Calma, morena
remenda mais uma vez
as rachaduras e
não deixa transbordar
as lágrimas
Que a dor final
ainda está pra chegar
Agarra as migalhas
boas que a felicidade
nos atirou
amarra os teus amores
bem forte contra o peito convulso
e aguenta mais um pouco
Que a dor final
ainda vai chegar
Inunda teu ser...
mas não transborda:
bote
às coisas boas
morte
a todo o resto
Que a dor final
logo vai chegar
Suga do mundo
a beleza
toda a grandeza
da pequenez humana
e se entorpeça
pra aguentar mais um pouco
Até a dor final
que já vem
terça-feira, 19 de abril de 2016
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Ausência tua
passo
com arrastados passos
os espaços
infindáveis e vazios
da casa
caminho inquieto
o caminho quieto
que faz lembrar você
vago
com pesar
os cômodos vagos
e preenchidos
pelos vãos da falta sua
corro e percorro
divago
perdido neste universo-lembrança
da tua ausência
com arrastados passos
os espaços
infindáveis e vazios
da casa
caminho inquieto
o caminho quieto
que faz lembrar você
vago
com pesar
os cômodos vagos
e preenchidos
pelos vãos da falta sua
corro e percorro
divago
perdido neste universo-lembrança
da tua ausência
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Desigualdade mundial (repetição absurda)
Século XXI:
2016.
99 por cento
de toda a riqueza do mundo
está nas mãos
de 1%
da população do planeta!
Vinte e um séculos de história:
Dois mil e dezesseis.
99%
de todo o dinheiro do mundo
concentra-se nas mãos
cofres bancos conglomerados industriais mansões
pequenas ilhas...
de 1% das pessoas da Terra!
2016 anos
de riqueza
(concentrada)
na posse de 1%
dos homens.
E a humanidade?
Dois mil e dezesseis anos.
Sete bilhões sobre o Globo.
E 1% dos seres (humanos?)
detém (!)
NOVENTA E NOVE %
de TODA
a riqueza do mundo!
99%
de toda a riqueza
DO MUNDO
está nas mãos
de UM %
da população do planeta!
2016.
99 por cento
de toda a riqueza do mundo
está nas mãos
de 1%
da população do planeta!
Vinte e um séculos de história:
Dois mil e dezesseis.
99%
de todo o dinheiro do mundo
concentra-se nas mãos
cofres bancos conglomerados industriais mansões
pequenas ilhas...
de 1% das pessoas da Terra!
2016 anos
de riqueza
(concentrada)
na posse de 1%
dos homens.
E a humanidade?
Dois mil e dezesseis anos.
Sete bilhões sobre o Globo.
E 1% dos seres (humanos?)
detém (!)
NOVENTA E NOVE %
de TODA
a riqueza do mundo!
99%
de toda a riqueza
DO MUNDO
está nas mãos
de UM %
da população do planeta!
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
H. P. Lovecraft
Howard Phillips Lovecraft (1890 — 1937). Este escritor é, sem sombra de dúvidas, um gênio da literatura de horror - e das Letras em geral. Afirmo isso baseando-me na recente leitura de duas obras que dão mostras da sua genialidade: A tumba e outras histórias e O cão de caça e outras histórias - esta última uma adaptação em quadrinhos de contos do autor.
O livro A tumba e outras histórias, publicado pela editora L&PM, é ideal tanto para quem já conhece Lovecraft, quanto para quem quer conhecê-lo. Isto porque, ao longo das suas pouco mais de duzentas páginas, pode-se encontrar três fases do escritor: uma apresentando-o com um estilo já consolidado, contendo os contos A tumba, O festival, Aprisionado com os Faraós, Ele, O horror em Red Hook, A estranha casa que pairava na névoa, Entre as paredes de Eryx e O clérigo diabólico; outra mostrando algumas de suas primeiras narrativas - tais como A fera na caverna (escrita aos quinze anos de idade) -, O alquimista, Poesia e os deuses, A rua e A transição de Juan Romero; e ainda mais outra, revelando alguns esboços que poderiam vir a se tornar, futuramente, novos contos.
Quando se diz, aqui, sobre um estilo consolidado, refere-se às marcas linguísticas e temáticas encontradas na obra do escritor após 1920. Assim, pode-se ressaltar o requinte e rebuscamento da linguagem utilizada, as descrições pormenorizadas, o simbolismo fantástico contido nas narrativas, a narração em primeira pessoa, o horror psicológico das personagens e, principalmente, o medo evocado pelo incognoscível e misterioso deus Universo - visto que é nas vastidões do cosmo, entre as suas trevas inescrutáveis, que se concentra a fonte do terror de Lovecraft e de todos os homens: o Desconhecido.
A figurativização disso tudo aparece em O cão de caça e outras histórias, do mangaka (ou quadrinhista) Gou Tanabe, cuja arte casa-se perfeitamente com o estilo de Howard Phillips Lovecraft. O volume é de uma riqueza gráfica impressionante, que revela a morbidez, o horror, a atmosfera depressiva e lânguida, além de cenários decadentes, antigos e lúgubres que encerram personagens soturnos e fantásticos num turbilhão de irracionalidade e medo, divididos entre a vontade de penetrar o desconhecido e o temor de se defrontar com o que houver entre as trevas. Tudo isso num traço firme e detalhista, alicerçado num branco e preto muito bem trabalhado.
O volume, publicado pela editora JBC, é muito bem acabado e apresenta, além de O cão de caça, a adaptação de O templo e A cidade sem nome - os três contos datados da primeira metade da década de 20. As ilustrações de Tanabe suprem, perfeitamente, as descrições de Lovecraft, mantendo o clima pavoroso, denso e insano do escritor - fazendo da edição algo imperdível para quem aprecia a obra lovecraftiana.
Nascido nos Estados Unidos (Providence - Rhode Island) em meados do século XIX, H. P. Lovecraft ampliou a literatura de horror psicológico iniciada por Edgar Alan Poe. Com seu estilo romântico-simbolista, denso, lírico e fantástico, deixou uma obra vasta e rica, que flerta com o incognoscível, com o cósmico e com o eterno medo do homem em face ao que escapa-lhe à razão, arrastando-o para as trevas de seus terrores mais íntimos e assustadores. Esse elemento é o fundamento da sua produção literária e, ao longo do tempo, veio a ser a base criativa de uma infinidade de escritores sob sua influência, tais com Robert E. Howard (seu amigo), Alan Moore, Stephen King, Gou Tanabe e outros. Falecido em 1937, Howard Phillips Lovecraft mantém-se presente e atual por meio dessas duas preciosas obras geniais, ótimas para penetrar nas profundezas da imaginação do escritor.
P. S.: Fotografia de Lovecraft retirada das imagens do Google.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
Dos cachos dos seus cabelos ao castanho dos seus olhos
Perdi-me num turbilhão
de cores e tons castanhos...
Tonteei, senti vertigem
e c
a
í
Em queda,
agarrei-me em teus cabelos...
nos cachos, embaracei-me
e me p e r d i
Daquela floresta escura,
cuj' único sol era castanho,
tornei-me habitante
e fugitivo de todo o mundo.
E estarrecido e hipnotizado por tal astro,
cujas brilhantes migalhas sobre mim derramava,
encerrei-me naquelas vastidões eternas
de amor e de mistério pro
F
U
N
do.
de cores e tons castanhos...
Tonteei, senti vertigem
e c
a
í
Em queda,
agarrei-me em teus cabelos...
nos cachos, embaracei-me
e me p e r d i
Daquela floresta escura,
cuj' único sol era castanho,
tornei-me habitante
e fugitivo de todo o mundo.
E estarrecido e hipnotizado por tal astro,
cujas brilhantes migalhas sobre mim derramava,
encerrei-me naquelas vastidões eternas
de amor e de mistério pro
F
U
N
do.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
Raul Seixas e seus extremos
Catalizador de extremos. Talvez seja esta a mais verdadeira e óbvia definição sobre a figura Raul Seixas e sua incrível e extraordinária obra poética. Poética? Sim, visto que, inicialmente, os poemas eram cantados com o acompanhamento de instrumentos musicais.
