É sempre interessante conjecturarmos, a partir do passado e inseridos num dado presente, sobre as possibilidades de um possível futuro. Algumas dessas conjecturas materializam-se esteticamente, é o caso de OMAC - Operativo Máximo para Ações de Combate (Panini, 2021), criação do quadrinhista estadunidense Jack Kirby (1917-1994) para a DC Comics, nos idos da década de 1970.
domingo, 30 de maio de 2021
O estranho Porvir em OMAC, de Jack Kirby
quinta-feira, 11 de março de 2021
Dois Haicais (frutos da pandemia e da quarentena)
nesse breu escuro
decerto ainda haverá
Luz: nosso futuro
(Haicai LIV)
Depois desses dias
de abraços urgentes
iremos além: faremos
(en)laços ardentes
(Haicai LVI)
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
Intertextualidade, arte e Dylan Dog
quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
Duas palavrinhas acerca de A mão errada (Dylan Dog - Nova Série 11)
Os quadrinhos de Dylan Dog não param de surpreender - positivamente, claro. Dessa vez, o longevo fumetti italiano, criado na década de oitenta por Tiziano Sclavi e atualmente publicado aqui no Brasil pela Mythos Editora, nos apresenta A mão errada, uma história sombria e perturbadora sobre arte, obsessão, vida e morte.
Na trama, vemos uma artista que perdera a mão direita e que, a partir da superação desse trauma passa a pintar com a esquerda. Porém, sua arte, agora, não mais representa a beleza da vida, como antes, mas sim cenas mórbidas de terror, dor e morte e que, extraordinariamente, se relacionam com homicídios cometidos, segundo a polícia londrina, pela própria artista dos quadros, a aclamada Anita Novak. Um caso insólito e intrigante, perfeito para o Detetive do Pesadelo Dylan Dog.
Com excelente roteiro de Barbara Baraldi, escritora italiana de horror gótico, e com desenhos de Nicola Mari, A mão errada é, pois, uma narrativa sequencial PERFEITA, que une a atmosfera dos romances policiais, o lado doentio e depressivo da escrita gótica e pertinentes reflexões sobre a arte, vida e morte - tudo materializado figurativamente pela densidade sombria dos cenários noturnos dos traços de Mari - possivelmente influenciado pela vanguarda expressionista.
É uma narrativa resultante da junção de opostos: amor e obsessão, sensualidade e erotismo, sonhos e pesadelos, início e fim da existência, arte e realidade. E é impossível dissociar tais dicotomias, tais dualidades, porque entranhadas e em eterno conflito no interior do ser humano. Aqui, Dylan - o homem - é arrastado, mesmo a contragosto, pelas personagens Anita, a artista do horror, e Rita Leigh, artífice da vida - ambas figurativizando, respectivamente, a bela e misteriosa senhora das trevas, a morte, e a radiante e atraente dama da luz, a vida. Há ainda a tímida Marnie, que simboliza a doçura do amor e, paradoxalmente, a violenta obsessão passional.
Bastante interessante é a caracterização destas personagens: Anita, o horror e morte, nos é apresentada de maneira simples, como alguém comum; Marnie representa os extremos, indo de uma aparência meiga e pura à violenta e obsessiva; Rita é a gótica, maquiagem carregada e tatuagens pelo corpo, bela, vivaz e intrigante, como a vida. Resumidamente, são representações que rompem paradigmas socioculturais, que tentam ressignificar o senso comum e que mostram que as aparências são apenas cascas, uma capa que recobre as profundidades do eu. Resta-nos, tão somente, arrancá-la e penetrar as camadas de sentidos que nos inquietam e nos impelem, mais uma vez e sempre, às questões universais, eternos mistérios, de vida, amor e morte.
Além de bem construída e amarrada, sem pontas soltas, a narrativa surpreende como trama de suspense policial. Todas as figuras que circulam pelas páginas são estranhas e potenciais suspeitos dos brutais crimes investigados - o que nos deixa "perdidos", tentando encontrar pistas e correlacionar os diálogos, as feições e ações das personagens com os grotescos assassinatos. Dylan (e o leitor também!) segue assim, página após página tateando no escuro, às cegas, até o extraordinário desfecho que, justamente por isso, se torna bastante original.
As imagens de Nicola Mari, que aliam o estranho e o gótico a figuras expressionistas, concretizam muito bem o caráter noturno, sombrio e macabro do texto de Baraldi. São imagens densas, de traços grossos e fortes, responsáveis por revelar o aspecto dual da existência. Uma dualidade impossível de ser dividida, dissociada que, quando assim compreendida e aceita, deixa-nos inicialmente perplexos e, ao fim, extasiados - como nosso caríssimo Dylan Dog ao final de A mão errada, quando Anita e Rita, vida e morte, horror e beleza, sombra e luz unem-se, sensual e eroticamente, na última página da história. E que história!
P. S.: Curiosidade: As personagens femininas são muito semelhantes entre si; os detalhes são o que as diferenciam umas das outras (vestes, tatuagens, corte de cabelo etc.). E, pelas poucas fotos da roteirista Barbara Baraldi que estão na internet, é provável que ela mesma tenha "emprestado" seu rosto para caracterizá-las.
P. S. 2: Toda a narrativa acontece à noite e há referências explícitas a O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde e ao escritor George Bataille. Ambos, no caso, abordam dualidades em suas obras.
terça-feira, 25 de agosto de 2020
Considerações sobre Mayombe, de Pepetela
Escrito durante o período de lutas revolucionárias, populares, que buscavam a libertação de Angola ante o jugo opressivo do colonizador português, Mayombe, do escritor angolano Pepetela (pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (1941)), é um romance moderno, áspero, crítico e carregado de lirismo. A obra, escrita enquanto seu autor participava ativamente da guerrilha angolana, registra partes daquele contexto histórico por meio da ficção e, desde sua publicação no início dos anos 1980, alçou Pepetela a um merecido reconhecimento literário, garantindo-lhe em 1997 a maior honraria da literatura de Língua portuguesa, o Prêmio Camões.

