quarta-feira, 22 de maio de 2019

Da necessidade de se tratar como Arte a 9ª Arte!

A duras penas, numa batalha que atravessou o século XX, os quadrinhos se consolidaram, entre os críticos e a sociedade em geral, como a 9ª Arte. Depois de décadas enfrentando preconceitos de toda ordem, sendo marginalizados e apartados do mainstream artístico-cultural, enfim as histórias em quadrinhos tomaram definitivamente os museus, as grandes exposições, programas de rádio e TV, as feiras culturais e literárias, as premiações e os eventos relacionados ao mercado editorial do país.

No entanto, muitas editoras parecem não reconhecer que, enquanto Arte, as HQs devem, obrigatoriamente, receber um tratamento de Arte - o que significa, no mínimo, uma produção editorial com acabamento de qualidade, isto é: atenciosas tradução e adaptação, passando por uma cuidadosa impressão e, principalmente, por uma REVISÃO competente, esmerada e profissional do produto a ser lançado.

Tal como a literatura, a música, o cinema, o teatro etc. as narrativas gráficas, ou simplesmente os gibis, além de merecedoras, exigem um tratamento à altura da conquista de seu status de Arte. Dizemos isso porque, mês a mês, uma enxurrada de publicações tomam as bancas de jornais, livrarias e lojas do Brasil - são revistas, encadernados, graphic novels lançadas num ritmo intenso, frenético, industrial. Um ritmo que, apesar dos esforços de grande parte dos profissionais e dos editores, não se reflete, na maioria das vezes, na qualidade editorial do produto final que chega às mãos dos leitores.

Isso, além de inadmissível, atenta contra uma estética que, até o presente momento, ocupa um espaço gigantesco no MIS (Museu da Imagem e do Som) com a megaexposição Quadrinhos - um dos maiores feitos em relação às narrativas sequenciais em terras brasileiras -, além de ganhar espaço em um dos mais importantes programas sobre arte da TV Cultura, o Metrópolis, com indicações de quadrinhos para serem conhecidos pelo público.

Assim, após a desagradável e vexaminosa polêmica envolvendo a editora Panini e a republicação da obra Sandman, do escritor Neil Gaiman (em pleno ano 2019 e em comemoração aos trinta anos dessa criação singular no universo quadrinhístico), lemos, aleatoriamente, 20 títulos - os mais variados possíveis em suas temáticas: bang-bang, super-heróis, infantil, fantasia, ficção científica, terror e horror - das principais editoras de HQs do país: Panini, Culturama, Mythos, JBC e Pipoca e Nanquim,  englobando revistas mensais simples (encontradas em bancas de jornais), encadernados (edições com um acabamento mais rico) e edições consideradas de luxo (com capa dura e voltadas às livrarias).

Desse universo de 20 publicações lidas, todas recentes, chegamos a um resultado preocupante: 16 títulos (80% do total!) apresentam problemas quanto à revisão! Problemas esses GROSSEIROS, que seriam evitados por uma última leitura atenta do texto final. Além disso, dentre as editoras que publicaram tais quadrinhos, com exceção da JBC, todas entregaram um produto final com a qualidade editorial comprometida - o que é inadmissível, tendo em vista o alto preço praticado pelo mercado atual do segmento.

As cinco editoras responsáveis pelas publicações são: Panini (com seis HQs lidas), Mythos (com dez edições na lista), Culturama (com dois quadrinhos lidos), JBC (com um produto) e Pipoca e Nanquim (também com um produto). Quanto aos títulos, com a respectiva data de lançamento, editora e ordem de leitura, seguem na lista abaixo:

1- Pateta n° 0 (2019, Culturama - SEM PROBLEMAS);

2- Dylan Dog - Nova Série n° 4 (2019, Mythos);

3- O Velho Logan n° 32 (2019, Panini - SEM PROBLEMAS);

4- O Velho Logan n° 33 (2019, Panini);

5- Tex Willer n° 1 (2019, Mythos);

6- Tex Willer n° 2 (2019, Mythos);

7- Dylan Dog - Nova Série n° 1 (2018, Mythos - SEM PROBLEMAS);

8- Dylan Dog - Nova Série n° 2 (2019, Mythos);

9- Noites de Trevas: Metal n°1 (2018, Panini);

10- Dragonero n° 1 (2019, Mythos);

11- Dylan Dog - Nova Série n° 3 (2019, Mythos);

12- Batman: Cavaleiro Branco n° 7 (2019, Panini);

13- Tex Platinum n° 16 (2018, Mythos);

14- Eight - Forasteiro (2015, Panini com a Stout Club);

15- Heavy Metal - Black & White n° 1 (2019, Mythos);

16- Tex - Graphic Novel n° 1 (2016, Mythos);

17- Nijigahara Holograph - As ilusões de Inio Asano (2016, JBC - SEM PROBLEMAS);

18- Pateta n° 1 (2019, Culturama);

19- Marada - A Mulher-Lobo (2018, Pipoca e Nanquim); e

20- O retorno de Wolverine n° 1 (2019, Panini).

