terrores mais íntimos e assustadores. Esse elemento é o fundamento da sua produção literária e, ao longo do tempo, veio a ser a base criativa de uma infinidade de escritores sob sua influência, tais com Robert E. Howard (seu amigo), Alan Moore, Stephen King, Gou Tanabe e outros. Falecido em 1937, Howard Phillips Lovecraft mantém-se presente e atual por meio dessas duas preciosas obras geniais, ótimas para penetrar nas profundezas da imaginação do escritor.


P. S.: Fotografia de Lovecraft retirada das imagens do Google.



segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Dos cachos dos seus cabelos ao castanho dos seus olhos

Perdi-me num turbilhão
de cores e tons castanhos...
Tonteei, senti vertigem
e c
     a
       í

Em queda,
agarrei-me em teus cabelos...
nos cachos, embaracei-me
e me      p   e   r                    d   i

Daquela floresta escura,
cuj' único sol era castanho,
tornei-me habitante
e fugitivo de todo o mundo.

E estarrecido e hipnotizado por tal astro,
cujas brilhantes migalhas sobre mim derramava,
encerrei-me naquelas vastidões eternas
de amor e de mistério pro
                                       
                                       
                                         
                        F
                       
                        U

                        N
               
           
                                         
                           do.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Raul Seixas e seus extremos



Catalizador de extremos. Talvez seja esta a mais verdadeira e óbvia definição sobre a figura Raul Seixas e sua incrível e extraordinária obra poética. Poética? Sim, visto que, inicialmente, os poemas eram cantados com o acompanhamento de instrumentos musicais.

Claro que esta característica foi sendo deixada à margem ao longo da sucessão dos séculos, mas a sonoridade se perpetuou nas composições dos poetas, que exploravam cada vez mais o aspecto sonoro das palavras quando da confecção artística dos seus versos. Assim, pode-se, sim, considerar grandes feitos musicais como poemas.

E as músicas de Raul Seixas, muitas delas, são bons exemplos da definição dada no início deste texto, de que o músico foi um catalizador de extremos. Uniu em si e na sua poética o ordinário e o extraordinário, o popular e o erudito, o místico e intrincado com o real e de fácil assimilação. Roque e baião, jegue e lambreta, nacional e estrangeiro etc.. Enfim, metamorfoseou-se, deliberadamente, com o vulgar e o insólito, numa dança que amalgamava o velho e tradicional e o novo e contracultural, sendo um dos exemplos mais notórios  da antropofagia modernista na música brasileira.

Essa faceta multifacetada do maluco beleza é bastante visível se pensarmos nas músicas Conserve seu medo e Magia de amor - ambas com a coautoria de Paulo Coelho e pertencentes ao LP Mata virgem, de 1978 (WEA). A primeira representando o domínio de composições poéticas populares, ou seja, construída por meio de redondilhas - neste caso, menores - , e a outra revelando características eruditas, com versificação hendecassilábica, isto é, com onze sílabas poéticas em cada verso. As duas mostrando fundamentação literária.

Conserve seu medo

Conserve seu medo
mantenha ele aceso
se você não teme,
se você não ama
vai acabar cedo

Esteja atento
ao rumo da história
mantenha em segredo
mas mantenha viva
sua paranoia

Conserve seu medo
mas sempre ficando
sem medo de nada
porque desta vida
de qualquer maneira
não se leva nada

E ande pra frente
olhando pro lado
se entregue a quem ama
na rua ou na cama
mas tenha cuidado!

Além de ter uma mensagem linda e simples, de fácil assimilação, vê-se o uso dos versos pentassílabos, de cinco sílabas poéticas, na metrificação da canção. Esse tipo de versificação foi e é bastante usado em composições populares e seu uso mostra o quanto Raul conhecia as ferramentas necessárias para criar sua arte de acordo com suas finalidades expressivas. Assim, uma temática popular como em Conserve seu medo, é apresentada em estrutura também popular. Temos, aí, um bom exemplo de um dos extremos da criação raulseixista.

Por sua vez, refletindo o outro lado do artista,

Magia de amor

Me fascina tua morte mal morrida
e tua luta pra ficar em tal estado
E teu beijo, tão fatal, nunca me assusta
pois existe um fim pro sangue derramado

Me fascinam os teus olhos quando brilham
pouco antes de escolher quem te seduz
e me fascinam os teus medos absurdos
a estaca, o alho, o fogo, o sol, a cruz

Me fascina a tua força, muito embora
não consiga resistir à frágil aurora
E tua capa, de uma escuridão sem mácula

Me fascinam os teus dentes assustadores
e teus séculos de lendas e de horrores
e a nobreza do teu nome, Conde Drácula

Aqui, uma breve observação revela o uso da métrica hendecassilábica, ou seja, os versos se apresentam com onze sílabas poéticas, além das estrofes se materializarem em dois quartetos e dois tercetos, característica do soneto - que por si só já é algo requintado. Este tipo de versificação, de acordo com alguns estudiosos, marcou um novo estágio nas produções poéticas do século XVI, sendo ofuscado, posteriormente, pelo verso decassílabo (este sim, parte fundamental do soneto). Em Magia de amor, não há um tema popular; pelo contrário, há uma espécie de homenagem a um Conde, alguém de posição social elevada. Justamente por isso, essa temática é apresentada numa forma requintada e erudita, exemplificando o outro extremo da produção de Raul Seixas.
 
O que se quer dizer com tudo isso é que o maluco beleza transitava, deliberadamente, por esses extremos acima mencionados. Tanto em questões temáticas, quanto em relação à materialização expressiva desses temas, encontram-se os extremos popular X erudito expressos por versos redondilhos e hendecassílabos.

É claro que esses detalhes não são perceptíveis à maioria das pessoas; necessitam, pois, de uma análise e de um estudo para virem à tona. Porém, essas análises existem aos milhares para comprovar uma genialidade bem antes já revelada (e, aí sim, percebida facilmente por àqueles que escutam com atenção essas músicas) pelo conteúdo e pela mensagem das criações poéticas de Raulzito - esse eterno ícone da cultura brasileira.


   
P. S.: Imagens retiradas do Google.
P. S. 2: As informações referentes à versificação constam na Gramática do português contemporâneo, de Celso Cunha.