Narrado principalmente em terceira pessoa e estruturado em cinco capítulos (A missão, A base, Ondina, A surucucu e A amoreira), mais um Epílogo, trabalha a realidade de maneira ficcional ao contar sobre um grupo de guerrilheiros embrenhados na imensa floresta Mayombe, lutando por liberdade e por um mundo melhor. Uma luta mortal, árdua, vagarosa e constante numa guerra em defesa do nacional, do social e, em igual medida, do individual - já que preconceitos, ideologias referentes a tradições culturais, conflitos interiores, pessoais, também são os inimigos e, portanto, devem ser vencidos.
O espaço que predomina na narrativa é o da densa e pujante floresta Mayombe - quase uma personagem na história. É ali onde acontecem as ações da guerrilha e é ali, também, que a liberdade ansiada por todos mais se mostra. A gigantesca mata é a metáfora da Angola pretendida pela revolução: livre, forte, bela, vigorosa e mãe de todos. É o espaço que encerra e protege as personagens, os fortes guerreiros que, mesmo atravessados por subjetividades, feridos e cicatrizados por suas vivências, empenham-se na construção utópica de uma nova sociedade.
Todas as personagens, no livro, têm grande importância e é difícil destacar as principais, os protagonistas. O Comandante Sem Medo, Ondina e o Comissário Político são os que mais se aproximam desse protagonismo, mas Teoria, Muatiânvua, Lutamos, Mundo Novo dentre outros mostram perspectivas extremamente relevantes sobre os acontecimentos da história. Assumem, nesses momentos, o espaço do narrador, algo bastante moderno e peculiar em um romance com foco narrativo em 3ª pessoa.
Quanto a isso vale ressaltar que tanto Ondina quanto Sem Medo não agem como narradores durante a obra o que, numa primeira leitura seria de se estranhar. Entretanto, é importante salientar que todos que o fazem mostram-se contraditórios, inseguros e, às vezes, até mesmo hipócritas em relação a como pensam e se mostram aos demais e como pensam e são realmente. Logo, fica evidente que há aí um recurso expressivo utilizado deliberadamente pelo autor, o qual resulta, pois, no efeito de sentido de que as personalidades de ambos, Sem Medo e Ondina, já estão construídas, são sólidas e fortes, e mostram-se tais como as vemos, sem meias palavras, sinceras e verdadeiras tais como percebemos através de seus diálogos e reflexões.
Essa força e solidez na personalidade é fundamental na narrativa, principalmente no caso de Ondina que, além de revelá-la como uma pessoa dona de si mesma, uma mulher guiada por suas vontades e desejos, altera até mesmo os rumos da revolução e os destinos de alguns guerrilheiros, pois é ela quem destrói e reconstrói a (até então) frágil personalidade do Comissário Político e reforça ainda mais o Eu e as convicções do Comandante Sem Medo. Isso é bastante interessante na história, já que revela aspectos da guerra interna e subjetiva das personagens, uma guerrilha pessoal no afã de superar medos, anseios, vícios e contradições do ser humano entrincheirado dentro de si mesmo.
Vale ressaltar, ainda, a crítica aos próprios valores e diretrizes preestabelecidos por manifestos revolucionários - valores e diretrizes que, quando estagnados e não rediscutidos, não vistos e avaliados a partir de determinadas nuances e atenuantes, tornam-se dogmas e, portanto, nocivos a toda e qualquer causa comum e revolucionária e sujeitos a cair em vazios teóricos, burocráticos e metodológicos. Tornam-se, sob a ótica argumentativa da personagem Sem Medo, semelhantes ao dogmatismo religioso. Essa, em sua visão, também é uma guerra a ser vencida.
Assim, suscitando reflexões políticas, sociais, filosóficas, humanas e tecendo uma narrativa engajada, que mescla realidade e ficção, Mayombe é uma história de liberdade, luta, coragem e paixão, atravessada por cenas de ação, lirismo e emoções. E, por mais que prevaleçam as dificuldades, melancolias e tristezas de um povo cansado e oprimido, em constante luta (desigual) contra um inimigo muito mais poderoso, há um fio de esperança a entrelaçar e unir tudo e todos - tal como as lianas e cipós da imensa floresta Mayombe; há um sopro de utopia libertária a impelir as personagens em cada uma das pequenas-gigantescas vitórias dessa luta. E é isso o que importa e é por isso que a guerrilha continua, inexorável, a avançar em direção a uma Angola livre e melhor.
sábado, 6 de junho de 2020
sem título
mas por aí, a mente
divagando
vagando,
captando feito antena
anseios d'um porvir (sementes)
que à força saem voando.
ando
e vejo belas fotografias
agora de todo mundo
emolduradas por simples janelas
(elas -
olhos ternos em meio à pandemia)
que se abrem ao mais profundo
sentimento morador delas:
a Esperança.
sábado, 14 de março de 2020
1984 - Uma breve resenha
Findada a narrativa de Winston Smith (e Júlia) em 1984, de George Orwell, resta a perplexidade e a constatação da grandiosidade e profundidade do livro.
Winston transita no agora juntando estilhaços de memória, porém com a certeza de que, se reunidos e colados, dificilmente formarão um futuro diferente do que a realidade lhe impõe. Ele sabe, e nós também, que a partir da execução de qualquer ato criminoso aos olhos do Partido, o sujeito está, indubitavelmente, fadado à morte. E mesmo tendo ciência disso já nas primeiras páginas da obra, a narrativa nos arrasta para um desfecho surpreendente. Triste e surpreendente.
E, apesar do tênue fio de esperança que perpassa a trama, esperança esta depositada na força colossal, entretanto anestesiada, do povo; apesar dos tímidos sonhos que Winston e Júlia passam a tecer quando juntos; apesar de um movimento conspiratório lutando contra os dogmas do Grande Irmão; e apesar do lirismo presente na narração do dia a dia de uma mulher proleta, estendendo roupa sobre uma laje, cantarolando canções como se a realidade fosse pura e o amanhã belo, ainda assim, ao fim de tudo, é a tristeza que vence. Ela e sua amiga desesperança.