De acordo com a lista acima, temos: 2 quadrinhos da editora Culturama; 10 títulos da editora Mythos; 6 publicações da editora Panini; 1 da editora Pipoca e Nanquim; e 1 da editora de mangás JBC. A partir disso, podemos ainda classificar tais publicações, de acordo com o seu acabamento, em:

Revistas simples:  Pateta; O Velho Logan; Batman: Cavaleiro Branco. (5 títulos, com preços variando de 6 a 11 reais);

Encadernados ou edições com um melhor acabamento: Dylan Dog - Nova Série; Tex Willer; Noites de Trevas: Metal; Dragonero; Tex Platinum; Eight - Forasteiro; Heavy Metal - Black & White; Tex - Graphic Novel; Nijigahara Holograph; e O retorno de Wolverine. (14 títulos, com preços variando de 14 a 34 reais);

Edição de luxo: Marada - A Mulher-Lobo. (1 título, com valor acima de 50 reais).

Como já afirmado, todos os títulos apresentados neste texto são atuais, ou seja, são frutos de um mercado consolidado que, apesar das dificuldades sempre presentes, é experiente e está em constante expansão. Todos, igualmente, mostram um bom acabamento gráfico, mas esbarram na qualidade da revisão final do texto - talvez pela falta de mais profissionais na equipe editorial das redações ou, até mesmo, pelo ritmo cada vez mais intenso de publicações. Assim, custa-nos apontar, mas, com exceção de Pateta nº 0, Dylan Dog - Nova Série nº 1, o mangá Nijigahara Holograph - As ilusões de Inio Asano e O Velho Logan n° 32 (ou seja, APENAS 20% do material lido), TODAS as outras HQs da lista têm problemas de revisão.

Abaixo, fotos dos quadrinhos, com destaque aos problemas encontrados na edição:

Dylan Dog - Nova Série nº 2: "Alguns atuações..."
Tex Willer nº 2: Falha na editoração do balão

Dylan Dog - Nova Série nº 2: Não há crase em "À sargento..."

O Velho Logan nº 33: Faltou vírgula entre "Ô amigão..."

Tex Willer nº 1: Sobrou borrões e faltou hífen em "Bom senso" 



Dylan Dog - Nova Série nº 2: Falha em "À irmãe na qual..."

Dylan Dog - Nova Série nº 2: Falha em "E quem fim levaram?"

Dylan Dog - Nova Série nº 2: Falha na concordância em "O direito... Escritos"

Noites de Trevas: Metal nº 1: Faltou separar "Agente"

Dragonero nº 1: Borrões e mais borrões...

Dragonero nº 1: Borrões e mais borrões...

Dragonero nº 1: Borrões e mais borrões...

Dylan Dog - Nova Série nº 3: Excesso de pontuação em "Universo.!"

Dylan Dog - Nova Série nº 3: Falha em "FIQUEI aí, eu abro!"

Batman: Cavaleiro Branco n° 7: Faltou separar o "porque"

Tex Platinum n° 16: Trema em "agüentar"

Tex Platinum n° 16: Hífen em "dia-a-dia"

Tex Platinum n° 16: Trema em "tranqüilos"

Tex Platinum n° 16: Acento em "pára"

Eight - Forasteiro: Indecisão na grafia de EIGHT

Eight - Forasteiro: Indecisão na grafia de EIGHT ("EIGTH")

Heavy Metal - Black & White n°1: Se trata DE, não "EM"

Heavy Metal - Black & White n° 1: Faltou separar "outrosmundos"

Heavy Metal - Black & White n° 1: Hífen solto em "-Este solo!"

Heavy Metal - Black & White n° 1: Falha em "...sobre do que aconteceu."

Tex - Graphic Novel n° 1: Falha em "do jeito quer você os arrumou!"

Pateta  n° 1: Faltou separar "nuncapescamos"

Marada - A Mulher-Lobo: Problemas com a vírgula em "...como, suspeito,..."

Marada - A Mulher-Lobo: Problema de concordância em "tudo isso... e a liberdade... será de vocês."

Marada - A Mulher-Lobo: Faltou duplicar o hífen na troca de linha em "Mulher-/Lobo"

Dylan Dog - Nova Série nº 4: Falha em "na vida nos outros..."

Dylan Dog - Nova Série nº 4: Faltou acento grave em "...a mão de obra..."

Dylan Dog - Nova Série nº 4: Faltou um QUE "Não vê eu estou no..."

O retorno de Wolverine n° 1: Faltou hífen em "bom senso"


Como podemos perceber, não se trata de erros sutis, passíveis de longas discussões gramaticais entre especialistas, mas sim de deslizes GROSSEIROS, extremamente visíveis, que beiram o descaso. São, pois, desvios CRASSOS que assustam pela quantidade e insistência em tantas publicações.

O leitor atual de quadrinhos, colecionador e amante da linguagem quadrinhística, paga pequenas fortunas mensais pelas suas edições. Pequenas fortunas que, espera-se, garantam a qualidade total dos quadrinhos adquiridos em bancas ou livrarias. Pequenas fortunas que vão para grandes editoras (sedentas por vender cada vez mais!), MAS QUE NÃO SÃO REPASSADAS QUANDO DA FINALIZAÇÃO DO MATERIAL PUBLICADO.