     

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Algumas palavras sobre o ótimo Projeto AYLA, de Marcelo Cassaro e Eduardo Francisco



Em um futuro próximo, o planeta já terá escapado de uma invasão alienígena, sua tecnologia será altamente avançada, viagens interestelares serão uma realidade e a criação de seres cibernéticos será a solução para a defesa da Terra, bem como para a exploração espacial. Esse é o pano de fundo de Projeto AYLA, a mais recente publicação em quadrinhos do escritor e roteirista Marcelo Cassaro.

O álbum, com pouco mais de 190 páginas, capa dura, e publicado pela editora Jambô, é ilustrado pelo artista Eduardo Francisco. Com um enredo que gira em torno de uma cientista e uma corporação tecnológica empenhados em desenvolver uma androide superpoderosa, um conflito entre duas raças alienígenas inimigas, além da figura de um agente (governamental?) que monitora atividades extraterrestres em nosso solo, este parece ser o melhor trabalho em quadrinhos, depois de Holy Avenger, de Cassaro. 

A narrativa, bem entrelaçada, é dividida em cinco capítulos, mais um epílogo, e apresenta uma ficção científica bem contada e muito bem expressada pelos traços firmes, e em estilo mangá, do desenhista Edu Francisco - como ele assina. Aliás, um simples folhear de páginas causa um impacto bastante positivo aos olhos de quem aprecia bons desenhos, tão bom o resultado final alcançado pelo artista na elaboração das personagens e dos cenários futuristas da HQ.

  


O roteiro, por sua vez, sintetiza bem o trabalho do veterano Marcelo Cassaro, mostrando-se dinâmico, especulativo e repleto de ação. É bem construído e arrematado, além de espalhar, ao longo das páginas, as referências que edificam a obra do melhor representante do gênero mangá e um dos mais competentes quadrinhista do Brasil. Assim, nota-se de maneira explícita sua apreciação pelo gênero literário F.C., bem como pela produção nipônica referente à nona arte e aos animes e, ainda, pela cultura pop em geral. Tudo isso incrustado no universo já estratificado do autor de Espada da galáxia.

Cassaro, com este Projeto AYLA, reafirma a sua familiaridade e experiência com o meio e se firma, ao lado de figuras como Bá e Moon, Mutarelli, Angeli e Laerte - cada qual com seus objetivos e estilos, obviamente - um grande contador e construtor de histórias em quadrinhos, revelando que, se fosse em outras terras, suas produções já teriam alcançado repercussão e visibilidade maiores nos diversos meios artísticos do cenário cultural nacional.
   
Repleto de robôs e artefatos tecnológicos, batalhas devastadoras e seres superpoderosos, este trabalho - inteligente, criativo e gostoso de ler - é mais uma daquelas obras que nos faz perceber que o mercado de HQ do Brasil tem um potencial gigantesco, com artistas altamente competentes, que precisa apenas ser explorado pelas grandes editoras.
   
Por fim, Marcelo Cassaro, juntamente com Projeto AYLA, representam motivo de orgulho para todos os entusiastas pela solidificação de um mercado produtivo e bem fundamentado em narrativas gráficas brasileiras. 


P. S.: Torço para a publicação alcançar vitórias com os troféus HQ MIX e Ângelo Agostini, em 2016.

P. S. 2: Um prólogo ou um texto introdutório seria bem-vindo ao trabalho. Além de uma revisão mais cuidadosa, já que em alguns balões faltam algumas palavras.

P. S. 3: Comprei a edição no Fest Comix, mas infelizmente não consegui um autógrafo...


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Você e eu. E só.

Não cabe neste poema
a alegria que tento escrever!
Mas escrevo ainda assim.
Na verdade, o que tem aqui dentro,
em rebuliço e exultação,
não caberia mesmo qualquer explicação,
pois esta prescinde ordem,
e não há razão neste instante
dentro de mim.
Até onde posso descrever,
há eu e você. E só.

Depois disso
minha racionalidade assiste a uma narrativa toda fragmentada
onde desfilam imagens de pernas e corpos nus
braços e abraços que se enroscam
e línguas que se queimam
num toque qualquer

Aí já é noite
o álcool entorpece
cigarros aquecem pulmões suicidas
enquanto um som alto
estremece o nosso filme
a nossa história
e tem dança
e beijos
e mais beijos e abraços

Vem a madrugada
cai uma paulistana garoa
e as pessoas passam
e as luzes dos carros ofuscam a realidade
dentro da noite escura e gelada
e tua voz agora é música
e eu sou todo plateia...

A razão, boquiaberta,
busca simetria,
tenta costurar o sentido
da caoticidade daquelas cenas.
Distingue os pares de olhos,
as duas estrelas da noite,
e para, estupefata,
no ponto de partida.
Onde tudo começou.
Até onde é possível descrever:
Você e eu.
E só.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Poema pessimista

O mundo, já velho, apodrece
Expondo gangrenadas feridas
Habitadas pelo Verme, que cresce
E as consome, em famintas mordidas.

Pus e sangue coagulado represam as veias
Enquanto um coração pútrido bate, em desespero.
O Verme, insensível, prossegue em sua mórbida ceia
Tendo, nesta podridão, sádico esmero.

Grandes nacos de carne podre abocanha
E devora-os sem compaixão.
À geração futura - esta ganha -
Os restos que caem pelo chão.

Verme gerando Verme a partir da podridão
Ao longo da insana história do mundo.
Que com estertores se debate, agoniza, em vão,
Morrendo num abismo sujo, escuro e fundo.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Alienação (?)