1984 é, portanto, pessimista. Isso é inquestionável. Mas como as distopias são possibilidades de se repensar o agora para garantir um futuro diferente e melhor, seria interessante considerar o casal protagonista como vela numa infindável escuridão. E que, por mais densa e negra que esta venha a ser, duas fagulhas de esperança surgiram. Talvez para mostrar a força do homem e a dificuldade que qualquer poder ditatorial encontrará para subjugá-lo completamente e de forma irreversível. Ser humano é insistir na vida; logo, sempre haverá luta e resistência.
terça-feira, 3 de março de 2020
Duas palavrinhas sobre o quadrinho Carniça, de R. Ramos e M. Bartholo

Sua brevidade, pouco menos de 30 páginas, não diminui em nada sua capacidade expressiva. Esta, que surge visualmente a partir das belas e assustadoras imagens do artista Bartholo - cujas referências criativas ecoam a obra de Portinari -, alia-se a um texto que, para além da realidade brasileira, esbarra na extraordinária literatura de Edgar Allan Poe e, com tal simbiose, narram uma história de horror calcado no cotidiano, perturbadoramente misturando os flagelos do alcoolismo, machismo, feminicídio e remorso - frios elementos do nosso dia a dia.
P. S.: O texto tem pequenas falhas de revisão que devem ser corrigidas em novas tiragens da edição. Eles estão apontados aqui: https://baboseirassubjetivas.blogspot.com/2020/03/revisao-informal-004-fevereiro-de-2020.html
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
palavras abjetas a serem EVITADAS (ou DETURPADAS) no quadriênio 2018-2022:
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
Breves considerações acerca de Procissão, de Vinicius Velo

Meados da década de 20 no sertão nordestino. A seca, os coronéis e o cangaço assolam brutalmente a terra e o povo que habita a região. Resultante deste contexto e embriagados pelo ódio, rancor e obsessão com a vingança, duas poderosas famílias aniquilam-se, geração após geração, numa rixa já secular.
Esta é a premissa de Procissão, do artista Vinicius Velo (roteiro e arte), obra em quadrinhos lançada em 2019 por meio do ProacSP - Programa de incentivo à cultura do Governo do Estado de São Paulo. Suas cerca de 100 páginas apresentam um roteiro forte, bem escrito, bastante fluido além de ótimos desenhos, com traços seguros, firmes e precisos, materializando uma trama bem construída e promissora, dinâmica - daquelas que aprisiona a atenção do leitor até a última página.
Tanto o competente texto quanto a primorosa arte são tentativas bem-sucedidas de aproximar-se da realidade, que vem mesclada ao fantástico, retratada na publicação: a dureza de uma terra embrutecida, repleta de histórias misteriosas, lar de um povo forte que teme tanto a ira de Deus quanto a maldade dos homens. A escrita é áspera, ágil e carregada de reflexões sobre a cultura singular do Nordeste. Os desenhos, por sua vez, figurativizam bela e precisamente a temática do sertão, num claro e escuro resoluto, com linhas grossas que revelam um ambiente seco e castigado, mas esperançoso, e personagens igualmente marcadas pela dureza da natureza local. A tonalidade amarelada das páginas da HQ enfatiza a força do sol abrasador daquele espaço.
Além disso, o ritmo da narrativa é outro ponto positivo de Procissão. As passagens de cena, a dinamicidade dos quadros, os movimentos das personagens e as cenas de ação - tudo perfeitamente costurado pelos textos do narrador e dos balões - revelam as claras influências da estética cinematográfica na obra, bem como na Nona arte em geral.
A história, calcada em realidades verossímeis daquele período histórico, o cangaço em oposição ao poder dos coronéis, é enriquecida pelo fantástico e pela religião de um povo tolhido entre a tirania e o medo, a fé na mudança e a força insurgente dos cangaceiros: ideologias antagônicas, visões distintas de mundo que aturdem e mexem com a vida e as emoções do sertanejo.
Vinicius Velo mostra, com Procissão, o quanto é interessante a abordagem de temas brasileiros associados criativamente com a cultura pop em geral. O leitor se reconhece na história e, por isso, pode vir a problematizá-la e relacioná-la com suas vivências - o que eleva a arte sequencial a um patamar acima do mero entretenimento. É Arte mesmo! E é grande justamente por isso.
Procissão é, por fim, mais uma prova de que a Nona arte brasileira está cada vez mais inteligente, criativa, rica e ousada. E que, mesmo à margem das grandes editoras, a produção quadrinhística independente e de qualidade apenas se fortalece com o passar do tempo, solidificando a tríade mais que necessária na construção de um mercado artístico de quadrinhos no Brasil: temática identificada com nossas realidades culturais, qualidade (de criação, acabamento, distribuição etc.) e preço acessível às massas. Que venham mais obras assim!!

P. S.: Texto em comemoração ao Dia do Quadrinho Nacional, 30 de janeiro.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2020
Uma leitura da capa de Dylan Dog, O caminho da vida
São os pequenos detalhes da imagem, colocados ali de maneira rigorosa e deliberada, que nos leva a considerá-la uma peça singular. O primeiro deles é a espaço-temporalidade da cena: temos noção temporal, a partir do caminhar regular e das mudanças físicas da personagem, mas desconhecemos o espaço, o lugar. Relacionando isso com a nebulosidade difusa que engloba a ilustração, torna-se impossível não fazer uma analogia com a existência, pois conhecemos precisamente seus ciclos, no entanto desconhecemos seus extremos, suas pontas: de onde viemos e para onde vamos depois daqui.
A precisão ascendente da passagem do tempo, seu eterno avançar e sua irreversibilidade são o segundo detalhe. A cada três degraus, um salto temporal, uma nova fase na vida do homem: da infância à adolescência; desta para a fase adulta; depois para a meia-idade e, finalmente, em direção à velhice. Um caminhar constante que finda apenas na inevitabilidade da morte. Tem-se, assim, o ciclo completo.
O terceiro pormenor concentra-se nas feições do rosto de Dylan Dog: a curiosidade vivaz infantil; a imprescindível revolta indiferente da juventude; a tenacidade e perseverança ao fitar um horizonte de expectativas pra vida na fase adulta; a frustração e o cansaço da meia-idade; e a melancolia e espera apática na velhice. Cada nova estação da vida bastante próxima das anteriores, tornando nostálgico o viver.
A quarta minúcia da cena encontra-se nos gestos inerentes às referidas etapas da vida. Neles vemos os impulso e desejo da criança; as mãos nos bolsos simbolizando a aparente indiferença do adolescente; os passos firmes e resolutos do adulto; os ombros arqueados e cansados e a face no chão da meia-idade; e, por fim, o arrastar-se e a estaticidade da fase senil. É deste vagaroso, semi-imóvel arrastar-se que chegamos ao último detalhe que torna a leitura de tal capa tão interessante: a ação de caminhar.