Quadrinhos são uma ARTE. E o fato de serem produzidos em massa não pode impactar na qualidade final dessa estética. No mais, vale se fundamentar num dos aspectos mais discutidos e analisados pelos estudiosos da Arte sequencial, que é o fato dela ser, muitas vezes, decisiva na iniciação leitora e cultural de crianças e jovens. Logo, entregar uma obra mal-acabada, defeituosa, nas mãos de um leitor em formação não nos parece adequado e salutar. Por outro lado, tal obra nas mãos de um leitor calejado, experiente, é um verdadeiro DESRESPEITO.

Portanto, das duas uma: ou se diminui o ritmo das publicações no nosso mercado quadrinhístico, intensificando, então, o cuidado editorial na produção dos títulos e garantindo, assim, uma melhor qualidade para eles; ou que se aumente o número de profissionais contratados, com formação especializada, mantendo o ritmo constatado e, IGUALMENTE, a excelência dos produtos publicados. Somente assim evitar-se-á o que parecem ser barbaridades, descasos, descuidos e desrespeito em relação ao cenário artístico-editorial de HQs - o que, consequentemente, contribuirá de forma decisiva para a consolidação do respeito aos quadrinhos enquanto manifestação estética.

No mais, uma linguagem artística que se afirmou e conquistou um merecido espaço na premiação literária mais importante do Brasil, o Prêmio Jabuti, não pode ser (des)tratada dessa maneira. Que este texto sirva de incentivo a mais discussões como essa e que, doravante, nossas editoras busquem a construção de um mercado menos quantitativo e cada vez mais QUALITATIVO. Um mercado que enobreça mais e mais a Nona arte.


P. S.: Dois casos merecem "destaque": o fato de em Eight - Forasteiro, da Panini, o problema ter ocorrido na CAPA da edição; e o DESCASO da editora Mythos com o volume 16 de Tex Platinum, pois a equipe editorial nem se deu ao trabalho de reler o texto e fazer as devidas adequações em relação à nova ortografia do português.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Sobre Olimpo tropical, de André Diniz e Laudo Ferreira


Crítico, ácido, pungente e lírico. Eis os adjetivos adequados para se iniciar uma apreciação de Olimpo tropical, obra em quadrinhos dos brasileiros André Diniz e Laudo Ferreira - roteiro e arte, respectivamente -, publicada em 2017 por meio do selo Jupati books, da Marsupial Editora.

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Nela, Biúca, o protagonista, sintetiza a condição de milhares de brasileiros: pobre, negro, favelado, com pouco estudo e marginalizado. E que, sem outra perspectiva, vê no crime o único meio concreto de ascender socialmente - já que é lá que habita seus verdadeiros heróis: os traficantes do morro, esse Olimpo tupiniquim.

A narrativa, fundamentada em referências mitológicas, é concebida em duas partes. A primeira, Entre os homens, nos mostra a personagem principal ansiando por aceitação entre as pessoas da favela; enquanto que a segunda, Entre os deuses, enfatiza sua luta por uma posição de destaque entre os donos do morro: os bandidos. Ambas as partes entrelaçam-se, contundentemente, por temas corriqueiros nas periferias do país: o tráfico e a criminalidade, a perda da infância, a falta de cultura e lazer e, obviamente, a violência e a corrupção policial.

É o cotidiano abordado e retratado como arte. Uma estética engajada e contestadora quanto à realidade que, justamente por seu caráter ordinário e habitual, muitas vezes nos passa despercebida - já que nos acostumamos, dia a dia, com a sua presença. É, pois, uma tentativa de nos fazer sentir, mais uma vez, sob a pele já calejada, um pouco da dor dos milhões de Biúcas que resistem por aí.

Fazendo alusão às tragédias mitológicas, Olimpo tropical não poderia ter um desfecho feliz. Assim como uma sociedade imersa em desigualdade social jamais poderá ter um futuro feliz. Se, ao final da leitura, conseguirmos relacionar tais questões, a obra cumpriu algumas de suas funções: arrancar a venda que, muitas vezes, encobre nosso olhar e nos fazer perceber que essa é uma história de todos nós.

No mais, é um baita quadrinho. O roteiro consegue ser rico e simples ao mesmo tempo, enquanto a arte, com belíssimas cenas, consegue suavizar, de forma lírica e sensível, a crueza e o caráter visceral do amontoado de casas, barracos, veículos e pessoas que figurativizam as favelas do Rio (e de qualquer outro lugar).

Talvez a "falha" da HQ esteja na descaracterização da fala da personagem como um autêntico adolescente do morro, com pouco estudo. Mas tal "falha" pode ser um efeito de sentido pretendido pelo texto, numa clara tentativa de fugir aos estereótipos, mostrando que um favelado, mesmo jovem e que tenha abandonado a escola, envolto em criminalidade e violência, pode deixar transparecer em seus diálogos reflexões e criticidade profundas.

Para além do exposto, a leitura de Olimpo tropical representa uma forma de valorizarmos os quadrinhos produzidos em território nacional e, também, uma ótima porta de entrada ao universo artístico dos autores André Diniz e Laudo Ferreira.


quarta-feira, 20 de março de 2019

Uma breve reflexão sociopolítica a partir de Tex Platinum 19 - Testemunhas de acusação

Uma boa história é sempre aquela que nos impele a refletir sobre a sociedade circundante. E é justamente por isso que Tex, Testemunhas de acusação, chama tanto a atenção: ecoa indagações interessantes e importantes sobre nosso cenário social atual. Com roteiro de Claudio Nizzi e desenhos de Victor de Lá Fuente, a narrativa ágil e inteligente faz parte do volume 19 de TEX PLATINUM.