Agora:
a fome come com voracidade o vigor de milhares o suor escorre e corre das faces de um político qualquer prestes a ser preso por inúmeras "improbidades administrativas" outro grupo festeja um conluio secreto e sombrio que saqueia os cofres públicos a guerra passeia displicentemente pelos cantos do mundo novas armas são criadas testadas efetivadas vendidas doenças "surgem" por intermédio divino da grande indústria farmaceutica homens planejam a conquista do espaço vasto o universo ainda perturba por ser uma incógnita os fanáticos religiosos se autoexplodem por deuses jamais conhecidos inexistentes suicidas atiram-se de pontes prédios trilhos já não suportando a descoberta de múltiplas sufocantes realidades que nos são impostas toneladas de lixo e fumaça química são atiradas na lixeira caída ao chão dos céus e sorvidas em pequenas doses diárias por nossos pulmões de ferro árvores e animais e homens entram em extinção genocídios dizimam índios negros palestinos mendigos idosos o dinheiro compra honestidades cumplicidades lealdades vidas e mortes e tudo isso passa a ser natural e prende-se com viscosidade pegajosa nas teias das rotinas do nosso dia a dia nos fazendo coniventes passíveis apáticos pacíficos a consciência procura alienação 
Aqui e agora:
a mente abstém-se de tudo (?)
garimpando rios de linguagem
atrás de palavras (certas?)
e as incrusta neste inútil poema.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Olhando o mar

Da areia
olhávamos o mar
e a hipnótica formação
das incessantes ondas
sob a eterna noite -
que soprava um hálito
suave e úmido
em nossos rostos.

Agora navegávamos.
Em nós mesmos.
Envolvidos pela sinfonia
interminável
do marulhento deus-Mar.

(ela abrigada em si mesma
e eu encerrado em mim
e cada vez mais longe e profundo
navegávamos em nós)

Tempestades... e colossais ondas
arremetiam contra a f-r-a-g-i-l-i-d-a-d-e dos barcos
Vent
os furio... sos
os
açoit... avam
Re
    lâm
         pa
    gos
e
TRO... VÕES! castigavam-nos...
O mundo parecia não nos querer

E então naufragamos
no bravio mar-Interior -
profundo e violento de medo.
A força das ondas nos atirou
de volta à Praia.
Éramos embarcações salva-vidas um do outro:
Nossos olhos: faróis
Nossos abraços: âncoras
E nossos beijos: AR.

E dentro daquela noite
sobre a areia beijada pelas águas
nasceu um sol
à beira-mar.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Primeiro beijo

Se eu pudesse
eu ficaria ali
parado
e perdido
no tempo

Aquele tempo infinito
em minutos e segundos
envolvendo nossos lábios
e nossos olhos
e nossos corpos

Eu ficaria por ali mesmo
embalado por nossos corações
(tum, tum tum, tum, tum tum...)
perdido num sentir macio
e úmido da sua boca

E exigiria a suspensão de tudo:
Que tudo pare!
E que só nós existamos
E que o mundo sejamos nós
E que nele pairemos nos ares
Impulsionados pelo nosso eterno
E primeiro beijo.

Criando imagens em meio à tempestade

a umidade desprendia-se de um céu tingido de noite
mãos invisíveis riscavam
de maneira aleatória e com giz prateado
a negra lousa noturna
explosões balançavam-na
enquanto um forte vento
varria violentamente o chão encharcado da Terra

um céu líquido desabava em gotas frias
que desfiguravam meu rosto 
e as árvores 
e as coisas todas do Mundo
enquanto flashes fotográficos registravam
em fotografias preto e branco
imagens de desespero
dentro da tempestade.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A força expressiva de Watchmen



Após quatrocentas páginas, terminei a leitura da obra máxima (?) de Alan Moore e Dave Gibbons: Watchmen (1986/1987). Há, ainda, umas dezenas de folhas com extras que umas duas horas resolverão. Enquanto lia, ainda sob o peso do forte impacto do roteiro de Lição de anatomia, também de Moore, fui anotando algumas coisas a respeito da história - pois sabia que me sentiria obrigado a registrar por escrito minhas impressões sobre algo tão singular no universo da arte sequencial.
             
A primeira qualidade perceptível já a partir das primeiras páginas do gibi é a riqueza do roteiro. Este é escrito e disposto de maneira detalhada, intrincada, cuidadosa. Não há pontas soltas; tudo é perfeitamente amarrado e perturbadoramente profundo. Nada, na trama, é superficial. Muito pelo contrário: com o avançar das edições, o nível de profundidade só aumenta, nos impelindo, forçosamente, à reflexão.
                            
Em Watchmen há algo, genuinamente, sem igual. O que ora parece uma história panorâmica do tão conturbado século XX mostra-se, ainda, maior. Explora o conceito de heroísmo e super-heroísmo, bem como a ascensão do gênero nos quadrinhos nas décadas de 30 e 40, a paranoia do fenômeno UFO - alimentada com a divulgação de A guerra dos mundos, de Orson Wells -, o cinzento pós-guerra e suas consequências: a questão do Vietnã, os mandos e desmandos políticos das potências mundiais (em especial, a dos EUA) e, principalmente, o medo ante a iminência de um conflito nuclear apocalíptico, resultante da Guerra Fria.
                
Ainda permeando a trama com fatos do século XX, Alan Moore espalha mais algumas importantes referências, tais como: literatura Beat, as experiências alucinógenas de expansão da mente por meio de algumas drogas, a valorização das culturas orientais, o avanço desenfreado (e inconsequente!) da tecnologia, o avanço do capitalismo e a sua hegemonia com a globalização. Enquanto o (frio) Dr. Manhattan simboliza a descoberta, o uso e o poder nuclear, Adrian Veidt representa o inescrupuloso e poderoso mercado. É nestes dois personagens que está o núcleo, o centro da HQ.
                
Watchmen nos apresenta uma realidade distópica, onde a loucura e a paranoia com o fim do mundo coexistem com a esperança de um futuro de paz. Uma paz imposta com autoritarismo e com as “maravilhas” que os mercados podem oferecer. E por isso mesmo há uma aura nostálgica envolvendo a narrativa. Uma nostalgia de quando se acreditava que o mundo não era tão complicado.
                
A guerra, a sordidez política, o comodismo e o distanciamento entre os homens, a bipolarização do mundo, a desigualdade social são o pano de fundo onde circulam pessoas feridas pelos anos e pelas condições impostas pela vida. E quando pensamos haver alguma esperança, algum resto de sensibilidade dos poderosos, somos surpreendidos com o apocalipse.
                