Todas as fases vividas retratadas na imagem enfatizam um constante caminhar em direção ao porvir. Apenas a figura já velha de Dylan Dog não caminha mais, apenas espera - na certeza da sua impossibilidade de avançar. O medo, aqui, torna-se evidente, pois o próximo passo, a morte, é o derradeiro; é o fim do caminho da vida. Vontade, coragem e anseio são substituídos definitivamente por seus opostos: agora é esperar rememorando o que foi ter vivido.
Vida e morte, juventude e velhice, mobilidade e estaticidade, agir e hesitar são algumas das palavras que, em oposição de sentidos, fundamentam e estruturam os vários significados e possibilidades de leitura que emanam da arte desta capa. Significados estes que irão se entrelaçar de maneira perfeita ao universo do Investigador do Pesadelo, Dylan Dog.
P. S.: A história O caminho da vida foi publicada na Dylan Dog Série Clássica n° 13, de janeiro de 2020, pela Editora Mythos.
domingo, 26 de janeiro de 2020
Exclamações e mais exclamações: a Mythos e os gibis Bonelli no Brasil
Um rápido e simples exemplo segue: NÃO. NÃO... NÃO! NÃO? "NÃO" - cada um desses usos escritos da palavra NÃO carrega, juntamente com a pontuação que a acompanha, efeitos de sentido diferentes (afirmação, hesitação, raiva, dúvida, um discurso direto, uma ironia ou seja lá o que o contexto situacional queira comunicar); não são, obviamente, a mesma coisa. Justamente por isso é natural que profissionais que realizam traduções estejam acompanhados de outros colaboradores que fazem a adequação do texto ao nosso idioma, já que os efeitos de sentido presentes no idioma de origem devem estar também presentes e fazer sentido na nossa língua - tudo o mais próximo possível da obra original e da interação comunicativa pretendida inicialmente.
Assim como ocorre com variadas línguas, entre o italiano e o nosso português brasileiro há similaridades e divergências, e isso em todos os níveis (fonético, morfológico, sintático, semântico etc.), mas nos perece que, em relação aos sinais de pontuação mais comuns encontrados nos quadrinhos italianos da editora Sergio Bonelli (interrogação, vírgula, reticências, exclamação e ponto), publicados no Brasil principalmente pela Mythos Editora, há muito mais convergências que diferenças, ou seja, os sentidos representados pela escrita destes são bastante semelhantes também no nosso idioma pátrio: o ponto de interrogação marca uma pergunta direta (pois há indiretas também); o ponto final representa uma pausa máxima ao fim de uma declaração; as reticências marcam a interrupção da frase, sua suspensão; etc. No entanto causa estranheza o uso singular do ponto de exclamação feito pela Mythos e, consequentemente, a sua falta de correspondência com os sentidos pretendidos, bem como com as normas já estratificadas do nosso português, algo predominante e preocupante em algumas de suas publicações.
O ponto de exclamação, convém ressaltar, é responsável por buscar transmitir, na escrita, emoções: tensão, medo, raiva, espanto, exaltação no tom de voz entre outras - é isso que se aprende desde tenra idade escolar. Não obstante tais palavras, provindas do senso comum, recorremos ao Dicionário Escolar da Academia Brasileira de Letras, de 2011, que, na página 1005, diz que ele é um "sinal (!) usado para marcar o fim de uma frase exclamativa." Por exclamação, entende-se, como definido pelo mesmo dicionário, desta vez na página 559, "(Gram.) Pontuação usada numa frase escrita para expressar alegria, surpresa, raiva etc." Para findar está rápida explanação sobre o ponto de exclamação parafraseamos as palavras do filólogo, gramático e professor Celso Cunha que, na sua Gramática do Português Contemporâneo, pág. 431, corrobora o que foi dito aqui, apontando as VARIEDADES de seu valor pausal para sugerir a mímica EMOCIONAL - seja de espanto, surpresa, alegria, entusiasmo, de cólera, dor, súplica e muitas outras, além de acompanhar interjeições ou termos semelhantes.
Definido e entendido isso, o que observamos como singular regra nos quadrinhos bonellianos publicados pela Mythos é a errônea substituição do ponto final pelo ponto de exclamação ao fim de toda e qualquer sentença declarativa, negativa ou afirmativa, estando ela ou não expressando quaisquer emoções das personagens. Lógico que não pesquisamos todos os quadrinhos italianos que a referida editora traz ao Brasil, mas notamos que isso é a regra nas publicações de, pelo menos, três personagens: o caubói Tex Willer, o detetive do insólito Dylan Dog e o heroico Dragonero - personagens com uma grande soma de títulos lançados em bancas de jornais.
Tex; Tex Willer; Tex Platinum; Maxi Tex; Tex Gigante; Dylan Dog Série Clássica; Dylan Dog Nova Série; Dragonero Especial e Dragonero bimestral. Nove títulos regulares que dão à exclamação as mesmas características do ponto (final), desrespeitando não apenas regras convencionais da ortografia brasileira, mas muitas vezes deturpando variados efeitos de sentido contidos nos referidos sinais de pontuação e deixando à margem o fato de que cada qual tem seus próprios usos e especificidades. A bem da verdade, o ponto, salvo quando empregado pelo discurso indireto do narrador, nunca aparece nos diálogos das personagens - ele foi deliberadamente banido de tais revistas!
Basta, pois, abrir tais publicações, em páginas aleatórias mesmo, e constatar: TODO FINAL DE FRASE DECLARATIVA É MARCADO COM UM PONTO DE EXCLAMAÇÃO. As personagens podem estar conversando trivialmente, cochichando, gritando, enfatizando algo, tomadas por emoções... Pouco importa o contexto, não há distinção para o emprego do referido sinal gráfico! Abaixo, segue uma simples amostra com as páginas (que poderiam ser quaisquer outras) que exemplificam a presente discussão.
Pág. 61, de Tex Willer 11;
Pág. 205, de Maxi Tex 2;
Pág. 206, de Dragonero Especial;
Pág. 35, de Dragonero 1 (bimestral);
Págs. 23 e 29, de Tex - Graphic Novel 2;
Pág. 29, de Dylan Dog Série Clássica 12.