Na trama, Tex e Kit têm que realizar a escolta de algumas testemunhas indígenas até a Capital Washington, pois lá há a denúncia de um esquema de corrupção envolvendo o desvio de verbas públicas destinadas à causa dos índios. Assim, os envolvidos em tal esquema planejam diversas emboscadas no caminho dos Rangers e seus escoltados, dando início aos conflitos da edição.

De 1948 até os dias de hoje, Tex Willer aprendeu muito. Suas histórias ficaram mais criativas, profundas, interessantes. Seu caráter foi solidificando-se mais e mais: um verdadeiro herói defensor dos fracos - o que quer dizer vulneráveis socialmente - e oprimidos (mulheres, negros, índios...). Fiel aos princípios da justiça e, por isso mesmo, nunca fazendo-a com suas próprias mãos, é, pois, um defensor da lei disposto a tudo para que os braços da legalidade alcancem e punam os bandidos e malfeitores que a agridem. 

Tais idiossincrasias, aliadas ao forte caráter de Águia da Noite (como Tex é conhecido entre os líderes indígenas), são responsáveis por suscitar questões tais como: Se Tex aparecesse hoje, aqui no Brasil, como ele seria visto ante tal cenário sociopolítico - um cenário ora indiferente ora violento em relação aos vulneráveis? Seus ideais e valores seriam festejados como nos gibis? O mocinho seria exaltado ou escorraçado por lutar a favor dos grupos sociais minoritários que ele tanto defende em suas histórias?

Isso porque, no Brasil atual, tudo está radicalizado. Muitos fatos sociais, políticos e ideológicos condicionaram grande parcela da população a extremos, reduzindo-a a rótulos como "de direita", "esquerdista", "comunista", "capitalista" e diversos outros. E em tempos de extremismo, o bom-senso e a razão, características fundamentais para o bem da sociedade, são soterrados pela ignorância e pelo preconceito - e, nesses casos, heróis como Tex e seus pards se fazem necessários, justamente, por serem ponderados.

A defesa dos direitos humanos básicos, a defesa de minorias, a busca por igualdade e justiça, a demarcação das terras indígenas, o combate ao racismo e preconceito, a tolerância religiosa, a luta pela não exploração do trabalhador, a igualdade de direitos a homens e mulheres e tantas outras bandeiras levantadas pelos que lutam por um mundo melhor são ações rotuladas, pejorativamente, como pertencentes à ideologia "de esquerda". No entanto são ações ponderadas, razoáveis - e ponderação e razoabilidade NÃO CABEM EM ÉPOCAS EXTREMADAS. Portanto, e infelizmente, Tex e seus companheiros de luta não seriam bem-vindos em nossa sociedade.

Tex Willer não defende que "bandido bom é bandido morto". Seus princípios, condizentes com a civilização que busca avançar em direção à paz e harmonia entre os povos, são incompatíveis com a mentalidade de amor à ignorância, à desigualdade e à violência que assolam o país. "Vá pra Cuba", "Está compadecido com bandidos, leve-os pra casa", "Direitos humanos para humanos direitos" seriam estas as expressões que nosso herói teria de escutar, diária e obrigatoriamente, por aqui.

Passagens como as das páginas 182 e 183, em que o índio Joselito conversa com Tex sobre os homens da cidade grande que "vivem como formigas enlouquecidas, atrás de trabalho e dinheiro", infelizes e sem brilho e vida no olhar, seriam tidas como "doutrinação esquerdista". Enquanto que a fúria de Tex contra o discurso racista e segregacionista feito pelo passageiro do trem, lá nas folhas 149 a 151, seria rotulado como "mimimi" - e, também, "de esquerda". Mais uma vez: onde há extremismo, morrem o bom-senso e a razão.

Testemunhas de acusação é uma ótima história (a melhor da série Platinum!). Nos mostra bem os valores pelos quais Tex luta. Mostra também que é preciso engajar-se nas disputas políticas, pois somente assim grupos minoritários e em situação de vulnerabilidade podem organizar-se na tentativa de cessar a opressão - como fez o índio Ely Parker, o Comissário de Assuntos Indígenas de Washington ao inserir-se na "terra dos brancos", visando melhorias para o seu povo.

Que a trama nos sirva de lição nesses tempos difíceis, em que impera a veneração à violência (física e psicológica) e ao desrespeito ao SER HUMANO.

P. S.: Imagem retirada do site da Editora Mythos.



quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Ar condicionado, de Gustavo Piqueira (porque é o Dia do Quadrinho Nacional)


Hoje, 30 de janeiro, se comemora o Dia do Quadrinho Nacional. Isso porque, lá pelos idos de 1869, o ítalo-brasileiro Angelo Agostini (1843 - 1910) publicou As aventuras de Nhô-Quim, obra considerada o embrião das modernas narrativas gráficas ou histórias em quadrinhos. Assim, é importante escrever algo a respeito - tanto para reforçar esse marco histórico quanto para valorizar obras e autores da Nona arte brasileira.