Deus, um ser híbrido constituído de megalomania, beligerância atômica e “princípios” mercadológicos nos condena a um “paraíso”. Nos ofusca com o brilho de uma paz fabricada e nos afoga no comodismo de um universo globalizado e politicamente correto. Nos lança, paradoxalmente, nas trevas luminosas de um mundo “pacificado”

..................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... Mas Watchmen é muito mais que isso. É de uma profundidade sem igual. E eu poderia ainda tentar falar do por que ser o centro de tudo um simples jornaleiro, seus clientes e sua banca de jornal. Ou mesmo tentar discutir a "loucura" e as sequelas proféticas de Rorschach. Ou mesmo a sensibilidade e fúria de Laurie. Ou a metáfora viva da comédia humana: o Comediante. Ou... a relação do mundo presente, e seus personagens, com a narrativa pulp que engendra a trama...

O roteirista parece ter um segredo. Um segredo indispensável a qualquer um que queira trilhar estes caminhos: escreve com a obrigação de tentar conceber a melhor obra artística já criada pelo homem. É exigente além dos limites consigo mesmo, tem uma obrigação social, estética, moral e política na realização de algo inconcebível. E, por isso mesmo, sua criação não pode ser adjetivada por outras palavras que não sejam extraordinária, fantástica e genial.
               
Enfim, a obra é vasta - em política, filosofia, história, literatura, psicologia etc. - é atemporal - embora dependente daquele contexto histórico específico - e tudo o que aqui fora dito não representa muita coisa não. Mas parece ser a ponta desse grandioso e interessante iceberg.


P. S.: Interessante como a questão da força criadora da mente humana está presente tanto em Lição de anatomia - já que é ela que dá vida ao Monstro do Pântano - quanto em Watchmen e no acidente que garantiu o poder atômico do Dr. Manhattan. O poder de conceber tudo por meio do pensamento do homem deve ser uma ideia fixa em Alan Moore. 

P. S. 2: No capítulo "Relojoeiro", construído sob a temática do tempo, o Dr. Manhattan aparece contemplando "A persistência da Memória", de Salvador Dalí - o que é extremamente significativo ao personagem, pois para ele o tempo (passado, presente e futuro) é fluido.

P. S. 3: O fundo dos quadrinhos apresenta, também, uma narrativa, uma movimentação. Não é estático e esquecido pelos criadores, pelo contrário: há encontros e desencontros que culminam no próximo quadro.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Mas talvez se estivesse...

Estou sozinho em casa. E por isso mesmo, ela parece maior. Gigantesca. Vago de um cômodo a outro, arrastando o tédio comigo. Lanço-me numa cadeira, outra hora no sofá... por vezes na cama.
Nenhum gesto resolve minha inquietação, um desespero contido, reprimido, prestes a furar e jorrar por todo meu corpo. Ligo o rádio: vozes intermináveis. Desligo. Ligo a televisão: vozes intermináveis e movimentos estáticos. Desligo. Não me dizem, perguntam, respondem nada.

Talvez se ela estivesse aqui... Mas não está! Mas talvez se estivesse... eu poderia distrair-me nos seus sorrisos, prenderia-me nos seus cabelos, entorpeceria-me na tua voz e descobriria-me, perdido, em seus abraços. E isso seria tudo pra mim.

Faríamos brincadeiras bobas um com o outro, riríamos hora de leve, hora estridentemente por pequenas coisas. Falaríamos coisas sérias também. Tão sérias que nossos rostos se contrairiam, se tornariam pesados e tristes.

Mas nossos olhos se encontrariam novamente, nos fazendo lembrar o quanto nos amamos. E então voltaríamos a sorrir - por dentro e por fora e principalmente por dentro. E em nossas consciências, findado o riso externo, do corpo, ainda ecoaria os sons dos sorrisos de dentro - seja do coração ou da mente ou de Deus ou dos cosmos.

E passaríamos as manhãs e as tardes e as noites juntos. E na escuridão noturna, eu esperaria você dormir, e ainda lhe daria uma última olhada, um último afago, um beijo na testa, e então eu dormiria. E, muito provavelmente, eu sonharia com você, meu amor.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Sobre Lição de anatomia, de Alan Moore

Recentemente, li a narrativa em quadrinhos Lição de anatomia, arco de histórias do Monstro do Pântano, escrita pelo já lendário Alan Moore, desenhada pelo magistral Stephen Bissette e artefinalizada por John Totleben. E a considero extraordinária.

Publicada pela editora brasileira Metal Pesado, no ano de 1997, sob o selo Obras Primas Vertigo – N°1 (em preto e branco), conta com uma boa introdução, escrita por Moore, que serve para situar o leitor sobre as fases anteriores do personagem, e mais dois textos: um do estudioso das narrativas sequenciais Álvaro de Moya e o outro do (editor?) Jotapê, ambos bem importantes por trazerem um panorama do gênero terror nos quadrinhos e, também, curiosidades sobre publicações da DC Comics e seu rico universo.

Lição de anatomia é fantástica e chama atenção, principalmente, pelo seu enredo e pelo modo como este é disposto na sucessão das páginas. O roteirista escreve e distribui quatro microcontos de horror que, quando unidos, compõe um todo incrível, minuciosamente arquitetado, envolto numa insana atmosfera cinza, pegajosa, úmida e realmente assombrosa que mistura humanidade, política e ideologia – a típica simbiose realizada pelos bons escritores e pelas boas histórias em quadrinhos.

Assim, o Monstro do Pântano luta, página após página, contra o fato de se descobrir, simplesmente, uma casca oca, vazia, desprovida de sentimentos e de essência humana. Este, além de digladiar com seus medos interiores refletidos em seu aspecto exterior, simboliza a unidade resultante do homem com a natureza – indissociáveis e interdependentes na História.

A narrativa apresenta, ainda, um tom político e ideológico, pois termina abarcando o discurso ambientalista de proteção à natureza e criticando a inutilidade das cúpulas do poder mundial (tal como a apática ONU na questão Israel x Palestina) sobre as Guerras – seja do homem com ele mesmo, seja deste em relação a sua sanha expansionista sobre o planeta, não respeitando os recursos naturais para se atingir gananciosos fins.