Claro que esta característica foi sendo deixada à margem ao longo da sucessão dos séculos, mas a sonoridade se perpetuou nas composições dos poetas, que exploravam cada vez mais o aspecto sonoro das palavras quando da confecção artística dos seus versos. Assim, pode-se, sim, considerar grandes feitos musicais como poemas.
E as músicas de Raul Seixas, muitas delas, são bons exemplos da definição dada no início deste texto, de que o músico foi um catalizador de extremos. Uniu em si e na sua poética o ordinário e o extraordinário, o popular e o erudito, o místico e intrincado com o real e de fácil assimilação. Roque e baião, jegue e lambreta, nacional e estrangeiro etc.. Enfim, metamorfoseou-se, deliberadamente, com o vulgar e o insólito, numa dança que amalgamava o velho e tradicional e o novo e contracultural, sendo um dos exemplos mais notórios da antropofagia modernista na música brasileira.
E as músicas de Raul Seixas, muitas delas, são bons exemplos da definição dada no início deste texto, de que o músico foi um catalizador de extremos. Uniu em si e na sua poética o ordinário e o extraordinário, o popular e o erudito, o místico e intrincado com o real e de fácil assimilação. Roque e baião, jegue e lambreta, nacional e estrangeiro etc.. Enfim, metamorfoseou-se, deliberadamente, com o vulgar e o insólito, numa dança que amalgamava o velho e tradicional e o novo e contracultural, sendo um dos exemplos mais notórios da antropofagia modernista na música brasileira.
Essa faceta multifacetada do maluco beleza é bastante visível se pensarmos nas músicas Conserve seu medo e Magia de amor - ambas com a coautoria de Paulo Coelho e pertencentes ao LP Mata virgem, de 1978 (WEA). A primeira representando o domínio de composições poéticas populares, ou seja, construída por meio de redondilhas - neste caso, menores - , e a outra revelando características eruditas, com versificação hendecassilábica, isto é, com onze sílabas poéticas em cada verso. As duas mostrando fundamentação literária.
Conserve seu medo
Conserve seu medo
mantenha ele aceso
se você não teme,
se você não ama
vai acabar cedo
Esteja atento
ao rumo da história
mantenha em segredo
mas mantenha viva
sua paranoia
Conserve seu medo
mas sempre ficando
sem medo de nada
porque desta vida
de qualquer maneira
não se leva nada
E ande pra frente
olhando pro lado
se entregue a quem ama
na rua ou na cama
mas tenha cuidado!
Conserve seu medo
mantenha ele aceso
se você não teme,
se você não ama
vai acabar cedo
Esteja atento
ao rumo da história
mantenha em segredo
mas mantenha viva
sua paranoia
Conserve seu medo
mas sempre ficando
sem medo de nada
porque desta vida
de qualquer maneira
não se leva nada
E ande pra frente
olhando pro lado
se entregue a quem ama
na rua ou na cama
mas tenha cuidado!
Além de ter uma mensagem linda e simples, de fácil assimilação, vê-se o uso dos versos pentassílabos, de cinco sílabas poéticas, na metrificação da canção. Esse tipo de versificação foi e é bastante usado em composições populares e seu uso mostra o quanto Raul conhecia as ferramentas necessárias para criar sua arte de acordo com suas finalidades expressivas. Assim, uma temática popular como em Conserve seu medo, é apresentada em estrutura também popular. Temos, aí, um bom exemplo de um dos extremos da criação raulseixista.
Por sua vez, refletindo o outro lado do artista,
Magia de amor
Me fascina tua morte mal morrida
e tua luta pra ficar em tal estado
E teu beijo, tão fatal, nunca me assusta
pois existe um fim pro sangue derramado
Me fascinam os teus olhos quando brilham
pouco antes de escolher quem te seduz
e me fascinam os teus medos absurdos
a estaca, o alho, o fogo, o sol, a cruz
Me fascina a tua força, muito embora
não consiga resistir à frágil aurora
E tua capa, de uma escuridão sem mácula
Me fascinam os teus dentes assustadores
e teus séculos de lendas e de horrores
e a nobreza do teu nome, Conde Drácula
Aqui, uma breve observação revela o uso da métrica hendecassilábica, ou seja, os versos se apresentam com onze sílabas poéticas, além das estrofes se materializarem em dois quartetos e dois tercetos, característica do soneto - que por si só já é algo requintado. Este tipo de versificação, de acordo com alguns estudiosos, marcou um novo estágio nas produções poéticas do século XVI, sendo ofuscado, posteriormente, pelo verso decassílabo (este sim, parte fundamental do soneto). Em Magia de amor, não há um tema popular; pelo contrário, há uma espécie de homenagem a um Conde, alguém de posição social elevada. Justamente por isso, essa temática é apresentada numa forma requintada e erudita, exemplificando o outro extremo da produção de Raul Seixas.
e tua luta pra ficar em tal estado
E teu beijo, tão fatal, nunca me assusta
pois existe um fim pro sangue derramado
Me fascinam os teus olhos quando brilham
pouco antes de escolher quem te seduz
e me fascinam os teus medos absurdos
a estaca, o alho, o fogo, o sol, a cruz
Me fascina a tua força, muito embora
não consiga resistir à frágil aurora
E tua capa, de uma escuridão sem mácula
Me fascinam os teus dentes assustadores
e teus séculos de lendas e de horrores
e a nobreza do teu nome, Conde Drácula
Aqui, uma breve observação revela o uso da métrica hendecassilábica, ou seja, os versos se apresentam com onze sílabas poéticas, além das estrofes se materializarem em dois quartetos e dois tercetos, característica do soneto - que por si só já é algo requintado. Este tipo de versificação, de acordo com alguns estudiosos, marcou um novo estágio nas produções poéticas do século XVI, sendo ofuscado, posteriormente, pelo verso decassílabo (este sim, parte fundamental do soneto). Em Magia de amor, não há um tema popular; pelo contrário, há uma espécie de homenagem a um Conde, alguém de posição social elevada. Justamente por isso, essa temática é apresentada numa forma requintada e erudita, exemplificando o outro extremo da produção de Raul Seixas.
O que se quer dizer com tudo isso é que o maluco beleza transitava, deliberadamente, por esses extremos acima mencionados. Tanto em questões temáticas, quanto em relação à materialização expressiva desses temas, encontram-se os extremos popular X erudito expressos por versos redondilhos e hendecassílabos.
É claro que esses detalhes não são perceptíveis à maioria das pessoas; necessitam, pois, de uma análise e de um estudo para virem à tona. Porém, essas análises existem aos milhares para comprovar uma genialidade bem antes já revelada (e, aí sim, percebida facilmente por àqueles que escutam com atenção essas músicas) pelo conteúdo e pela mensagem das criações poéticas de Raulzito - esse eterno ícone da cultura brasileira.
P. S.: Imagens retiradas do Google.
P. S. 2: As informações referentes à versificação constam na Gramática do português contemporâneo, de Celso Cunha.
sexta-feira, 24 de julho de 2015
Algumas palavras sobre o ótimo Projeto AYLA, de Marcelo Cassaro e Eduardo Francisco
Em um futuro próximo, o planeta já terá escapado de uma invasão alienígena, sua tecnologia será altamente avançada, viagens interestelares serão uma realidade e a criação de seres cibernéticos será a solução para a defesa da Terra, bem como para a exploração espacial. Esse é o pano de fundo de Projeto AYLA, a mais recente publicação em quadrinhos do escritor e roteirista Marcelo Cassaro.
O álbum, com pouco mais de 190 páginas, capa dura, e publicado pela editora Jambô, é ilustrado pelo artista Eduardo Francisco. Com um enredo que gira em torno de uma cientista e uma corporação tecnológica empenhados em desenvolver uma androide superpoderosa, um conflito entre duas raças alienígenas inimigas, além da figura de um agente (governamental?) que monitora atividades extraterrestres em nosso solo, este parece ser o melhor trabalho em quadrinhos, depois de Holy Avenger, de Cassaro.