A HQ escolhida para a referida comemoração é Ar condicionado, do artista Gustavo Piqueira, publicada pela editora Veneta em 2018. Trata-se de uma simbiose entre as linguagens dos quadrinhos, das artes visuais e da literatura. E antecipo: é uma criação genial!

Construída a partir das trivialidades experimentadas cotidianamente, dos nossos pequenos e vastos conflitos interiores diários, Ar condicionado nos mostra o quão solitários e perdidos somos e estamos em nós mesmos - esse oceano de ideias incomunicáveis.

O enfado repetitivo do dia a dia, os descaminhos que a mente nos obriga a seguir, nossa incapacidade de interação com o outro e, sobretudo, a insegurança que a sociedade atual nos obriga a ter são abordados de forma sutil pela narrativa dinâmica de Piqueira. Cada qual preso em seus pequenos-grandes dilemas existenciais.

Tudo materializado de maneira singular e genial. Os cenários são sugeridos, quase inexistentes, já que a ênfase é dada aos interiores, ao que há contido dentro das personagens. Estas são expressas por silhuetas, contornos que abrigam em si uma torrente condicionada de pensamentos os quais, vez ou outra, escapam no todo semi-vazio das grandes cenas ou quadros.

É esse ar condicionado em nós, perdido nas vastidões dos espaços das páginas da narrativa, a principal personagem. É um universo-linguagem a preencher, completa e de forma aparentemente desconexa, todos os lugares do nosso eu, vazando, gota a gota, na ínfima interação e no pobre diálogo com o outro. E isso é angustiante: um mar represado, cuja fresta existente dá vazão ao que transparecemos ser.

Gotas desse mar pingam e dizem pouco sobre quem realmente somos e o que queremos. Apenas traduzem a nossa solidão e a nossa incapacidade de nos darmos a conhecer pelo outro, nos confinando a uma vida social mas, paradoxalmente, solitária.

Ar condicionado é, portanto, uma obra que merece ser lida, apreciada e discutida nesse Dia do Quadrinho Nacional. Além disso, é um exemplo de como o quadrinho brasileiro é capaz de ser surpreendente.

P. S.: Imagem retirada do site da editora Veneta.







segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Mito! Mito! (Soneto a ser censurado)

Eis que um novo governo, Bolsonaro,
assume a presidência do país.
Acordando uma turba de ignaros
que berra: É o fim do "Mal", pela raiz!

Guerra à tolerância, ao senso crítico,
à História, à Ciência e à Razão.
Agora é o Ódio - discurso típico
de homens covardes, como o Capitão.

Que grita e manda, de longe, escondido,
por temer toda a fala divergente.
(Décadas de política... E perdido!)

"Farsa e mentiras! É tudo o que tens!"
"Mito!" "Mito!" Urra a acéfala gente,
refletida no Cidadão de bens.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Aventuras de uma criminóloga: um breve registro


Dentre as várias histórias interessantes que li nos últimos dias, destaco Como duas fúrias, de G. Berardi e L. Calza, e desenhada por Roberto Zaghi. Faz parte da edição 137 de J. Kendall - Aventuras de uma criminóloga (Editora Mythos, 2018). É simples, atual, tocante e bastante contundente.

Conta sobre dois jovens cheios de problemas pessoais e sem perspectivas quanto a algum futuro. Ambos são pobres, oriundos de lares desestruturados e buscam no mundo do crime um modo de dar vazão às suas frustrações. Como ocorre cotidianamente com milhares de jovens das periferias do mundo.

A trama nos faz refletir sobre nossa própria realidade, nos mostrando como a desigualdade social é o grande mal das sociedades. Nos faz pensar em como a falta de cultura e a desesperança no porvir influenciam, decisivamente, nossas vidas. E mais: como o discurso meritocrático, que subjaz à narrativa, é falacioso.

E, principalmente, nos abre os olhos para o fato de que, muitas vezes, é preciso enxergar toda a narrativa que leva alguém a cometer algum tipo de crime já que, segundo a criminóloga Júlia Kendall, "a violência nunca é um gesto repentino, é um percurso que vem de longe." Isso não para perdoarmos os criminosos, mas para entendê-los e, assim, criarmos meios de evitar que tudo isso continue a ocorrer.

Assim, tal como as Fúrias da mitologia, as duas personagens personificam a vingança. Uma vingança contra um mundo cinza, que não lhes oferece oportunidades. Um mundo tal como o nosso: violento, cru e extremamente desigual, que nos oprime contra a parede e nos força a diárias atrocidades.


P. S.: Imagem retirada do site da Editora Mythos.


terça-feira, 20 de novembro de 2018

20.11

Ainda ecoa aqui
Urgente, eterno e feroz
O urro de Zumbi!
                   (Haicai L)

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Oposição

Não vamos Armar!
A guerra é incitá-los
a Amar e Amar!
              (Haicai XLVI, 29.10/18)


P. S.: Após os resultados do 2° turno das eleições...

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Pelo Globo

Quando é fake
tem-se um fato.
Quando de fato
há um fato
tratam-no como fake.
História,
ciência e razão
constroem Mito(s)
para altares
de fé cega.
E o resto
(indigesto)
é escondido
(NUNCA ESQUECIDO!)
e apresentado,
décadas depois,
com "sinceras desculpas".

terça-feira, 14 de agosto de 2018

A parte que falta (porque DEVE faltar)



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Aceitar que somos, e sempre seremos, incompletos é o que nos torna inteiros. 