Desse modo, é crítica e significativa a aparição (mesmo que obrigatória) da Liga da Justiça (da América, claro!) que, à distância – tal como os poderosos grupos que decidem os destinos do mundo – discutem, ponderam, refletem... mas não agem, não se envolvem no corpo a corpo dos problemas que realmente afetam milhares de indivíduos. Não, isso fica a cargo dos verdadeiros donos do poder: o povo – tão bem representado por um aparentemente simples camponês e sua necessidade de lutar pela sobrevivência, enfrentando o vilão que encarna a fúria da natureza e que passa a destruir tudo a sua volta, almejando a aniquilação do ser humano – até compreender que ele próprio é resultado da simbiose e da interdependência Homem/Natureza.

Esse enredo, todo bem amarrado e ricamente materializado pela arte sensacional dos artistas Bissette e Totleben, faz dessa história em quadrinhos, incontestavelmente, uma pérola dos anos 80, engrandecendo, ainda mais, a arquitetônica estética do escritor Alan Moore. Merecidamente.




sábado, 26 de julho de 2014

Ser Humano

Ato
e condição:
Serumano.
Fato
e contradição:
Ser-humano.
Euforia
(sem explicação)
Calmaria
(em ebulição):
Ser humano.
Ato
e condição.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

"Pena não ser burro, não sofria tanto"

A coisa mais importante, e também a mais inquietante ao homem, é o tomar consciência do mundo que o cerca. É de máxima importância pois sem essa conscientização não nos situamos (nem sitiamos!), não nos posicionamos e não nos inserimos efetivamente na realidade circundante. Mas tudo isso inquieta e aflige.

Causa inquietação porque mexe com nossos valores, coloca em risco nossas crenças, ameaça o nosso porto-seguro e nos obriga a ficar em ação - histórica, social, cultural e politicamente. Assim, passamos a ver o mundo em um eterno conflito - desigual, muitas vezes armado e, sempre, ideológico.

Sem igualdade pois nos mostra e nos acostuma com a verticalidade das relações dos homens e a eterna CLASSESFICAÇÃO das sociedades. Bélico em virtude da sanha IMPERIALISTA, dominadora e doentia dos governantes. E ideológico porque TUDO está envolto por ideologias - os filmes, os desenhos, os livros, as igrejas, as escolas... enfim, tudo se engendra nessa trama que, sutilmente, controla e se legitima (simultaneamente).

E nada escapa a isso. E isso é assustador. Principalmente pelo fato de que poucos tomam ciência do mundo em que vivem e do quão opressora é a Realidade. Assim, faz sentido a citação que dá título a este texto, retirada de uma das músicas do maluco beleza: "Pena não ser burro, não sofria tanto."

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Linhas sobre o tempo

Nada mais será como antes
pois o segundo não é mais o mesmo
e os olhos acompanham os segundos
e estes, céleres, misturam-se aos minutos
que se arrastam até as horas - que jorram os dias.
E nesse mar temporal
somos engolfados
e fustigados
até aprendermos a navegar a vida
e a desejar horizontes e terras novas
que serão pisadas por homens novos
Nós!
já transmutados pelo tempo.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Sem título...

Entre cimento, blocos e
ferros retorcidos: escombros
materializando a morte
O amor não desistiu
O amor - seja da amizade
ou da solidariedade
ou do homem e da mulher - 
não venceu a Morte (Deusa invencível e eterna)
Mas eternizou-se nela (!),
e a comoveu, por meio
da simplicidade de 
um abraço.
                  (11-05-2013)


P. S.: A partir da comovente foto que percorreu o mundo, eternizando (tristemente) a catástrofe de Bangladesh.



sexta-feira, 14 de março de 2014

do mundo: ainda e sempre

Não... o mundo não está tão mal!
As árvores ainda permanecem verdes e plantadas na e dependentes da terra.
Não... o mundo não está tão mal!
As estrelas ainda são visíveis a olho nu e ainda estão incrustadas no negrume do universo.
Não... o mundo não está tão mal!
O universo ainda é vasto e infinito e o homem ainda não decodificou seus mistérios.
Não... o mundo não está tão mal!
Ainda há um céu normal que segura o sol (de dia! enquanto pensamos) e a lua (de noite! enquanto sonhamos).
Não... o mundo não está tão mal!
Ainda existem homens e mulheres e crianças e velhos dispersos e amontoados e sonhadores pelo seu território. E eles ainda lutam e amam e perdem e vencem e vão e ficam sob o céu ora azul ou preto ou cinzento ou esfumaçado mas ainda o teto natural da humanidade.
Não... o mundo não está tão mal!
Ainda há desejo fora das máquinas e eles pulsam e impulsionam os seres também fora das máquinas a viverem.
Não... o mundo não está tão mal!
Ainda há consciência único deus perceptível na nossa cabeça e dentro dela fazendo crer em Bem e em Amor e em Corações e que todo o Mal fenecerá e ainda existem as perguntas sem respostas que exigem serem indagadas e há o Ser que quer saber e rumina o saber para mais poder saber e há o Ser que quer amar e rumina o amor e quer mais amor pois há esperança e é ela quem grita sufocada flagelada no meio de todo esse turbilhão que é o mundo:
NÃO! O MUNDO NÃO ESTÁ TÃO MAL!!

segunda-feira, 10 de março de 2014

O exército de um homem só - capa, contracapa e conteúdo

Li, esperançoso de ver logo o final, o livro O exército de um homem só, do falecido escritor porto-alegrense Moacyr Scliar (1937 - 2011). Iniciei a leitura entusiasmado pela beleza poética do título e motivado por uma aura idealista e, até certo ponto, revolucionária do texto da quarta capa, produzido pela editora L&PM, que dizia o seguinte:
Este livro está definitivamente incorporado à literatura brasileira como uma das peças de ficção mais importantes produzidas na década de 70. Aqui, Scliar cria um personagem definitivo, o Capitão Birobidjan, destemido herói de um novo mundo, fanático pregador de utopias, solitário e esperançoso navegador de um mar de indiferença.O exército de um homem só arrebata o leitor através da narrativa ágil, precisa, estruturada sobre cortes no tempo, onde a ficção é envolvida constantemente por uma atmosfera fantástica. O humor amargo de Moacyr Scliar ronda este belo livro. A saga de Birobidjan, o solitário pregador de um mundo melhor, seu louco humanismo, quixotesco, seus sonhos mágicos, fazem deste livro uma leitura emocionante e inesquecível.
Impossível para mim não se alegrar com tais palavras. Pois bem, o entusiasmo e a alegria ficaram por aí. Da metade do livro em diante - quem sabe até mesmo antes - não via a hora de terminar logo tão árduo trabalho. Árduo pois enfadonho e de escrita fragmentada - não que este último aspecto seja problema para amantes de literatura como eu, mas nesse caso em particular era, já que me deixava ansiosíssimo para descobrir algo a respeito das personagens, ou dos ambientes da história, ou mesmo sobre algum aspecto histórico tão bem trabalhado pelo escritor...ou qualquer outra coisa que fosse. Mas o fato é que não se descobria nada de relevante com o passar das páginas. Obra insossa!