A narrativa, bem entrelaçada, é dividida em cinco capítulos, mais um epílogo, e apresenta uma ficção científica bem contada e muito bem expressada pelos traços firmes, e em estilo mangá, do desenhista Edu Francisco - como ele assina. Aliás, um simples folhear de páginas causa um impacto bastante positivo aos olhos de quem aprecia bons desenhos, tão bom o resultado final alcançado pelo artista na elaboração das personagens e dos cenários futuristas da HQ.
O roteiro, por sua vez, sintetiza bem o trabalho do veterano Marcelo Cassaro, mostrando-se dinâmico, especulativo e repleto de ação. É bem construído e arrematado, além de espalhar, ao longo das páginas, as referências que edificam a obra do melhor representante do gênero mangá e um dos mais competentes quadrinhista do Brasil. Assim, nota-se de maneira explícita sua apreciação pelo gênero literário F.C., bem como pela produção nipônica referente à nona arte e aos animes e, ainda, pela cultura pop em geral. Tudo isso incrustado no universo já estratificado do autor de Espada da galáxia.
Cassaro, com este Projeto AYLA, reafirma a sua familiaridade e experiência com o meio e se firma, ao lado de figuras como Bá e Moon, Mutarelli, Angeli e Laerte - cada qual com seus objetivos e estilos, obviamente - um grande contador e construtor de histórias em quadrinhos, revelando que, se fosse em outras terras, suas produções já teriam alcançado repercussão e visibilidade maiores nos diversos meios artísticos do cenário cultural nacional.
Repleto de robôs e artefatos tecnológicos, batalhas devastadoras e seres superpoderosos, este trabalho - inteligente, criativo e gostoso de ler - é mais uma daquelas obras que nos faz perceber que o mercado de HQ do Brasil tem um potencial gigantesco, com artistas altamente competentes, que precisa apenas ser explorado pelas grandes editoras.
Por fim, Marcelo Cassaro, juntamente com Projeto AYLA, representam motivo de orgulho para todos os entusiastas pela solidificação de um mercado produtivo e bem fundamentado em narrativas gráficas brasileiras.
P. S.: Torço para a publicação alcançar vitórias com os troféus HQ MIX e Ângelo Agostini, em 2016.
P. S. 2: Um prólogo ou um texto introdutório seria bem-vindo ao trabalho. Além de uma revisão mais cuidadosa, já que em alguns balões faltam algumas palavras.
P. S. 3: Comprei a edição no Fest Comix, mas infelizmente não consegui um autógrafo...
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Você e eu. E só.
Não cabe neste poema
a alegria que tento escrever!
Mas escrevo ainda assim.
Na verdade, o que tem aqui dentro,
em rebuliço e exultação,
não caberia mesmo qualquer explicação,
pois esta prescinde ordem,
e não há razão neste instante
dentro de mim.
Até onde posso descrever,
há eu e você. E só.
Depois disso
minha racionalidade assiste a uma narrativa toda fragmentada
onde desfilam imagens de pernas e corpos nus
braços e abraços que se enroscam
e línguas que se queimam
num toque qualquer
Aí já é noite
o álcool entorpece
cigarros aquecem pulmões suicidas
enquanto um som alto
estremece o nosso filme
a nossa história
e tem dança
e beijos
e mais beijos e abraços
Vem a madrugada
cai uma paulistana garoa
e as pessoas passam
e as luzes dos carros ofuscam a realidade
dentro da noite escura e gelada
e tua voz agora é música
e eu sou todo plateia...
A razão, boquiaberta,
busca simetria,
tenta costurar o sentido
da caoticidade daquelas cenas.
Distingue os pares de olhos,
as duas estrelas da noite,
e para, estupefata,
no ponto de partida.
Onde tudo começou.
Até onde é possível descrever:
Você e eu.
E só.
a alegria que tento escrever!
Mas escrevo ainda assim.
Na verdade, o que tem aqui dentro,
em rebuliço e exultação,
não caberia mesmo qualquer explicação,
pois esta prescinde ordem,
e não há razão neste instante
dentro de mim.
Até onde posso descrever,
há eu e você. E só.
Depois disso
minha racionalidade assiste a uma narrativa toda fragmentada
onde desfilam imagens de pernas e corpos nus
braços e abraços que se enroscam
e línguas que se queimam
num toque qualquer
Aí já é noite
o álcool entorpece
cigarros aquecem pulmões suicidas
enquanto um som alto
estremece o nosso filme
a nossa história
e tem dança
e beijos
e mais beijos e abraços
Vem a madrugada
cai uma paulistana garoa
e as pessoas passam
e as luzes dos carros ofuscam a realidade
dentro da noite escura e gelada
e tua voz agora é música
e eu sou todo plateia...
A razão, boquiaberta,
busca simetria,
tenta costurar o sentido
da caoticidade daquelas cenas.
Distingue os pares de olhos,
as duas estrelas da noite,
e para, estupefata,
no ponto de partida.
Onde tudo começou.
Até onde é possível descrever:
Você e eu.
E só.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Poema pessimista
O mundo, já velho, apodrece
Expondo gangrenadas feridas
Habitadas pelo Verme, que cresce
E as consome, em famintas mordidas.
Pus e sangue coagulado represam as veias
Enquanto um coração pútrido bate, em desespero.
O Verme, insensível, prossegue em sua mórbida ceia
Tendo, nesta podridão, sádico esmero.
Grandes nacos de carne podre abocanha
E devora-os sem compaixão.
À geração futura - esta ganha -
Os restos que caem pelo chão.
Verme gerando Verme a partir da podridão
Ao longo da insana história do mundo.
Que com estertores se debate, agoniza, em vão,
Morrendo num abismo sujo, escuro e fundo.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
Alienação (?)
Agora:
a mente abstém-se de tudo (?)
garimpando rios de linguagem
atrás de palavras (certas?)
e as incrusta neste inútil poema.
a fome come com voracidade o vigor de milhares o suor escorre e corre das faces de um político qualquer prestes a ser preso por inúmeras "improbidades administrativas" outro grupo festeja um conluio secreto e sombrio que saqueia os cofres públicos a guerra passeia displicentemente pelos cantos do mundo novas armas são criadas testadas efetivadas vendidas doenças "surgem" por intermédio divino da grande indústria farmaceutica homens planejam a conquista do espaço vasto o universo ainda perturba por ser uma incógnita os fanáticos religiosos se autoexplodem por deuses jamais conhecidos inexistentes suicidas atiram-se de pontes prédios trilhos já não suportando a descoberta de múltiplas sufocantes realidades que nos são impostas toneladas de lixo e fumaça química são atiradas na lixeira caída ao chão dos céus e sorvidas em pequenas doses diárias por nossos pulmões de ferro árvores e animais e homens entram em extinção genocídios dizimam índios negros palestinos mendigos idosos o dinheiro compra honestidades cumplicidades lealdades vidas e mortes e tudo isso passa a ser natural e prende-se com viscosidade pegajosa nas teias das rotinas do nosso dia a dia nos fazendo coniventes passíveis apáticos pacíficos a consciência procura alienação
Aqui e agora:a mente abstém-se de tudo (?)
garimpando rios de linguagem
atrás de palavras (certas?)
e as incrusta neste inútil poema.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Olhando o mar
Da areia
olhávamos o mar
e a hipnótica formação
das incessantes ondas
sob a eterna noite -
que soprava um hálito
suave e úmido
em nossos rostos.
Agora navegávamos.
Em nós mesmos.
Envolvidos pela sinfonia
interminável
do marulhento deus-Mar.
(ela abrigada em si mesma
e eu encerrado em mim
e cada vez mais longe e profundo
navegávamos em nós)
Tempestades... e colossais ondas
arremetiam contra a f-r-a-g-i-l-i-d-a-d-e dos barcos
Vent
os furio... sos
os
açoit... avam
Re
lâm
pa
gos
e
TRO... VÕES! castigavam-nos...
O mundo parecia não nos querer
E então naufragamos
no bravio mar-Interior -
profundo e violento de medo.
A força das ondas nos atirou
de volta à Praia.