Pode parecer senso comum, mas a frase aqui posta é bastante lógica. Passamos vidas inteiras tentando preencher espaços em nós mesmos que jamais serão preenchidos. Vazios que nos recusamos a aceitar. Uma falta que, quando compreendida como inerente à condição humana, será aceita como parte imprescindível do nosso ser.

Essas foram, basicamente, as ponderações feitas após a agradável leitura de A parte que falta, do americano Shel Silverstein (Sheldon Allan Siverstein, 1930-1999). O livro, recentemente publicado pela Companhia das Letrinhas, é incrível; uma verdadeira mistura dos gêneros poesia, prosa e, até, história em quadrinhos - pois que é o resultado da junção do visual e do verbal numa sequência narrativa.

Conta a história de uma personagem que se dá conta da sua incompletude e que, por isso mesmo, sai pelo mundo à procura da parte que lhe falta. Acerta e erra, se felicita e se entristece na busca contínua por completar-se. Até descobrir que o que nos falta é contentarmo-nos com nós mesmos; e que a tal parte que nos falta está, afinal, na gente mesmo. E que, portanto, tudo à nossa volta é importante, mas não indispensável. E daí interessa estarmos por aí, perambulando e apreciando tudo o que há de bom no mundo e em nós.

O autor materializa tudo isso de forma simples, mas magistral: a partir de traços, palavras e versos singelos, numa simbiose entre poesia, desenho e prosa. De leitura fluida, dinâmica e rápida A parte que falta nos mostra de maneira bastante lírica e bela o que todos nós, intuitivamente, já sabemos: que somos incompletos. E que sempre tentamos nos preencher com o que achamos que precisamos: amor, consumo, ideologias, coisas, pessoas etc.

Mas o que muitos não têm ciência, e o que o livro também nos mostra, é que ainda que tivéssemos tais partes em nós, ainda assim seríamos não completos. Ainda assim haveria os vãos, os vazios, os espaços necessitando do desejo de serem preenchidos... E então, e só depois disso, é que perceberíamos e entenderíamos que por faltar algo em nós é que somos completos, únicos, humanos. Que nós somos a parte de nós mesmos no fim das contas. Porque é preciso que nos "falte" alguma coisa para que possamos viver.

Antes preocupado e aflito, tentando desesperadamente completar-se, agora é sorrir e cantar, caminhando pelas estradas da vida: "Ai-ai-iô, assim eu vou,/em busca da parte que falta em mim."



P. S.: O livro é originalmente da década de 70!! E Ganhei minha edição do meu grande amor, numa data especial.

  

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

aos homens frios (depois da "Rosa")

há 73 anos
homens frios se maravilhavam
com a flor estranha
e gigantesca
criada em jardins artificiais
e esquisitos
repletos de telas e fios e
computadores e botões e
fórmulas atômicas

olhos frios e insensíveis
artificiais também
marejaram, brilharam
de excitação
quando o botão virou flor
e de forma medonha
e quilométrica
plantou-se em terrenos
repletos de Vidas

mãos frias aplaudiram
e bocas frias sorriram
babando poder
talvez ao redor de alguma mesa
ao ver e sentir coisas estranhas
cores, fumaça, cheiros
tudo radioativo e atômico
e artificial e destrutivo
que absorvia e destruía
tudo pelo caminho sem volta
e que abria os portões de um novo mundo
frio
onde só cabiam homens frios

e ainda hoje
agora!
há botões estranhos
dessa flor estranha
sob os cuidados
amorosos
e excitados
de frios homens ansiosos
que acariciam
eroticamente
suas estranhas criações

segunda-feira, 30 de julho de 2018

( !! )

Subir. Pra lá do alto
perceber-se tão pequeno.
Pó! De um Todo vasto.
               (Haicai XLII)

sexta-feira, 20 de julho de 2018

O copo

Pra uns quase cheio.
Ante outros: semivazio.
Com olhar sombrio

Me interessa é vê-lo.
E aí, refletir. Primeiro:
O que é? De onde veio?

               (Haicais XL e XLI)

quarta-feira, 20 de junho de 2018

etéreo

habitar
o ar
e passar
(passear)
de maneira incontida
pelas frestas do mundo
num caminho eterno circular
cósmico
e depois de tudo
descansar
desse sempre ir e ir

sexta-feira, 8 de junho de 2018

vago

pr' além desse espaço
d' impenetrável segredo
vou. Cosendo esparços.
               (Haicai XXXIX)

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Duas palavrinhas necessárias sobre Ordem Vermelha, de Felipe Castilho



Repressão. Autoritarismo. Totalitarismo. Manipulação. E anseio por liberdade. São esses os temas que dão base à fascinante e épica narrativa de Ordem Vermelha - Filhos da Degradação, do escritor brasileiro Felipe Castilho. Quatrocentas e tantas páginas fluidas, vertiginosas e vibrantes, bem escritas, que mostram Untherak - a única região conhecida de um mundo fantástico que ecoa, contundentemente, sons da nossa própria realidade, profundamente marcada pelas feridas da desigualdade e opressão.