Claro que há pontos de interesse na composição do livro: o caráter biográfico e atemporal, o passeio pelo século XX - desde a segunda década até o início dos anos setenta -, o estilo do escritor na descrição das ações das personagens, o humor ácido disseminado pelo texto, as alusões a outras obras etc. Isso em relação à forma. Quanto ao conteúdo, é aí - a meu ver - que reside minhas desilusões. Muito em virtude do texto citado acima! 

Há sim um personagem idealista, quixotesco, ferrenho batalhador de um novo mundo! "Luta" e "trabalha" (em vão), até o fim de sua vida, em prol da realização de seus utópicos ideais! Mas é um sujeito louco. E não é o típico sujeito à margem de uma sociedade indiferente e alienada, que o trata como insano. Não, ele realmente é louco - isso fica bem claro no livro. Mayer Guinzburg - verdadeiro nome do protagonista - chega mesmo a se ajustar socialmente, mas os instintos libertários se afloram e ele parte novamente rumo à construção d'uma nova sociedade.

Tudo isso tratado de maneira irônica pelo autor. E é essa ironia que não se entende. E é aí que entra a contradição em relação ao texto da quarta capa: a narrativa não tem a seriedade e a "emoção inesquecível" que a resenha quer conferir a ela. Pelo contrário: há mesmo uma crítica no livro ao caráter ditatorial que resultam dessas utopias - exemplo disso é o caráter tendencioso e individualista do Capitão Birobidjan em muitos momentos da história. A impressão que se tem é que quem escreveu tais linhas nem sequer leu o livro! Do contrário, não seriam estas as palavras para apresentá-lo ao público.

Acredito que o que Scliar queria mesmo não era construir uma personagem idealista, coletivista, utópica... E muito menos crítica da sociedade e dos sistemas capitalista e comunista (polos centrais da história), mas sim um verossímil indivíduo revelador do caráter enlouquecedor de um mundo dividido, espremido por tais ideologias. E isso é genial. Mas está implícito, subentendido. Perdido e diluído nas 170 e poucas páginas chatas de se ler.

Agora vejo a verdade no ditado que diz para não se julgar um livro pela capa. E, por extensão, pela contracapa, resenha, prefácio, orelhas...



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Na realidade do mundo

Em 2013, após relatos de que a Síria havia feito, em sua própria população, uso (e guardava um arsenal) de armas químicas - situação semelhante a do Iraque, há alguns anos - , os Estados Unidos da América, oportunamente, quiseram intervir, alegando ser aquilo um perigo para o resto do mundo. Claro que o que estava em jogo, assim como na situação iraquiana, era a tomada de um território riquíssimo em petróleo.

Pois bem, a situação continuou, os conflitos entre o governo sírio e os rebeldes - também sírios -continuaram, e os EUA persistiram em pressionar a opinião pública a apoiar uma invasão. Que por sorte - ou pelo fato da Síria ter o "apoio" da Rússia - não aconteceu (do jeito que os líderes americanos queriam, é claro!). Acontecesse, já não estaríamos aqui - tão vasto é o poderio nuclear das duas potências!!

O que aconteceu mesmo fora um massacre - que com uma invasão só se potencializaria! - entre governo, rebeldes e a população no meio, arcando com os "efeitos colaterais".

Mortes e mais mortes...e a tensão de que uma Terceira Guerra Mundial acabaria com tudo... Foi isso o que sentiu, penso eu, quem acompanhou os jornais naquelas dias.

Em meio a esse cenário, envolvido em tal atmosfera, fora escrito o poema "Na realidade do mundo".


Na realidade do mundo

Preciso escrever alguma coisa!
É sobre esse cheiro: ODOR!
Que exala das notícias
Das páginas dos jornais
Da televisão do rádio
E das bocas dos poucos que falam...
É um cheiro (ODOR) de morte
Putrefação
Vala comum com amontoados de corpos
SINTAM...
É quase possível tocá-lo
Impregna as narinas, entorpece o cérebro
É um odor que traz consigo sons
- gritos, soluços, tiros e bombas
gemidos estridentes: GUERRA!
E estes sons entoam uma canção
embalada no medo
- Cantada pelo Medo -
Que traz o sono
e a insônia
- com seus pesadelos
escorraçando os sonhos
e as esperanças
escancarando sua boca
e nos engolindo
e nos vomitando
despidos de TUDO
Nus e com frio
Na realidade do mundo.    
       (3/9/2013)

***      
                     
Em janeiro deste ano - esperançoso de ter passado o susto -, lendo o quadrinho japonês GUNNM - Hyper Future Vision*, do autor Yukito Kishiro, deparei-me com essas palavras, ditas pelo personagem Buick, fotógrafo, perdendo sua sanidade em face ao terror da guerra:

Nascemos e morremos...
Sem parar...
Sem parar...
Nada muda...
não conseguimos mudar nada...

O sol majestoso no céu
e cadáveres na terra...
Ferro queimado...
A verdadeira imagem do mundo
É confusão e caos.
Essa é a única lei que realmente vale.

Eu sinto que estava tendo um sonho gostoso,
Mas eu já me esqueci do que se tratava...

A fumaça esconde tudo que está distante...
O futuro é incerto...
Eu não quero mais ser um humano...

Sou uma lente esfomeada!
Sou o olho da morte
que devora tudo que vê!!!

E o que tem tudo isso? Simples: além do fato dos textos apresentarem a guerra como aterradora e ensandecedora, faz pensar, também, como as coisas do mundo parecem entrelaçar-se de tal modo que dão a impressão de que tudo já está planejado e que apenas representamos nossos tristes papéis numa peça teatral onde não conhecemos os escritores, diretores, figurinistas, sonoplastas e todos os outros que permanecem atrás das cortinas e das luzes.