Éramos embarcações salva-vidas um do outro:
Nossos olhos: faróis
Nossos abraços: âncoras
E nossos beijos: AR.
E dentro daquela noite
sobre a areia beijada pelas águas
nasceu um sol
à beira-mar.
olhávamos o mar
e a hipnótica formação
das incessantes ondas
sob a eterna noite -
que soprava um hálito
suave e úmido
em nossos rostos.
Agora navegávamos.
Em nós mesmos.
Envolvidos pela sinfonia
interminável
do marulhento deus-Mar.
(ela abrigada em si mesma
e eu encerrado em mim
e cada vez mais longe e profundo
navegávamos em nós)
Tempestades... e colossais ondas
arremetiam contra a f-r-a-g-i-l-i-d-a-d-e dos barcos
Vent
os furio... sos
os
açoit... avam
Re
lâm
pa
gos
e
TRO... VÕES! castigavam-nos...
O mundo parecia não nos querer
E então naufragamos
no bravio mar-Interior -
profundo e violento de medo.
A força das ondas nos atirou
de volta à Praia.
Éramos embarcações salva-vidas um do outro:
Nossos olhos: faróis
Nossos abraços: âncoras
E nossos beijos: AR.
E dentro daquela noite
sobre a areia beijada pelas águas
nasceu um sol
à beira-mar.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Primeiro beijo
Se eu pudesse
eu ficaria ali
parado
e perdido
no tempo
Aquele tempo infinito
em minutos e segundos
envolvendo nossos lábios
e nossos olhos
e nossos corpos
Eu ficaria por ali mesmo
embalado por nossos corações
(tum, tum tum, tum, tum tum...)
perdido num sentir macio
e úmido da sua boca
E exigiria a suspensão de tudo:
Que tudo pare!
E que só nós existamos
E que o mundo sejamos nós
E que nele pairemos nos ares
Impulsionados pelo nosso eterno
E primeiro beijo.
eu ficaria ali
parado
e perdido
no tempo
Aquele tempo infinito
em minutos e segundos
envolvendo nossos lábios
e nossos olhos
e nossos corpos
Eu ficaria por ali mesmo
embalado por nossos corações
(tum, tum tum, tum, tum tum...)
perdido num sentir macio
e úmido da sua boca
E exigiria a suspensão de tudo:
Que tudo pare!
E que só nós existamos
E que o mundo sejamos nós
E que nele pairemos nos ares
Impulsionados pelo nosso eterno
E primeiro beijo.
Criando imagens em meio à tempestade
a umidade desprendia-se de um céu tingido de noite
mãos invisíveis riscavam
de maneira aleatória e com giz prateado
a negra lousa noturna
explosões balançavam-na
enquanto um forte vento
varria violentamente o chão encharcado da Terra
um céu líquido desabava em gotas frias
que desfiguravam meu rosto
e as árvores
e as coisas todas do Mundo
enquanto flashes fotográficos registravam
em fotografias preto e branco
imagens de desespero
dentro da tempestade.
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
A força expressiva de Watchmen
Após quatrocentas páginas, terminei a leitura da obra máxima (?) de Alan Moore e Dave Gibbons: Watchmen (1986/1987). Há, ainda, umas dezenas de folhas com extras que umas duas horas resolverão. Enquanto lia, ainda sob o peso do forte impacto do roteiro de Lição de anatomia, também de Moore, fui anotando algumas coisas a respeito da história - pois sabia que me sentiria obrigado a registrar por escrito minhas impressões sobre algo tão singular no universo da arte sequencial.
A primeira qualidade perceptível já a partir das
primeiras páginas do gibi é a riqueza do roteiro. Este é escrito e disposto de
maneira detalhada, intrincada, cuidadosa. Não há pontas soltas; tudo é
perfeitamente amarrado e perturbadoramente profundo. Nada, na trama, é
superficial. Muito pelo contrário: com o avançar das edições, o nível de
profundidade só aumenta, nos impelindo, forçosamente, à reflexão.
Em Watchmen há algo, genuinamente, sem igual. O que
ora parece uma história panorâmica do tão conturbado século XX mostra-se, ainda, maior. Explora o conceito de heroísmo e super-heroísmo, bem como a ascensão do gênero nos quadrinhos nas décadas de 30 e 40, a paranoia do fenômeno UFO - alimentada com a divulgação de A guerra dos mundos, de Orson Wells -, o cinzento pós-guerra e suas consequências:
a questão do Vietnã, os mandos e desmandos políticos das potências mundiais (em
especial, a dos EUA) e, principalmente, o medo ante a iminência de um
conflito nuclear apocalíptico, resultante da Guerra Fria.
Ainda permeando a trama com fatos do século XX, Alan
Moore espalha mais algumas importantes referências, tais como: literatura
Beat, as experiências alucinógenas de expansão da mente por meio de algumas
drogas, a valorização das culturas orientais, o avanço desenfreado (e inconsequente!)
da tecnologia, o avanço do capitalismo e a sua hegemonia com a globalização.
Enquanto o (frio) Dr. Manhattan simboliza a descoberta, o uso e o poder
nuclear, Adrian Veidt representa o inescrupuloso e poderoso mercado. É nestes
dois personagens que está o núcleo, o centro da HQ.
Watchmen nos apresenta uma realidade distópica, onde a loucura e
a paranoia com o fim do mundo coexistem com a esperança de um futuro de paz. Uma
paz imposta com autoritarismo e com as “maravilhas” que os mercados podem oferecer.
E por isso mesmo há uma aura nostálgica envolvendo a narrativa. Uma nostalgia
de quando se acreditava que o mundo não era tão complicado.
A guerra, a sordidez política, o comodismo e o
distanciamento entre os homens, a bipolarização do mundo, a desigualdade social
são o pano de fundo onde circulam pessoas feridas pelos anos e pelas condições
impostas pela vida. E quando pensamos haver alguma esperança, algum resto de
sensibilidade dos poderosos, somos surpreendidos com o apocalipse.
Deus, um ser híbrido constituído de megalomania,
beligerância atômica e “princípios” mercadológicos nos condena a um “paraíso”.
Nos ofusca com o brilho de uma paz fabricada e nos afoga no comodismo de um
universo globalizado e politicamente correto. Nos lança, paradoxalmente, nas
trevas luminosas de um mundo “pacificado”
.....................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................
Mas Watchmen é muito mais que isso. É de uma profundidade sem igual. E eu
poderia ainda tentar falar do por que ser o centro de tudo um simples
jornaleiro, seus clientes e sua banca de jornal. Ou mesmo tentar discutir a "loucura" e as sequelas proféticas de Rorschach. Ou mesmo a sensibilidade e fúria de Laurie. Ou a
metáfora viva da comédia humana: o Comediante. Ou... a relação do mundo
presente, e seus personagens, com a narrativa pulp que engendra a
trama...
O roteirista parece ter um segredo. Um segredo indispensável a qualquer um que queira trilhar estes caminhos: escreve com a obrigação de tentar conceber a melhor obra artística já criada pelo homem. É exigente além dos limites consigo mesmo, tem uma obrigação social, estética, moral e política na realização de algo inconcebível. E, por isso mesmo, sua criação não pode ser adjetivada por outras palavras que não sejam extraordinária, fantástica e genial.
Enfim, a obra é vasta - em política, filosofia, história, literatura, psicologia etc. - é atemporal - embora dependente
daquele contexto histórico específico - e tudo o que aqui fora dito não representa muita
coisa não. Mas parece ser a ponta desse grandioso e interessante iceberg.
P. S.: Interessante
como a questão da força criadora da mente humana está presente tanto em Lição
de anatomia - já que é ela que dá vida ao Monstro do Pântano - quanto em
Watchmen e no acidente que garantiu o poder atômico do Dr. Manhattan. O poder
de conceber tudo por meio do pensamento do homem deve ser uma ideia fixa em
Alan Moore.
P. S. 2: No capítulo "Relojoeiro", construído sob a temática do tempo, o Dr. Manhattan aparece contemplando "A persistência da Memória", de Salvador Dalí - o que é extremamente significativo ao personagem, pois para ele o tempo (passado, presente e futuro) é fluido.