Interessante e importante, além de positivo, ressaltar que em Editoriais, Extras e páginas que apresentam notícias jornalísticas, por exemplo, não há este erro. Um sinal claro e evidente de que nem todas as sentenças ali constantes expressam emoções; daí ser impossível, grosseiro mesmo, mantê-las repletas de exclamações! Vejam (e leiam) os Editoriais de Tex 600, de Tex Gigante 34, de Dylan Dog Nova Série 6, os Extras escritos por Roberto Recchioni e Angelo Stano na Dylan Dog Série Clássica 5 e a página 19 de Dylan Dog Série Clássica 12 (reproduzida abaixo), na qual consta uma notícia de jornal sobre Johnny Freak. Respeita-se o original italiano, a pontuação adequada do português e, obviamente, os efeitos semânticos, de sentido, sugeridos pelos textos.
Página 19 de DYD - Série Clássica 12
Uma coisa, de fato, podemos depreender: o uso inadequado, abusivo e singular do ponto de exclamação apontado aqui é uma atitude deliberada; é uma decisão, por mais errônea e estranha que seja, da equipe editorial da Mythos Editora. O motivo, não sabemos, mas podemos confirmar isso com o trecho original do roteiro de Gigi Simeoni para a história Na fumaça da batalha, presente no Editorial de Dylan Dog Nova Série 7. Tal trecho representa a página 13 da edição 6 da mesma série e a partir dele podemos estabelecer que a Mythos substitui todo ponto final por exclamações, criando, com isso, uma padronização absurda e desnecessária do conteúdo original. Vale ressaltar que a página original dessa história, a número 9 de DYD 343, seguiu exatamente o que fora colocado por Simeoni em seu roteiro. Abaixo, as três páginas.
O roteiro de G. Simeoni presente no Editorial de DYD - Nova Série 7
A página 13 com a tradução e adaptação da Mythos, presente em DYD - Nova Série 6
Se tal atitude é uma escolha da editora, como nos parece, é uma escolha errada e, portanto, deve ser repensada, pois o ideal é aproximar-se o máximo possível da obra de arte originalmente concebida, além do fato já mencionado de que cada sinal de pontuação tem suas particularidades semânticas e de uso. A página 15 de DYD - Nova Série 2 é mais um exemplo dessa infeliz e errônea escolha adotada pela Mythos Editora. Segue, abaixo, juntamente com ela, a sua correspondente italiana.
Página 23, de DYD 1 (Record)
Página 65, de DYD, em Fumetti - O melhor dos quadrinhos italianos (Globo)
Página 16, de DYD 3 - Mater Morbi (Lorentz)
É provável que tal atitude, esta singular, inadequada e imprecisa uniformização do texto nos balões, deva-se ao fato de precisar agilizar o trabalho na Redação (única explicação razoável!), já que o volume de lançamentos aumenta cada vez mais. Mas, a julgar pelos valores cobrados por tais produtos, esse é um ERRO imperdoável e que atenta contra os leitores e, por extensão, os autores de tais criações. Esperemos, pois, um amadurecimento editorial de uma empresa gigante no setor e há décadas consolidada no mercado de quadrinhos brasileiro. Esperemos que, doravante, tal erro possa ser corrigido e não se torne a única regra para a publicação de fumetti pela Mythos Editora.
P. S.: Vale destacar que em todas as histórias da Fumetti - O melhor dos quadrinhos italianos, da Globo, a pontuação segue as regras convencionais e o original - inclusive na história de Tex.
P. S. 2: Interessante observar que a coleção Gold de Tex, publicada pela editora Salvat, segue a mesmíssima uniformização do texto. Isso talvez se deva ao fato da equipe editorial responsável pelas histórias ser a mesma da redação da Mythos. Abaixo, um exemplo a partir da página 61 do primeiro número de Tex Gold.
domingo, 5 de janeiro de 2020
Quadrinhos E política: porque não há texto sem contexto!

Toda criação artística, por mais fantasiosa, insólita que possa parecer, está fundamentada direta ou indiretamente na nossa realidade, no nosso mundo real. Isso quer dizer que as artes em geral, e antes delas os artistas, nutrem-se deste para conceber seus mundos. Portanto, os mundos ficcionais são nada mais que aspirações, projeções ou, até mesmo, rejeições das nossas realidades.
Desde Angelo Agostini com As aventuras de Nhô-Quim, ou Impressões de uma viagem à Corte, de 1869, passando por Richard Outcault e seu Menino Amarelo, de meados do século XIX, bem como pelo escapismo proporcionado pelas histórias dos heróis e super-heróis do primeira metade do século XX, as HQs pensantes surgidas a partir da década de 50, a latina e mundialmente conhecida Mafalda, dos 60, as criações de Will Eisner, Frank Miller, Alan Moore, Larte, Angeli nos anos 70 e 80 (e ainda hoje!), o terrorismo e as aflições de refugiados e sobreviventes de guerras abordados nos quadrinhos dos anos 90 e 2000... Tudo criação indiscutivelmente marcadas e pautadas ideológica e politicamente. E como negar, esconder ou querer deturpar ou destruir isso?
Como não enxergar, ou querer apagar o fato de que as HQs Disney disseminam, ainda hoje, o modo de viver americano, seu individualismo e seu ideal capitalista? Ou que presentes nas aventuras do caubói Tex Willer, o mocinho dos gibis italianos e o queridinho de um público bastante conservador, estão a defesa das minorias negra e indígena, o apelo à justiça e à lei, o combate à xenofobia e a exaltação do viver pacífico entre índios, americanos, mexicanos...? Uma avalanche de ideias democráticas, progressistas e, até mesmo, rotuladas como pertencentes à esquerda política!
Como querer não abordar fatos como a exaltação da diversidade, vista na junção de personagens tão díspares e heterogêneos (étnica, racial e culturalmente) colocados pela fantasia de um fumetti como Dragonero, onde, na tentativa (utópica?) de mostrar que a união de elementos diferentes entre si talvez seja o caminho mais apropriado em direção a um mundo melhor e mais justo? Como não poder discutir o fato de que pouco conhecemos das produções quadrinhísticas russas ou alemãs, já que ainda somos colônia cultural dos EUA - o que, por si só, depende de posicionamentos ideológicos e políticos? Resta, pois, ignorar que nos comics de super-heróis, estes lutam pela paz mundial, mas que a paz almejada é baseada em concepções ocidentais? Então é fechar os olhos às charges e tiras que denunciam, dia a dia, os mandos e desmandos dos governos estabelecidos pelo mundo?