E isso chega a ser tão apavorante quanto o fato de estarmos em meio a esta guerra.



* Trecho retirado do volume 16 do mangá.







sábado, 1 de fevereiro de 2014

Dez anos

Os rubros borrões preenchiam uma boa porção da parede. Esguichos vermelhos pintavam partes de algumas mesas e cadeiras. No chão, uma poça escarlate e luminosa, em virtude da claridade que penetrava pelas janelas, crescia à medida que o sangue escorria da cabeça desfigurada que parecia não pertencer ao pequeno e frágil corpo que jazia, inerte, no chão.

O aluno tinha seus dez anos. Seu nome pouco importava diante de tão trágico fim; diante de tão tenra idade: dez anos. Estava concluindo a quarta série do ensino fundamental. E esse era o motivo de tão triste desfecho para uma vida ainda tão curta. Uma vida de dez anos.

No momento a sala de aula estava vazia. Estava silenciosa. Encerrava apenas o jovem corpo... torto... caído... desfalecido. E a arma. Uma pistola automática. Caída ao lado do corpo.

Há quinze minutos, talvez vinte, era um zum-zum-zum interminável. O alarido estrídulo das vozes dos alunos preenchiam o espaço compacto da sala de aula. A porta fechada contribuía para tornar tudo mais intenso: as conversas, a correria ora e outra, e o inútil esforço da professora que lutava para fazer-se ouvir, tentando passar seu conteúdo e fazer valer seus quatro anos de faculdade.

De repente o estampido. Forte, seco, autoritário. E o silêncio.

Pareceu que o mundo parara. Os ruídos, os alunos, a professora, a vida... tudo cessara. Os alunos abobalhados, atônitos, instintivamente procuravam a origem do barulho. A docente petrificou-se. Numa fração de segundos todo o silêncio do universo ocupou o espaço daquela sala.

Cinco segundos, talvez menos, e o caos e a confusão retornaram, abruptos, incomparavelmente pior. Milésimos de segundos de reflexão e todos amontoavam-se em direção à saída empurravam-se desesperadamente gritavam sabe-se-lá-o-quê pisoteavam-se num frenesi de pavor. A professora pobre criatura estúpida em vão tentou acalmar-se não pode: correu em direção à porta abriu-a e a torrente de alunos saiu em pânico deixando para trás um cenário caótico desordenado e um corpo que tombara pesadamente.

Agora os peritos e os policiais examinavam o cadáver irreconhecível. Ouviam os amiguinhos, os professores, o diretor.... Ligavam para os pais. Examinavam a cena da tragédia. Bradavam ordens para que se investigasse a origem da arma – que logo descobriram ser do pai, policial militar.

“O que teria acontecido?” “Acidente?” “Algo proposital?” Indagavam os investigadores. Demoraram-se a considerar a hipótese de suicídio. “Era impossível! Era apenas uma criança! Tinha apenas dez anos! Dez anos! Devia estar brincando com a arma, colocando-a assim na boca...”.

Concluiu-se que fora isso mesmo: suicídio. Os pais, inconformados com a perda, foram ouvidos e, em prantos, alegaram que o garoto era feliz, brincalhão... nunca houvera manifestação alguma de distúrbios psicológicos ou algo do tipo. Os colegas de turma diziam que ele era normal, apenas um pouco tímido e metido consigo mesmo. Os professores alegavam que ele era bom aluno, compreendia e realizava as tarefas, não dava trabalho. No entanto afirmavam que ele era um pouco inquieto na sala de aula, “era como se estivesse sempre querendo sair dali”.

O pai fora rapidamente afastado da corporação e responde processo por descuidar-se da arma. A mãe adoecera pouco tempo depois da morte do filho e permanece internada num hospital. O caso foi encerrado e o garoto julgado como sofredor de algum transtorno psíquico – não souberam dizer qual. Era a única explicação: as agressões e chacotas sofridas na escola foram consideradas insuficientes para levá-lo a tomar tal atitude.

E realmente foram. Assim como a ausência dos pais e a falta de atenção por parte dos professores. Nada disso contribuiu para seu ato. O que realmente foi decisivo para o suicídio – já tentado antes, sem ninguém o saber, também com a arma do pai, porém sem sucesso devido o medo que o fez desistir – fora a própria escola. Nem alunos valentões, nem pais, nem professores, nem problemas mentais... nada disso. Apenas o pavor do monstro institucional chamado Escola.

O garoto tinha apenas dez anos. Se tivesse mais idade talvez conseguisse dizer que o que lhe afligia era a própria estrutura escolar. Atormentava-lhe o fato de estar trancafiado, durante horas, ali. Todos os dias. Perturbava-lhe as fileiras de alunos e o tratamento comum a todos. Incomodava-lhe o cárcere educacional (não havia cometido crime algum!). Tirava-lhe o sono a perspectiva do futuro, dos anos vindouros que teria, ainda, que permanecer naquela condição. Era inadmissível aquela triagem estatal para inseri-lo numa sociedade desigual. Eram insuportáveis aquelas paredes de concreto maciço a aprisioná-lo...

E fora assim, então, que encerrado naquela masmorra colocou o cano na boca e apertou o gatilho. Almejando liberdade? Não sabia ainda o que isso significava... Não media ainda as consequências dos seus atos...Queria apenas sair dali. E não ter que voltar mais.




P. S.: Escrevi este conto no segundo semestre de 2012, na faculdade. A ideia era produzir uma narrativa curta, norteada pela temática da educação.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A arte dos quadrinhos e o seu constante diálogo com outras artes

Interessante observar - e refletir sobre - o quão abrangente e rica é a linguagem das Histórias em Quadrinhos. Esta, consolidada em meados do século XIX e em eterna evolução, mantém-se em constante diálogo com outras expressões artísticas, tais como a pintura, a literatura e a fotografia - bases fundamentais da sua constituição -, o cinema, a música, a poesia e outras.