P. S. 3: O fundo dos quadrinhos apresenta, também, uma narrativa, uma movimentação. Não é estático e esquecido pelos criadores, pelo contrário: há encontros e desencontros que culminam no próximo quadro.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Mas talvez se estivesse...
Estou sozinho em casa. E por isso mesmo, ela parece maior. Gigantesca. Vago de um cômodo a outro, arrastando o tédio comigo. Lanço-me numa cadeira, outra hora no sofá... por vezes na cama.
Nenhum gesto resolve minha inquietação, um desespero contido, reprimido, prestes a furar e jorrar por todo meu corpo. Ligo o rádio: vozes intermináveis. Desligo. Ligo a televisão: vozes intermináveis e movimentos estáticos. Desligo. Não me dizem, perguntam, respondem nada.
Talvez se ela estivesse aqui... Mas não está! Mas talvez se estivesse... eu poderia distrair-me nos seus sorrisos, prenderia-me nos seus cabelos, entorpeceria-me na tua voz e descobriria-me, perdido, em seus abraços. E isso seria tudo pra mim.
Faríamos brincadeiras bobas um com o outro, riríamos hora de leve, hora estridentemente por pequenas coisas. Falaríamos coisas sérias também. Tão sérias que nossos rostos se contrairiam, se tornariam pesados e tristes.
Mas nossos olhos se encontrariam novamente, nos fazendo lembrar o quanto nos amamos. E então voltaríamos a sorrir - por dentro e por fora e principalmente por dentro. E em nossas consciências, findado o riso externo, do corpo, ainda ecoaria os sons dos sorrisos de dentro - seja do coração ou da mente ou de Deus ou dos cosmos.
E passaríamos as manhãs e as tardes e as noites juntos. E na escuridão noturna, eu esperaria você dormir, e ainda lhe daria uma última olhada, um último afago, um beijo na testa, e então eu dormiria. E, muito provavelmente, eu sonharia com você, meu amor.
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Sobre Lição de anatomia, de Alan Moore
Recentemente, li
a narrativa em quadrinhos Lição de anatomia, arco de histórias do
Monstro do Pântano, escrita pelo já lendário Alan Moore, desenhada pelo
magistral Stephen Bissette e artefinalizada por John Totleben. E a considero
extraordinária.
Publicada pela
editora brasileira Metal Pesado, no ano de 1997, sob o selo Obras Primas
Vertigo – N°1 (em preto e branco), conta com uma boa introdução, escrita por
Moore, que serve para situar o leitor sobre as fases anteriores do personagem,
e mais dois textos: um do estudioso das narrativas sequenciais Álvaro de Moya e
o outro do (editor?) Jotapê, ambos bem importantes por trazerem um panorama do
gênero terror nos quadrinhos e, também, curiosidades sobre publicações da DC
Comics e seu rico universo.
Lição de
anatomia é fantástica e chama atenção, principalmente, pelo seu enredo e pelo
modo como este é disposto na sucessão das páginas. O roteirista escreve e
distribui quatro microcontos de horror que, quando unidos, compõe um todo
incrível, minuciosamente arquitetado, envolto numa insana atmosfera cinza,
pegajosa, úmida e realmente assombrosa que mistura humanidade, política e
ideologia – a típica simbiose realizada pelos bons escritores e pelas boas
histórias em quadrinhos.
Assim, o Monstro
do Pântano luta, página após página, contra o fato de se descobrir,
simplesmente, uma casca oca, vazia, desprovida de sentimentos e de essência
humana. Este, além de digladiar com seus medos interiores refletidos em seu
aspecto exterior, simboliza a unidade resultante do homem com a natureza –
indissociáveis e interdependentes na História.
A narrativa
apresenta, ainda, um tom político e ideológico, pois termina abarcando o
discurso ambientalista de proteção à natureza e criticando a inutilidade das
cúpulas do poder mundial (tal como a apática ONU na questão Israel x Palestina) sobre as Guerras – seja do homem com
ele mesmo, seja deste em relação a sua sanha expansionista sobre o planeta, não
respeitando os recursos naturais para se atingir gananciosos fins.
Desse modo, é
crítica e significativa a aparição (mesmo que obrigatória) da Liga da Justiça
(da América, claro!) que, à distância – tal como os poderosos grupos que
decidem os destinos do mundo – discutem, ponderam, refletem... mas não agem,
não se envolvem no corpo a corpo dos problemas que realmente afetam milhares de
indivíduos. Não, isso fica a cargo dos verdadeiros donos do poder: o povo – tão
bem representado por um aparentemente simples camponês e sua necessidade de
lutar pela sobrevivência, enfrentando o vilão que encarna a fúria da natureza e
que passa a destruir tudo a sua volta, almejando a aniquilação do ser humano –
até compreender que ele próprio é resultado da simbiose e da interdependência
Homem/Natureza.
sábado, 26 de julho de 2014
Ser Humano
Ato
e condição:
Serumano.
Fato
e contradição:
Ser-humano.
Euforia
(sem explicação)
Calmaria
(em ebulição):
Ser humano.
Ato
e condição.
e condição:
Serumano.
Fato
e contradição:
Ser-humano.
Euforia
(sem explicação)
Calmaria
(em ebulição):
Ser humano.
Ato
e condição.
segunda-feira, 7 de julho de 2014
"Pena não ser burro, não sofria tanto"
A coisa mais importante, e também a mais inquietante ao homem, é o tomar consciência do mundo que o cerca. É de máxima importância pois sem essa conscientização não nos situamos (nem sitiamos!), não nos posicionamos e não nos inserimos efetivamente na realidade circundante. Mas tudo isso inquieta e aflige.
Causa inquietação porque mexe com nossos valores, coloca em risco nossas crenças, ameaça o nosso porto-seguro e nos obriga a ficar em ação - histórica, social, cultural e politicamente. Assim, passamos a ver o mundo em um eterno conflito - desigual, muitas vezes armado e, sempre, ideológico.
Sem igualdade pois nos mostra e nos acostuma com a verticalidade das relações dos homens e a eterna CLASSESFICAÇÃO das sociedades. Bélico em virtude da sanha IMPERIALISTA, dominadora e doentia dos governantes. E ideológico porque TUDO está envolto por ideologias - os filmes, os desenhos, os livros, as igrejas, as escolas... enfim, tudo se engendra nessa trama que, sutilmente, controla e se legitima (simultaneamente).
E nada escapa a isso. E isso é assustador. Principalmente pelo fato de que poucos tomam ciência do mundo em que vivem e do quão opressora é a Realidade. Assim, faz sentido a citação que dá título a este texto, retirada de uma das músicas do maluco beleza: "Pena não ser burro, não sofria tanto."
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Linhas sobre o tempo
Nada mais será como antes
pois o segundo não é mais o mesmo
e os olhos acompanham os segundos
e estes, céleres, misturam-se aos minutos
que se arrastam até as horas - que jorram os dias.
E nesse mar temporal
somos engolfados
e fustigados
até aprendermos a navegar a vida
e a desejar horizontes e terras novas
que serão pisadas por homens novos
Nós!
já transmutados pelo tempo.
pois o segundo não é mais o mesmo
e os olhos acompanham os segundos
e estes, céleres, misturam-se aos minutos
que se arrastam até as horas - que jorram os dias.
E nesse mar temporal
somos engolfados
e fustigados
até aprendermos a navegar a vida
e a desejar horizontes e terras novas
que serão pisadas por homens novos
Nós!
já transmutados pelo tempo.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
Sem título...
Entre cimento, blocos e
ferros retorcidos: escombros
materializando a morte
O amor não desistiu
O amor - seja da amizade
ou da solidariedade
ou do homem e da mulher -
não venceu a Morte (Deusa invencível e eterna)
Mas eternizou-se nela (!),
e a comoveu, por meio
da simplicidade de
um abraço.
(11-05-2013)
P. S.: A partir da comovente foto que percorreu o mundo, eternizando (tristemente) a catástrofe de Bangladesh.
ferros retorcidos: escombros
materializando a morte
O amor não desistiu
O amor - seja da amizade
ou da solidariedade
ou do homem e da mulher -
não venceu a Morte (Deusa invencível e eterna)
Mas eternizou-se nela (!),
e a comoveu, por meio
da simplicidade de
um abraço.