Em tempos como os de hoje, em que as bandeiras da intolerância, mediocridade, preconceito, irracionalidade e burrice (travestida de ingenuidade) são erguidas, resta mesmo fechar os olhos da razão e do senso de criticidade para o fato de que os quadrinhos, bem como qualquer criação artística e cultural, são indagações e também respostas às discussões que ocorrem em nossas sociedades. Resta-nos esquecer que tudo é atravessado ideologicamente e que em toda concepção ideológica há ideais políticos (inclusivos, excludentes, anárquicos, destrutivos etc.) e que, portanto, nada é isento ou neutro politicamente - como querem e bradam alguns.
Querem, pois, que não vejamos que, por trás desses posicionamentos de "Quadrinhos sem política", "Arte apolítica" etc., agentes sabem exatamente sobre o que foi apontado até aqui e o quanto isso é perigoso - pensar, pra eles, é um ato perigoso - e, justamente por isso argumentam, falaciosamente, o contrário. Estes, sem dúvida, agem assim pois defendem ideologias e políticas conservadoras e retrógradas, até mesmo excludentes e/ou autoritárias - e são apenas ESSAS que, hipocritamente, eles querem ver em seus quadrinhos! Tudo o mais é ameaça: nunca deve ser exposto, avaliado, discutido; mas tão somente deturpado e, sumariamente, destruído.
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
Hino à Liberdade
uns e outros? não. todos
lutam (e matam) por ela
ante e antes de toda sombra
liberdade!
importa, pois, é tê-la
vivê-la
recuperá-la - se perdida ou
esquecida
liberdade!
uns mais outros (todos) gritam...
levando sua chama
a todo e qualquer breu
liberdade!
imenso fogaréu a aquecer
vagos e escuros corações
reféns de injustiças e
exigentes dela pra ser e lutar
P. S. : A data é especial: a justa soltura do ex-presidente Lula!
segunda-feira, 14 de outubro de 2019
terça-feira, 1 de outubro de 2019
Uma rara e vigorosa flor na Nona Arte
Da fictícia Garden City, um jardim-metrópole que enfeita algum canto dos EUA e cujas ruas recebem bonitos nomes de espécies de flores, surge Júlia Kendall, a crimonóloga que, juntamente com o Departamento de Polícia da cidade, trabalha arduamente na investigação e solução dos variados tipos de crimes que acometem a vida dos cidadãos.
Saída da fértil imaginação do italiano Giancarlo Berardi (1949), lá pelos idos de 1998, Júlia - além de atuar junto às investigações criminais - leciona numa importante Universidade da cidade a disciplina de Criminologia. É solteira por opção, calculista, racional, educada e amável. Forte e decidida, madura e sensível, é extremamente humana, ética e profissional num mundo cada vez mais duro, frio e violento.
De compleição frágil - mas de caráter determinado -, resistente ao uso de armas (prefere um rijo e pesado cinzeiro de alabastro na bolsa), luta, insiste e resiste num cenário quadrinhístico dominado por personagens do sexo masculino. É, pois, uma vigorosa e rara flor de resistência em meio à dureza e aspereza da sociedade.
Suas histórias são densas, inteligentes e intrincadas; mas líricas, críticas e bastante sensíveis aos diversos temas que permeiam nossa humanidade e a nossa vida social. Pertencentes ao gênero policial, são repletas de crimes, investigações, ponderações psicológicas, sociais, filosóficas etc. Nelas, conflitos pessoais, dramas diários, pitadas de romance e pilhérias coadunam-se a tudo isso para a genialidade e grandeza das tramas.
Depois de duas décadas nas bancas italianas, sob os auspícios da Sergio Bonelli Editore, e no cenário de quadrinhos brasileiro há mais de dez anos, Júlia difere de qualquer outra publicação do mainstream publicada periodicamente por aqui. Isso porque em J. Kendall - Aventuras de uma criminóloga Júlia é realmente a protagonista das histórias e, mesmo estando cercada de homens, ela transita com autonomia e força, se impondo num universo quase sempre bruto, insensível, machista, patriarcal. Nada submissa, diríamos que - para usar um termo em voga no momento - Júlia é empoderada e, talvez, até mesmo feminista, pois quer respeito e os mesmos direitos que apenas os homens parecem possuir, mas que, em sociedades progressistas e democráticas, são de todos.
Atingindo a expressiva marca de 142 edições publicadas pela Editora Mythos - entre publicações mensais, posteriormente bimestrais e alguns especiais, acompanhando os altos e baixos de um mercado quadrinhístico que busca incessantemente consolidar-se -, e apesar de reconhecidamente vir a ser considerado um gibi de grande qualidade, vencendo, inclusive, o HQMIX de 2010 na categoria de Publicação de Aventura/Terror/Ficção, a criação de G. Berardi ainda é pouco conhecida/divulgada/discutida entre os leitores de HQs - principalmente entre os mais jovens.
E num universo de revistas em quadrinhos com qualidade duvidosa, que perpetuam quase doentiamente estereótipos, e cujo predomínio se dá pela presença massiva e ostensiva de personagens do sexo masculino, e héteros, J. Kendall - Aventuras de uma criminóloga é uma bem-vinda ilha de inteligência e beleza, um verdadeiro primor dos quadrinhos. Ou, para ficarmos na ambientação de Garden City: uma forte e rara flor no âmbito da Nona Arte.
P. S.: As capas das publicações de Júlia são sempre impressionantes. A genialidade criativa é do artista Cristiano Spadoni.
P. S. 2: Como é comum nas criações da Bonelli, Júlia tem as feições de uma personalidade americana. No caso, da atriz Audrey Hepburn.
segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Uma discussão necessária sobre o verdadeiro horror em Dylan Dog
No entanto, e talvez por ser criado a partir de um cenário global que via a mulher como um ser frágil e suscetível aos desejos dos homens, toda essa luz faz projetar uma densa sombra que muitos parecem não ver ou simplesmente querem ignorar e não discutir, que é o fato de Dylan Dog assediar mulheres e ser, muitas vezes, machista em suas tramas. E não apenas ele, mas Groucho - seu singular assistente e amigo - também.