As HQs (como são chamadas comumente), desenvolveram-se, como alguns autores afirmam, simultaneamente com a civilização humana. Evoluíram a partir das pinturas rupestres, passando pelos hieróglifos da cultura egípcia, posteriormente viu a criação da imprensa, o avanço da industrialização e da ciência e, com elas, o avassalador desenvolvimento tecnológico - do qual, obviamente, se alimenta nos dias de hoje. Trata-se de uma linguagem única - resultado da junção do texto com a imagem -, justamente pelo seu caráter abrangedor e assimilador de outras expressões artísticas.

Assim, as HQs são de interesse e motivo de reflexão pelo fato de que, por meio de uma única (e boa!) história dessas, tomamos contato com diversas outras expressões artísticas - o que aciona diversas competências leitoras que temos, estimulando nosso cérebro -, além de nos levar a pensar no quão importante elas são, pois constituídas a partir da diversidade cultural que nos cerca. É uma linguagem híbrida, extremamente veloz e de fácil assimilação em relação ao que é exposto - o que a torna perfeita diante da velocidade do nosso século.

Dito isto, exemplifico essa característica do diálogo com outras artes por meio do trecho da história Wolverine - Arma X*, de Barry W. Smith (desenhos e roteiro), que segue:


Eu tô fugindo!

De um sonho!
E alguma coisa tá atrás de mim!
Na minha cola...
Como uma sombra!
Ela quer me sufocar...
Na sua escuridão!
Aí não vou poder gritar...
Nem resistir...
Porque ela tá dentro de mim!
Nas minhas tripas...
Dentro dos meus ossos!
       (...)
Tá me alcançando...
Se arrastando nas minhas veias feito corda!
Os tendões são fios...
Como de marionete.
Tá me cortando...
Me arrastando de volta pras trevas!


Pesadelo sem fim...

Ondas pretas correndo na noite...
Líquido...
Como sangue preto!
E eu não consigo escapar!
Tá nos meus ombros,
Me cortando com espetos!


Tá respirando dentro de mim...

E eu tô inspirando seu bafo quente!
Fedor de morte na minha boca!
Eu não consigo escapar!
Mas tenho que...
Fugir! Fugir pra sempre...
Lutar pra sempre!
A fera!
     (...)
Desabando sob o peso da fera.



Isso é nitidamente poético! Dialoga com a poesia. Trata-se de uma metáfora da luta interior que travamos com nossos medos, nossos instintos animais - feras que podem, a qualquer momento, nos devorar. Aí está uma demonstração do que foi dito sobre a arte dos quadrinhos. De como esta se constitui a partir da assimilação de outras linguagens artísticas e torna-se única e independente.



P.S.: A relação aqui feita, entre quadrinho e poesia, não tem o intuito de torná-lo maior em virtude da aproximação com a literatura, mas sim ressaltar tal característica e, justamente por isso, o quão interessante e importante ele é. Visa, pois, contribuir para tirar os quadrinhos do âmbito tão somente infanto-juvenil e garantir-lhe a sua importância como objeto artístico-cultural!




*A referida história foi publicada na revista "Wolverine Extra" - nº 1, pela editora Abril, no ano de 1995 - edição especial,  formatinho. O trecho citado encontra-se nas últimas páginas da publicação.






 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Divagações pós-leitura (verbo-visual) de Wolverine - Arma X, O substituto, Gunnm, Tropa de Elite 2, The Walking Dead e poemas de Ginsberg

2014 começou bem. Li Wolverine - arma X (edição formatinho), estou acompanhando The Walking Dead (os quadrinhos), assisti O substituto e Tropa de Elite 2 e, no momento, leio Uivo, Kaddish e outros poemas, de Allen Ginsberg e o mangá cyberpunk Gunnm - Hyper Future Vision, de Yukito Kishiro. Óbvio que o cérebro, habituado à velocidade do século XXI, está rapidamente buscando conexões entre coisas tão DISTINTAS, INTERESSANTES e, ao mesmo tempo, PRÓXIMAS umas das outras.

Comecemos por Wolverine - arma X. Nada mais nada menos que uma metáfora, poética (diga-se de passagem), do conflito interior que travamos a partir do exterior. É, no fim, uma luta para não sermos animalizados pelos avanços do homem em face das descobertas científicas - grosso modo, claro. É um não querer sucumbir ao medo de nos tornarmos irracionais em virtude disso.

The Walking Dead - até onde li (edição 15) - é uma metáfora, também (por que não?), do absurdo das situações que podemos encontrar quando despertamos para o mundo e de como somos forçados a conviver com (e até a aceitar) tudo isso. Há também o eterno conflito da razão com a loucura, da vida com a morte (literalmente) muito bem representado pelos autores da série.

Os dois filmes - O substituto e Tropa de Elite 2 - representam a luta, e a quase impotência, diante de uma sociedade marginalizada e um sistema corrupto e opressor. No primeiro a crítica se dá por meio da educação, e, no segundo, por meio das forças policiais e políticas.

Ainda, os poemas de Allen Ginsberg e o mangá de Yukito Kishiro são proféticos e apocalípticos. Revelam o homem engolido e vomitado pelos grandes centros urbanos e pelas implacáveis máquinas industriais. Um universo cru e violento, onde os sentimentos afetivos (inerentes aos homens) são, quase por completos, substituídos/aniquilados pela materialidade das coisas. Ambos apresentam um mundo dual, dividido entre podridão e matéria - de um lado - e luz transcendente do outro - além (ou acima).

Sendo assim, medo, absurdo, opressão e utopia são os elementos que amarram essas expressões artísticas tão diversas. São responsáveis por aproximar textos tão variados, tanto no tempo (os poemas de Ginsberg são da metade do século XX,  Arma X e Gunnm são dos anos noventa, The Walking Dead e os dois filmes são dos anos 2000), quanto em suas materialidades expressivas (quadrinhos, cinema e poesia).

Por fim, reafirmam e profetizam, bela e inteligentemente, o que já sabemos: que somos seres frágeis e ferozes, lutando contra o insólito e absurdamente extraordinário. Representam, pois, cada qual à sua maneira, o combate eterno dos sujeitos oprimidos contra um estado (ou Estado, mesmo) de coisas onipresente/onipotente opressor, desejosos de manter suas individualidades e esperançosos pelo bem da coletividade humana.