Lá, como aqui, realidade e verdade são modeladas a serviço de um governo opressor e autoritário, que asfixia e manipula seu povo - sem instrução - por meio da força, da exploração do trabalho e do poder insidioso e sutil, ilusório, da religião e da crença cega. Lá, como aqui, tudo o que foge à ideologia que impera é escondido, deturpado e conspurcado, distorcido e, muitas vezes, destruído por não se adequar ao paradigma dominante. Lá, como aqui, o povo serve unicamente para fazer girar as engrenagens violentas de um sistema doentio que não aceita questionamentos, não dá margem à dúvida, pois "perfeito" e, por isso mesmo, irracional.

No livro, seus trinta e poucos capítulos, bem entrelaçados e construídos, descortinam e nos mostram as poucas e solitárias pessoas que, uma a uma, vão tomando ciência da nefasta e sufocante realidade circundante, se armando e lutando de forma ferrenha e aguerrida para destruí-la e reconstruí-la. Pessoas bastante diferentes entre si, cada qual com suas feridas, cicatrizes e motivações lutando por liberdade e condições dignas de se viver. No afã de conquistar a utopia comum e atemporal de um mundo justo e melhor para todos.

Raças fantásticas, magia, grandes feitos, batalhas sangrentas, emoção e esperança, conspirações audaciosas e revolucionárias e muita política dão o interessante enredo de Ordem Vermelha, que ainda nos mostra um mundo medieval bastante evoluído em questões que pra nós ainda são discutidas sem o êxito que o bom-senso e a racionalidade exigem: homossexualidade, equidade entre homens e mulheres, visibilidade às minorias, valorização da cultura negra etc., são alguns dos assuntos abordados, mesmo que tangencialmente, ao longo da narrativa.

Geralmente as histórias que nos chegam são quase sempre as mesmas, pois oriundas dos mesmos temas e conteúdos fundamentais. O que nos fascina, no entanto, e o que as tornam únicas, especiais e originais é a forma como elas são contadas. E é esse o aspecto que fascina em Ordem Vermelha - Filhos da Degradação. Felipe Castilho escreve muito bem! Apresenta e desenvolve bem o enredo, descreve competentemente o mundo e os cenários e constrói de maneira magistral as imagens das batalhas épicas  dessa grandiosa fantasia medieval.

Cenas "menores" são forjadas com a mesma intensidade e habilidade com as quais são escritas as grandes batalhas. As páginas apresentando Raazi e Yanisha antes da (e, obviamente, na) Arena de Obsidiana, passando pelas descrições das ações de Aparição, as peripécias de Aelian até chegar às dezenas e dezenas de páginas finais de tirar o fôlego - tamanhas a intensidade e tensão dos acontecimentos heroicos - são os exemplos extremos da destreza do autor. Cada qual desenvolvida em seu oportuno momento e prendendo radicalmente a atenção do leitor - sem deixá-lo cair num possível tédio por conta da extensão do livro.

Tudo isso entremeado com páginas diferenciadas, escuras, que mostram o futuro de algumas personagens e que, espero, logo apareçam com os próximos, e possíveis, livros da "série". Este Volume 1 é, sem dúvida, o "prólogo" de uma fantasia bastante promissora e empolgante para o mercado fantástico brasileiro.

É, pois, um universo incrível e verossímil, épico e crítico que, paradoxalmente, nos garante uma fuga parcial das nossas realidades e, simultaneamente, nos condiciona à reflexão e à possibilidade de também lutarmos e revolucionarmos nossos próprios mundos.

Num período de retrocessos sociais, em que a defesa da liberdade, da igualdade, dos direitos humanos, das minorias etc. é quase um crime, uma "conspiração comunista", Ordem Vermelha - Filhos da Degradação é um verdadeiro grito de resistência e um sussurro bem-vindo, provocativo e incisivo de que é possível, ainda e sempre, buscar utopias e lutar por um futuro melhor.



segunda-feira, 14 de maio de 2018

Livros-jogos: uma boa experiência em sala de aula


Enquanto professor, sempre parti do pressuposto de que a leitura, antes de qualquer outra coisa no ambiente escolar, é a grande propulsora para o bom desempenho da educação. É, pois, o que possibilita uma satisfatória aprendizagem. Assim, desde que ingressei nessa área, busco introduzi-la cada vez mais na vida do aluno - apesar das constantes dificuldades encontradas.

Disso resulta, geralmente, a socialização oral e escrita de livros aos finais de bimestres e/ou semestres e reflexões quase diárias a partir da leitura de quadrinhos, poemas, contos curtos, letras de músicas etc. Fora trabalhos, também com leitura, além da sala de aula. Em resumo, é a partir do ler que pauto minhas ações enquanto professor.

No entanto, sempre achei a leitura de narrativas um pouco mais longas difíceis de serem executadas diante de 40 alunos - cada qual com seus problemas e suas diferentes motivações. Isso porque os alunos precisam, necessariamente, permanecer em silêncio e devidamente sentados por, pelo menos, uns 35 minutos - que é, basicamente, o tempo útil em uma aula de 50 minutos. E todos que já frequentaram uma sala de aula tradicional sabem da dificuldade de se conseguir tal façanha.