O assunto é polêmico e, para muitos, controverso. Mas é uma realidade! E embora se diga, ingenuamente, que Dylan se apaixona facilmente pelas várias mulheres que transitam pelas suas páginas, ao lermos com um pouco mais de atenção podemos notar que isso não passa de um eufemismo, uma tentativa de suavizar e talvez mascarar a dura verdade: o assédio, o machismo e a falta de ética profissional dele para com aquelas que buscam sua ajuda.
Óbvio que em algumas histórias do Old boy, como ele é chamado, isso aparece de modo mais explícito, mais incisivo até. Assim, na primeira edição da personagem, O despertar dos mortos-vivos (n° 1, editora Record, 1991) chega a causar asco a postura de DyD, e Groucho, diante da mulher que busca por seus serviços. As páginas 22 e 23 expõem, textual e visualmente, o que se tornaria uma constante na série da personagem:
DyD: [...] "Amava seu marido?"
Ela: "Não." [...] "Me perguntou isso porque pensa que inventei tudo e que se trata de um homicídio comum, não é?"
DyD: "Não. Perguntei isso porque jamais poderia cortejar uma viúva inconsolável."
Ela: "??"
DyD: [Se aproximando dela] "Em suma, você me agrada muito. Não seja tímida, pode dizer obrigada."
Ela: "Obri... obrigada?!"
DyD: "Esclarecido este ponto fundamental, vamos ao trabalho. Como se diz, primeiro o prazer e depois o dever."
Para a presente discussão foram lidas as seguintes edições: a acima (n° 1, da Record); as três publicadas pela Editora Lorentz em 2017; os dez números publicados como Série Clássica pela Mythos Editora; e os seis números da Nova Série - também da Mythos. Um total de vinte (20) histórias e uma estarrecedora sucessão de "cantadas", assédio, machismo, insinuações e ações nada éticas e profissionais que causam estranhamento, desconforto e ojeriza.
Horror paradise, a primeira publicação da Mythos Editora, que marca o retorno periódico das publicações de DyD às bancas brasileiras e que inicia o que se denominou de Série Clássica - com histórias mais antigas do Detetive do pesadelo - é um pouco mais sutil, quase imperceptível, quanto ao machismo da personagem: ele recebe uma fita VHS e nela reconhece, pelas nádegas (página 63), sua cliente: "Hmm... parece mesmo Vanessa!"
O próprio fato de serem mulheres, predominantemente, a precisarem de ajuda e apoio na grande maioria das histórias de Dylan Dog já é, em si, um motivo de preocupação. É como se apenas pessoas do sexo feminino fossem fracas e necessitadas; enquanto que apenas homens, e héteros, pudessem ajudá-las. Há nitidamente um esteriótipo, fruto de sociedades desiguais e patriarcais, que se sustenta na inferiorização da mulher - o que não cabe mais nos dias de hoje!
E isso muitas vezes é tão "natural", tão comum num tipo de sociedade como a nossa, que a própria Mythos Editora - no texto de apresentação da personagem aos leitores - fez questão de estampar na contracapa de suas publicações da Série Clássica os seguintes dizeres:
[...] "E SE VOCÊ É UMA BELA GAROTA, MELHOR AINDA: DYLAN DOG SE APAIXONA POR TODAS AS CLIENTES."
Não é que ele se "apaixona". Antes, porém, é o fato dele ser homem e, enquanto tal, se considerar, muitas vezes, acima, superior às suas clientes. Talvez apenas o macho, primitivo, buscando saciar suas irrefreáveis vontades diante da "presa" submissa e inferior. Este, ao leitor crítico e atento, parece ser o verdadeiro horror em Dylan Dog.
Outro ponto preocupante, e que esfarela o argumento ingênuo do "apaixonado" DyD é o fato de que, na maioria das vezes, suas vítimas (ou clientes) estarem sempre em situações de fragilidade e suscetibilidade emocional. Seja pela perda de alguém, ou por alguma perturbação mental, ou mesmo alguma situação de injustiça profissional ou social. Não importa, Dylan sempre contorna tais fragilidades, as conquista e se relaciona sexualmente com suas clientes (vítimas, nesses casos).
Isso é bastante explícito na edição 3 da Série Clássica (A rainha das trevas) e no número 6 da Nova Série (Na fumaça da batalha), também publicada pela Mythos - com histórias mais atuais. Em ambos os casos nos é mostrado mães extremamente fragilizadas emocionalmente em relação aos problemas com seus filhos e, na tentativa de resolvê-los, recorrem ao Investigador do pesadelo e este, mais uma vez, se usa de sua posição e se satisfaz sexualmente com ambas; ou, como dizem, "se apaixona por elas".
Inquieta também observar que tais relações se dão tanto com mulheres mais maduras, como nos casos já citados, quanto com jovens recém-saídas da adolescência - como visto em O marca vermelha (Série Clássica, n° 2, Mythos). É espantoso, mas o raciocínio é bastante válido: toda fêmea, apenas por ser fêmea, perece ser vista como objeto de satisfação sexual pela personagem.
Essa visão de presa, de objetificação e saciação sexual é brilhante e metaforicamente abordada em O coração dos homens, Nova Série n° 5 (Mythos Editora). É uma viagem ao eu de Dylan Dog e a sua relação com as mulheres. Um eu egoísta e monstruoso que ofusca o seu lado bom.
Com roteiro de Roberto Recchioni e a "estranha" e instigante arte de Piero Dall'agnol, vemos um Dylan confrontando-se, e sendo derrotado, pelo seu eu interior: um eu doente que violenta, aprisiona e se alimenta do coração feminino; que agride, que fere e que devora a mulher. Uma edição corajosa e imprescindível por expor, mesmo que numa metáfora, o modo, inaceitável para o nosso presente histórico, como DyD vê o sexo oposto: um mero objeto de prazer sexual.