(11-05-2013)
P. S.: A partir da comovente foto que percorreu o mundo, eternizando (tristemente) a catástrofe de Bangladesh.
sexta-feira, 14 de março de 2014
do mundo: ainda e sempre
Não... o mundo não está tão mal!
As árvores ainda permanecem verdes e plantadas na e dependentes da terra.
Não... o mundo não está tão mal!
As estrelas ainda são visíveis a olho nu e ainda estão incrustadas no negrume do universo.
Não... o mundo não está tão mal!
O universo ainda é vasto e infinito e o homem ainda não decodificou seus mistérios.
Não... o mundo não está tão mal!
Ainda há um céu normal que segura o sol (de dia! enquanto pensamos) e a lua (de noite! enquanto sonhamos).
Não... o mundo não está tão mal!
Ainda existem homens e mulheres e crianças e velhos dispersos e amontoados e sonhadores pelo seu território. E eles ainda lutam e amam e perdem e vencem e vão e ficam sob o céu ora azul ou preto ou cinzento ou esfumaçado mas ainda o teto natural da humanidade.
Não... o mundo não está tão mal!
Ainda há desejo fora das máquinas e eles pulsam e impulsionam os seres também fora das máquinas a viverem.
Não... o mundo não está tão mal!
Ainda há consciência único deus perceptível na nossa cabeça e dentro dela fazendo crer em Bem e em Amor e em Corações e que todo o Mal fenecerá e ainda existem as perguntas sem respostas que exigem serem indagadas e há o Ser que quer saber e rumina o saber para mais poder saber e há o Ser que quer amar e rumina o amor e quer mais amor pois há esperança e é ela quem grita sufocada flagelada no meio de todo esse turbilhão que é o mundo:
NÃO! O MUNDO NÃO ESTÁ TÃO MAL!!
segunda-feira, 10 de março de 2014
O exército de um homem só - capa, contracapa e conteúdo
Li, esperançoso de ver logo o final, o livro O exército de um homem só, do falecido escritor porto-alegrense Moacyr Scliar (1937 - 2011). Iniciei a leitura entusiasmado pela beleza poética do título e motivado por uma aura idealista e, até certo ponto, revolucionária do texto da quarta capa, produzido pela editora L&PM, que dizia o seguinte:
Este livro está definitivamente incorporado à literatura brasileira como uma das peças de ficção mais importantes produzidas na década de 70. Aqui, Scliar cria um personagem definitivo, o Capitão Birobidjan, destemido herói de um novo mundo, fanático pregador de utopias, solitário e esperançoso navegador de um mar de indiferença.O exército de um homem só arrebata o leitor através da narrativa ágil, precisa, estruturada sobre cortes no tempo, onde a ficção é envolvida constantemente por uma atmosfera fantástica. O humor amargo de Moacyr Scliar ronda este belo livro. A saga de Birobidjan, o solitário pregador de um mundo melhor, seu louco humanismo, quixotesco, seus sonhos mágicos, fazem deste livro uma leitura emocionante e inesquecível.
Impossível para mim não se alegrar com tais palavras. Pois bem, o entusiasmo e a alegria ficaram por aí. Da metade do livro em diante - quem sabe até mesmo antes - não via a hora de terminar logo tão árduo trabalho. Árduo pois enfadonho e de escrita fragmentada - não que este último aspecto seja problema para amantes de literatura como eu, mas nesse caso em particular era, já que me deixava ansiosíssimo para descobrir algo a respeito das personagens, ou dos ambientes da história, ou mesmo sobre algum aspecto histórico tão bem trabalhado pelo escritor...ou qualquer outra coisa que fosse. Mas o fato é que não se descobria nada de relevante com o passar das páginas. Obra insossa!
Claro que há pontos de interesse na composição do livro: o caráter biográfico e atemporal, o passeio pelo século XX - desde a segunda década até o início dos anos setenta -, o estilo do escritor na descrição das ações das personagens, o humor ácido disseminado pelo texto, as alusões a outras obras etc. Isso em relação à forma. Quanto ao conteúdo, é aí - a meu ver - que reside minhas desilusões. Muito em virtude do texto citado acima!
Há sim um personagem idealista, quixotesco, ferrenho batalhador de um novo mundo! "Luta" e "trabalha" (em vão), até o fim de sua vida, em prol da realização de seus utópicos ideais! Mas é um sujeito louco. E não é o típico sujeito à margem de uma sociedade indiferente e alienada, que o trata como insano. Não, ele realmente é louco - isso fica bem claro no livro. Mayer Guinzburg - verdadeiro nome do protagonista - chega mesmo a se ajustar socialmente, mas os instintos libertários se afloram e ele parte novamente rumo à construção d'uma nova sociedade.
Tudo isso tratado de maneira irônica pelo autor. E é essa ironia que não se entende. E é aí que entra a contradição em relação ao texto da quarta capa: a narrativa não tem a seriedade e a "emoção inesquecível" que a resenha quer conferir a ela. Pelo contrário: há mesmo uma crítica no livro ao caráter ditatorial que resultam dessas utopias - exemplo disso é o caráter tendencioso e individualista do Capitão Birobidjan em muitos momentos da história. A impressão que se tem é que quem escreveu tais linhas nem sequer leu o livro! Do contrário, não seriam estas as palavras para apresentá-lo ao público.
Acredito que o que Scliar queria mesmo não era construir uma personagem idealista, coletivista, utópica... E muito menos crítica da sociedade e dos sistemas capitalista e comunista (polos centrais da história), mas sim um verossímil indivíduo revelador do caráter enlouquecedor de um mundo dividido, espremido por tais ideologias. E isso é genial. Mas está implícito, subentendido. Perdido e diluído nas 170 e poucas páginas chatas de se ler.
Agora vejo a verdade no ditado que diz para não se julgar um livro pela capa. E, por extensão, pela contracapa, resenha, prefácio, orelhas...
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Na realidade do mundo
Em 2013, após relatos de que a Síria havia feito, em sua própria população, uso (e guardava um arsenal) de armas químicas - situação semelhante a do Iraque, há alguns anos - , os Estados Unidos da América, oportunamente, quiseram intervir, alegando ser aquilo um perigo para o resto do mundo. Claro que o que estava em jogo, assim como na situação iraquiana, era a tomada de um território riquíssimo em petróleo.
Pois bem, a situação continuou, os conflitos entre o governo sírio e os rebeldes - também sírios -continuaram, e os EUA persistiram em pressionar a opinião pública a apoiar uma invasão. Que por sorte - ou pelo fato da Síria ter o "apoio" da Rússia - não aconteceu (do jeito que os líderes americanos queriam, é claro!). Acontecesse, já não estaríamos aqui - tão vasto é o poderio nuclear das duas potências!!
O que aconteceu mesmo fora um massacre - que com uma invasão só se potencializaria! - entre governo, rebeldes e a população no meio, arcando com os "efeitos colaterais".
Mortes e mais mortes...e a tensão de que uma Terceira Guerra Mundial acabaria com tudo... Foi isso o que sentiu, penso eu, quem acompanhou os jornais naquelas dias.
Em meio a esse cenário, envolvido em tal atmosfera, fora escrito o poema "Na realidade do mundo".
Na realidade do mundo
Preciso escrever alguma coisa!
É sobre esse cheiro: ODOR!
Que exala das notícias
Das páginas dos jornais
Da televisão do rádio
E das bocas dos poucos que falam...
É um cheiro (ODOR) de morte
Putrefação
Vala comum com amontoados de corpos
SINTAM...
É quase possível tocá-lo
Impregna as narinas, entorpece o cérebro
É um odor que traz consigo sons
- gritos, soluços, tiros e bombas
gemidos estridentes: GUERRA!
E estes sons entoam uma canção
embalada no medo
- Cantada pelo Medo -
Que traz o sono
e a insônia
- com seus pesadelos
escorraçando os sonhos
e as esperanças
escancarando sua boca
e nos engolindo
e nos vomitando
despidos de TUDO
Nus e com frio
Na realidade do mundo.