Esperamos que esta Nova Série venha para, além de inserir nosso Old boy à modernidade e garantir maior diversidade ao universo fictício da personagem, acabar completamente com tais atitudes do detetive. Que Dylan Dog possa se regenerar desta doença e enfim amadurecer, vencendo este lado ruim que teima em sobressair-se em suas aventuras. E que esta sombra, o verdadeiro e real horror presente nos quadrinhos dele, não venha a apagar a genialidade criativa da ímpar criação de Tiziano Sclavi.
P. S.: Dylan também se relaciona com as mulheres de forma lírica e bonita, como na edição 7 da Série Clássica - Alguém chama do espaço (Mythos Editora). Mas, depois das vinte histórias lidas, isso parece ser exceção.
P. S. 2: Lemos e colecionamos Dylan Dog! Mas não temos o direito de ignorar essas atitudes execráveis da personagem. E, justamente por sermos leitores de DyD, temos o dever de apontar e discutir o assunto, desejando que isso mude!
segunda-feira, 15 de julho de 2019
segunda-feira, 1 de julho de 2019
Angola Janga: um quadrinho didático, histórico e de resistência

Escrita e desenhada por Marcelo D' Salete e merecidamente vencedora de diversas premiações, é um quadrinho que apresenta uma das infinitas histórias acerca do maior quilombo em terras brasileiras, Palmares - e, igualmente, o maior e mais estruturado ambiente de resistência de negros escravizados do Brasil colonial.
Suas centenas de páginas, em preto e branco, são repletas de belíssimas e cuidadosas ilustrações, de traço fino e bastante esmerado até mesmo nos pequenos detalhes. Crueza e lirismo se materializam simultaneamente nos desenhos, enquanto estes encadeiam-se numa narrativa vigorosa que alterna entre o presente e o passado das suas personagens. Há, na mesma medida, força e dinamismo nas cenas, e, inclusive, na confecção dos cenários que ora nos mostram a vastidão e a vivacidade das matas e florestas, ora nos revelam o início das vilas e do frio sistema industrial dos engenhos.
A capa de Angola Janga figurativiza bem o seu conteúdo: enfatiza não as personagens e suas lutas, antes, no entanto, a força, a existência e a resistência de Palmares - esta sim a personagem protagonista da obra. Incrustada nela, joias como as figuras de Zumbi, Ganga Zumba, Acotirene, Soares fazem o quilombo Palmares brilhar e significar ainda mais. Apesar de conflitos internos na sua organização, este mostra-se bem estruturado e organizado para a resistência, luta e subsistência dos negros. É, ainda, a esperança e um paraíso ante o inferno imposto pela escravidão e matança perpetrados pela Coroa portuguesa, pelos senhores de engenho, pelos capitães do mato, pelos religiosos, pelos bandeirantes - todos demônios insaciáveis.
Referente ao trabalho com a linguagem quadrinhística, é interessante observar que esta é usada com muita propriedade pelo autor, o que é visível no ritmo imposto pelas sequências e pelos diferenciados tamanhos e formatos dos quadros, pelos desfechos dos capítulos, em razão da plasticidade e do uso das onomatopeias, bem como em relação ao requadro levemente diferenciado indicativo da alternância do tempo narrativo. O espaço geralmente empregado pelo narrador é usado como continuação do discurso direto das personagens, o que é um diferencial no uso do recurso e na passagem das cenas. No mais, apenas o balão, nos momentos de gritos, poderia ser explorado de maneira mais dinâmica, mas o mesmo efeito de sentido é obtido com a alteração da fonte do texto.
Coadunado ao brilhantismo estético da bela edição, é importante ressaltar seu caráter didático e histórico. É uma verdadeira e bem dada aula introdutória sobre o que foi o quilombo dos Palmares, sobre o início da escravização e exportação de povos negros, como a Colônia foi edificada às custas da vida de índios e escravizados, como agiam os senhores de engenho, a Igreja, os políticos daquele período, como o negro era objetificado, coisificado, como eram os cenários, as vestimentas, o linguajar, os fazeres etc. dos sujeitos inseridos naquele contexto.
Paralelo a esse didatismo inerente à HQ, há a luta por ressignificar a figura e a história do negro no Brasil. É a História sendo contada não mais pelo europeu colonizador e escravista, mas pelo escravizado - porém não aquele que apenas apanhou e trabalhou na fundação do país, mas sim aquele que resistiu, lutou pela sobrevivência dos seus, guerreou e matou por liberdade, por sua cultura e modo de existir. E que, poucas mas significativas vezes, se fortaleceu e venceu.
É um outro viés narrativo, outro olhar - não cabisbaixo, passivo, "do escravo" amansado e domesticado, mas um olhar furioso de quem foi privado do direito de ser humano, um olhar que resiste, luta e anseia por liberdade e paz. São olhos que revelam astúcia, arte e inteligência em fortificar-se, estruturar-se, defender-se e atacar o inimigo. São olhos onde faíscam uma excelência e um desejo de autogovernar-se.
Dividida em 11 capítulos, cada qual com um texto histórico e contextualizador de abertura, chama a atenção, principalmente: Os selvagens; Encontros; O abraço; e Passos na noite. O primeiro por nos fazer refletir sobre quem realmente eram os selvagens: o nativo, os negros ou os responsáveis pelo seu quase extermínio? O segundo por mostrar um pouco mais detidamente o dia a dia num mocambo. O outro por ser o clímax da narrativa, mostrando a captura do líder Zumbi; e Passos na noite, o último, por amarrar toda a história e estabelecer um importante diálogo entre a nossa sociedade, hoje, e a realidade de resistência suscitada pelas experiências de Palmares. Todos extremamente ricos em lirismo, significados, sugestividade e expressividade. Uma introdução rápida e extras, como notas e um glossário, complementam a riqueza da obra.
Publicada no ano de 2017, Angola Janga - Uma história de Palmares venceu os principais prêmios para o seu segmento: o Jabuti, o HQMIX e o Grampo (todos em 2018). Didática, de luta e de resistência, constitui-se como marco para a cena quadrinhística brasileira e, principalmente, para a comunidade negra em geral. É, pois, uma bandeira crítica de informação, ressignificação e conscientização do que foi o quilombo de Palmares.
P. S. : Angola Janga foi selecionada para ser distribuída às escolas, em 2018, por meio do Programa Nacional do Livro Didático Literário (PNLD Literário).



