(3/9/2013)
***
Em janeiro deste ano - esperançoso de ter passado o susto -, lendo o quadrinho japonês GUNNM - Hyper Future Vision*, do autor Yukito Kishiro, deparei-me com essas palavras, ditas pelo personagem Buick, fotógrafo, perdendo sua sanidade em face ao terror da guerra:
Sem parar...
Sem parar...
Nada muda...
não conseguimos mudar nada...
O sol majestoso no céu
e cadáveres na terra...
Ferro queimado...
A verdadeira imagem do mundo
É confusão e caos.
Essa é a única lei que realmente vale.
Eu sinto que estava tendo um sonho gostoso,
Mas eu já me esqueci do que se tratava...
A fumaça esconde tudo que está distante...
O futuro é incerto...
Eu não quero mais ser um humano...
Sou uma lente esfomeada!
Sou o olho da morte
que devora tudo que vê!!!
E o que tem tudo isso? Simples: além do fato dos textos apresentarem a guerra como aterradora e ensandecedora, faz pensar, também, como as coisas do mundo parecem entrelaçar-se de tal modo que dão a impressão de que tudo já está planejado e que apenas representamos nossos tristes papéis numa peça teatral onde não conhecemos os escritores, diretores, figurinistas, sonoplastas e todos os outros que permanecem atrás das cortinas e das luzes.
E isso chega a ser tão apavorante quanto o fato de estarmos em meio a esta guerra.
* Trecho retirado do volume 16 do mangá.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Dez anos
Os rubros borrões preenchiam uma boa porção da parede. Esguichos vermelhos pintavam partes de algumas mesas e cadeiras. No chão, uma poça escarlate e luminosa, em virtude da claridade que penetrava pelas janelas, crescia à medida que o sangue escorria da cabeça desfigurada que parecia não pertencer ao pequeno e frágil corpo que jazia, inerte, no chão.
O aluno tinha seus dez anos. Seu nome pouco importava diante de tão trágico fim; diante de tão tenra idade: dez anos. Estava concluindo a quarta série do ensino fundamental. E esse era o motivo de tão triste desfecho para uma vida ainda tão curta. Uma vida de dez anos.
No momento a sala de aula estava vazia. Estava silenciosa. Encerrava apenas o jovem corpo... torto... caído... desfalecido. E a arma. Uma pistola automática. Caída ao lado do corpo.
Há quinze minutos, talvez vinte, era um zum-zum-zum interminável. O alarido estrídulo das vozes dos alunos preenchiam o espaço compacto da sala de aula. A porta fechada contribuía para tornar tudo mais intenso: as conversas, a correria ora e outra, e o inútil esforço da professora que lutava para fazer-se ouvir, tentando passar seu conteúdo e fazer valer seus quatro anos de faculdade.
De repente o estampido. Forte, seco, autoritário. E o silêncio.
Pareceu que o mundo parara. Os ruídos, os alunos, a professora, a vida... tudo cessara. Os alunos abobalhados, atônitos, instintivamente procuravam a origem do barulho. A docente petrificou-se. Numa fração de segundos todo o silêncio do universo ocupou o espaço daquela sala.
Cinco segundos, talvez menos, e o caos e a confusão retornaram, abruptos, incomparavelmente pior. Milésimos de segundos de reflexão e todos amontoavam-se em direção à saída empurravam-se desesperadamente gritavam sabe-se-lá-o-quê pisoteavam-se num frenesi de pavor. A professora pobre criatura estúpida em vão tentou acalmar-se não pode: correu em direção à porta abriu-a e a torrente de alunos saiu em pânico deixando para trás um cenário caótico desordenado e um corpo que tombara pesadamente.
Agora os peritos e os policiais examinavam o cadáver irreconhecível. Ouviam os amiguinhos, os professores, o diretor.... Ligavam para os pais. Examinavam a cena da tragédia. Bradavam ordens para que se investigasse a origem da arma – que logo descobriram ser do pai, policial militar.
“O que teria acontecido?” “Acidente?” “Algo proposital?” Indagavam os investigadores. Demoraram-se a considerar a hipótese de suicídio. “Era impossível! Era apenas uma criança! Tinha apenas dez anos! Dez anos! Devia estar brincando com a arma, colocando-a assim na boca...”.
Concluiu-se que fora isso mesmo: suicídio. Os pais, inconformados com a perda, foram ouvidos e, em prantos, alegaram que o garoto era feliz, brincalhão... nunca houvera manifestação alguma de distúrbios psicológicos ou algo do tipo. Os colegas de turma diziam que ele era normal, apenas um pouco tímido e metido consigo mesmo. Os professores alegavam que ele era bom aluno, compreendia e realizava as tarefas, não dava trabalho. No entanto afirmavam que ele era um pouco inquieto na sala de aula, “era como se estivesse sempre querendo sair dali”.
O pai fora rapidamente afastado da corporação e responde processo por descuidar-se da arma. A mãe adoecera pouco tempo depois da morte do filho e permanece internada num hospital. O caso foi encerrado e o garoto julgado como sofredor de algum transtorno psíquico – não souberam dizer qual. Era a única explicação: as agressões e chacotas sofridas na escola foram consideradas insuficientes para levá-lo a tomar tal atitude.
E realmente foram. Assim como a ausência dos pais e a falta de atenção por parte dos professores. Nada disso contribuiu para seu ato. O que realmente foi decisivo para o suicídio – já tentado antes, sem ninguém o saber, também com a arma do pai, porém sem sucesso devido o medo que o fez desistir – fora a própria escola. Nem alunos valentões, nem pais, nem professores, nem problemas mentais... nada disso. Apenas o pavor do monstro institucional chamado Escola.
O garoto tinha apenas dez anos. Se tivesse mais idade talvez conseguisse dizer que o que lhe afligia era a própria estrutura escolar. Atormentava-lhe o fato de estar trancafiado, durante horas, ali. Todos os dias. Perturbava-lhe as fileiras de alunos e o tratamento comum a todos. Incomodava-lhe o cárcere educacional (não havia cometido crime algum!). Tirava-lhe o sono a perspectiva do futuro, dos anos vindouros que teria, ainda, que permanecer naquela condição. Era inadmissível aquela triagem estatal para inseri-lo numa sociedade desigual. Eram insuportáveis aquelas paredes de concreto maciço a aprisioná-lo...
E fora assim, então, que encerrado naquela masmorra colocou o cano na boca e apertou o gatilho. Almejando liberdade? Não sabia ainda o que isso significava... Não media ainda as consequências dos seus atos...Queria apenas sair dali. E não ter que voltar mais.
P. S.: Escrevi este conto no segundo semestre de 2012, na faculdade. A ideia era produzir uma narrativa curta, norteada pela temática da educação.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
A arte dos quadrinhos e o seu constante diálogo com outras artes
Interessante observar - e refletir sobre - o quão abrangente e rica é a linguagem das Histórias em Quadrinhos. Esta, consolidada em meados do século XIX e em eterna evolução, mantém-se em constante diálogo com outras expressões artísticas, tais como a pintura, a literatura e a fotografia - bases fundamentais da sua constituição -, o cinema, a música, a poesia e outras.
As HQs (como são chamadas comumente), desenvolveram-se, como alguns autores afirmam, simultaneamente com a civilização humana. Evoluíram a partir das pinturas rupestres, passando pelos hieróglifos da cultura egípcia, posteriormente viu a criação da imprensa, o avanço da industrialização e da ciência e, com elas, o avassalador desenvolvimento tecnológico - do qual, obviamente, se alimenta nos dias de hoje. Trata-se de uma linguagem única - resultado da junção do texto com a imagem -, justamente pelo seu caráter abrangedor e assimilador de outras expressões artísticas.
Assim, as HQs são de interesse e motivo de reflexão pelo fato de que, por meio de uma única (e boa!) história dessas, tomamos contato com diversas outras expressões artísticas - o que aciona diversas competências leitoras que temos, estimulando nosso cérebro -, além de nos levar a pensar no quão importante elas são, pois constituídas a partir da diversidade cultural que nos cerca. É uma linguagem híbrida, extremamente veloz e de fácil assimilação em relação ao que é exposto - o que a torna perfeita diante da velocidade do nosso século.
Dito isto, exemplifico essa característica do diálogo com outras artes por meio do trecho da história Wolverine - Arma X*, de Barry W. Smith (desenhos e roteiro), que segue:
Eu tô fugindo!
De um sonho!
E alguma coisa tá atrás de mim!
Na minha cola...
Como uma sombra!
Ela quer me sufocar...
Na sua escuridão!
Aí não vou poder gritar...
Nem resistir...
Porque ela tá dentro de mim!
Nas minhas tripas...
Dentro dos meus ossos!
(...)
Tá me alcançando...
Se arrastando nas minhas veias feito corda!
Os tendões são fios...
Como de marionete.
Tá me cortando...
Me arrastando de volta pras trevas!
Pesadelo sem fim...
Ondas pretas correndo na noite...
Líquido...
Como sangue preto!
E eu não consigo escapar!
Tá nos meus ombros,
Me cortando com espetos!
Tá respirando dentro de mim...
E eu tô inspirando seu bafo quente!
Fedor de morte na minha boca!
Eu não consigo escapar!
Mas tenho que...
Fugir! Fugir pra sempre...
Lutar pra sempre!
A fera!
(...)
Desabando sob o peso da fera.
Isso é nitidamente poético! Dialoga com a poesia. Trata-se de uma metáfora da luta interior que travamos com nossos medos, nossos instintos animais - feras que podem, a qualquer momento, nos devorar. Aí está uma demonstração do que foi dito sobre a arte dos quadrinhos. De como esta se constitui a partir da assimilação de outras linguagens artísticas e torna-se única e independente.
P.S.: A relação aqui feita, entre quadrinho e poesia, não tem o intuito de torná-lo maior em virtude da aproximação com a literatura, mas sim ressaltar tal característica e, justamente por isso, o quão interessante e importante ele é. Visa, pois, contribuir para tirar os quadrinhos do âmbito tão somente infanto-juvenil e garantir-lhe a sua importância como objeto artístico-cultural!
*A referida história foi publicada na revista "Wolverine Extra" - nº 1, pela editora Abril, no ano de 1995 - edição especial, formatinho. O trecho citado encontra-se nas últimas páginas da publicação.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Divagações pós-leitura (verbo-visual) de Wolverine - Arma X, O substituto, Gunnm, Tropa de Elite 2, The Walking Dead e poemas de Ginsberg
2014 começou bem. Li Wolverine - arma X (edição formatinho), estou acompanhando The Walking Dead (os quadrinhos), assisti O substituto e Tropa de Elite 2 e, no momento, leio Uivo, Kaddish e outros poemas, de Allen Ginsberg e o mangá cyberpunk Gunnm - Hyper Future Vision, de Yukito Kishiro. Óbvio que o cérebro, habituado à velocidade do século XXI, está rapidamente buscando conexões entre coisas tão DISTINTAS, INTERESSANTES e, ao mesmo tempo, PRÓXIMAS umas das outras.
Comecemos por Wolverine - arma X. Nada mais nada menos que uma metáfora, poética (diga-se de passagem), do conflito interior que travamos a partir do exterior. É, no fim, uma luta para não sermos animalizados pelos avanços do homem em face das descobertas científicas - grosso modo, claro. É um não querer sucumbir ao medo de nos tornarmos irracionais em virtude disso.
The Walking Dead - até onde li (edição 15) - é uma metáfora, também (por que não?), do absurdo das situações que podemos encontrar quando despertamos para o mundo e de como somos forçados a conviver com (e até a aceitar) tudo isso. Há também o eterno conflito da razão com a loucura, da vida com a morte (literalmente) muito bem representado pelos autores da série.
Os dois filmes - O substituto e Tropa de Elite 2 - representam a luta, e a quase impotência, diante de uma sociedade marginalizada e um sistema corrupto e opressor. No primeiro a crítica se dá por meio da educação, e, no segundo, por meio das forças policiais e políticas.
Ainda, os poemas de Allen Ginsberg e o mangá de Yukito Kishiro são proféticos e apocalípticos. Revelam o homem engolido e vomitado pelos grandes centros urbanos e pelas implacáveis máquinas industriais. Um universo cru e violento, onde os sentimentos afetivos (inerentes aos homens) são, quase por completos, substituídos/aniquilados pela materialidade das coisas. Ambos apresentam um mundo dual, dividido entre podridão e matéria - de um lado - e luz transcendente do outro - além (ou acima).
Sendo assim, medo, absurdo, opressão e utopia são os elementos que amarram essas expressões artísticas tão diversas. São responsáveis por aproximar textos tão variados, tanto no tempo (os poemas de Ginsberg são da metade do século XX, Arma X e Gunnm são dos anos noventa, The Walking Dead e os dois filmes são dos anos 2000), quanto em suas materialidades expressivas (quadrinhos, cinema e poesia).
Por fim, reafirmam e profetizam, bela e inteligentemente, o que já sabemos: que somos seres frágeis e ferozes, lutando contra o insólito e absurdamente extraordinário. Representam, pois, cada qual à sua maneira, o combate eterno dos sujeitos oprimidos contra um estado (ou Estado, mesmo) de coisas onipresente/onipotente opressor, desejosos de manter suas individualidades e esperançosos pelo bem da coletividade humana.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Natal
Pesadelo dos desgraçados!
Flagelo dos senhores solitários
em bares solitários.
Moléstia dos desesperançados e tristes amantes de balcões de botecos
padarias
e barzinhos.
Desespero de 24 horas ininterruptas dos que vagam
- carcaças vazias - por aí,
- carcaças vazias - por aí,
sem filhos, sem esposas, sem amantes, sem amigos
sem mães e sem pais, sem irmãos, sem emprego
sem abraços
sem beijos
sem afagos
sem amor: CHEIOS DE NADA.
Afogando-se no
e transbordando o
NADA.
Escutando "Feliz Natal" de desconhecidos
e prosperando o NADA.
Pra começo de conversa
Bom, esta é a primeira postagem do recém-inaugurado Baboseiras Subjetivas. Logo, faz-se importante, antes de mais nada, esclarecer tão singular título para este blog - o qual, nada mais significa, que um veículo para canalizar e expressar meus pensamentos... seja lá pra quem for ler.
Assim, Baboseiras Subjetivas nada mais quer dizer que isto: hora ou outra sempre consideramos besteiras (ou baboseiras mesmo) o que dizemos/pensamos sobre algo - o que, obviamente, não é. Mas, por tratar-se de opinião (fundamentada ou não) deixamos (ou deixam) de dar a devida relevância a ela. É pura e simplesmente uma provocação a mim e a todo mundo! Nada além disso.
Assim, Baboseiras Subjetivas nada mais quer dizer que isto: hora ou outra sempre consideramos besteiras (ou baboseiras mesmo) o que dizemos/pensamos sobre algo - o que, obviamente, não é. Mas, por tratar-se de opinião (fundamentada ou não) deixamos (ou deixam) de dar a devida relevância a ela. É pura e simplesmente uma provocação a mim e a todo mundo! Nada além disso.
O fato é que eu já vinha, há algum tempo, pensando em criar um blog assim. Demorou uns anos... mas aí está: um meio propício para comunicar impressões do que sinto/leio/ouço/vejo/vivo. Algo que, acredito, manterá um diálogo interessante com seja lá quem vier a visitá-lo (mesmo para críticas, claro!!!!). Talvez o conteúdo aqui depositado sirva, simplesmente, aos vírus - já que não temos traças virtuais -, e nunca nem venha a ser lido, mas não tem problema: é melhor lançá-lo aqui que deixá-lo apodrecendo e corroendo meu tão jovem cérebro... (risos).
Bom, sejam bem-vindos ao Baboseiras Subjetivas. E, principalmente, sejam TODOS bem-vindos a um pouco do(s) meu(s) UNIVERSO(S)!
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