Assim, sempre que eu parava para ler para os alunos, inquietava-me o fato de vê-los "apenas escutando" o que era lido. É algo, como disse, muito importante; porém bastante monótono e, até certo ponto, tedioso.

Influenciado desde o início da minha adolescência por literatura, quadrinhos e RPG, e sabendo dos benefícios que estes trazem consigo, sempre penso em levar um pouco (ou muito, mesmo!) disso para a sala de aula. Foi pensando em tudo isso, num daqueles momentos que boas ideias atravessam, aleatoriamente, nossa mente, que vislumbrei uma boa possibilidade de aliar um pouco do conteúdo do 6º ano do Ensino Fundamental aos clássicos livros-jogos de RPG.


A aula, a partir da experiência com o livro-jogo, ficou mais dinâmica, produtiva e instigante - no que se refere, obviamente, ao conteúdo sobre literatura e elementos constitutivos da narrativa. Conceitos como narrador, personagem, foco narrativo, tempo e espaço, enredo, dentre outros, tornaram-se, com o uso dos tais livrinhos, mais próximos deles; e a sua assimilação e apreensão, mais fáceis e práticas. Tudo mais claro e "ilustrado" - à medida que uma aventura é contada e, ao mesmo tempo, é construída. 

E o principal: tornou-se menos cansativa e extremamente dinâmicas a leitura que eu faço e a participação (agora ativa) dos alunos - já que são eles a personagem que vivencia a história, que pondera e decide os caminhos a trilhar até chegar ao seu fim. São eles que enfrentam os desafios impostos pelo livro e vivem as emoções de participar, ativamente, da história.

Para além dos benefícios imediatos, a atividade, sempre feita uma vez por semana, melhora a atenção e reflexão dos alunos, além de estimular a socialização  e discussões orais em relação às tomadas de decisões e dar estímulos à imaginação e à  criatividade.

Além disso, a execução da atividade é bem simples: explica-se sobre o que é, basicamente, RPG; discuti-se o que é um livro-jogo ou uma aventura solo; em seguida fala-se das regras básicas do jogo - que são apreendidas, rapidamente, ao longo da própria aventura. Preenche-se a Ficha do jogador e, enfim, inicia-se a "aula".

Quando surgem as opções de escolha para prosseguir com a aventura, os alunos têm um tempo para refletir e discutir entre si e, sempre, vence a maioria - democraticamente. Testes e batalhas são decididos entre um aluno (representando a classe/herói) e o professor (os oponentes). E segue assim até o final da aventura.

Há tensão, emoção, cooperação e competitividade. E esta última não se dá entre os alunos, mas sim da COLETIVIDADE DA TURMA - personificando o personagem - com o ambiente e as adversidades da narrativa. E isso é mais um motivo para a inserção desse tipo de jogo em sala de aula.

Aliando leitura, diversão e ensino, e tirando o aluno da apatia e monotonia de atividades tradicionais, o uso do livro-jogo no ambiente escolar - além de simples e dinâmico - tem se mostrado uma experiência bastante interessante e proveitosa. É, nos dias atuais e em detrimento das dificuldades diárias enfrentadas pelos professores em sala de aula, um ótimo recurso para, antes de qualquer outra coisa, estimular a leitura - base de uma boa educação. 



P. S.: Texto escrito para o blog Amálgama RPG.
P. S. 2: Imagens retiradas do Google.





terça-feira, 24 de abril de 2018

Poeta

O poeta 
é um sentidor!
Senti(dor)
que labuta diariamente
com sensibilidade
toda a sensibilidade
Humana.
                       (2014)

domingo, 15 de abril de 2018

Silogismo amoroso

Sou,
com você.
Do contrário,
possibilidade
d' eu Ser.
Logo,
sem você
Eu Seria.
Só.
                           (2016)














terça-feira, 3 de abril de 2018

ampulheta

passa o tempo o tempo passa e arrasta
arrasta tudo o tempo vai o tempo vem
o tempo vai e vem além de tudo
o tempo passa e arrasta tudo
o tempo vem o tempo vai
o tempo vai e vem
além de
TU
DO
E
NA
DA
escapa
passa o tempo
o tempo passa e arrasta
arrasta tudo e nada escapa
o tempo vai o tempo vem o tempo
vai e vem além e nada escapa e tudo
arrasta o tempo passa e nada escapa

sexta-feira, 9 de março de 2018

Tudo em ruínas

Nada além de restos
e ruínas é o que eu sou.
Restos de uma sociedade em decadência
e ruínas dos homens em uma queda histórica
através das Eras.
E talvez nada me junte
e nada me levante
e nada me reconstrua
a não ser você.
                                (2014)

terça-feira, 6 de março de 2018

RPG: eternizando a contação de histórias

Desde tempos remotos, imemoriais, uma das características fundamentais da interação do homem é a contação de histórias. É por meio delas que projetamos anseios, inspirações, nos motivamos e escapamos, necessariamente, das nossas realidades.

Durante a década de 70, esse hábito foi transformado e aprimorado, colocando os contadores de histórias no interior delas, tornando-os, também, jogadores: nascia, assim, o RPG (Role-Playing Game, jogo de interpretação). Um jeito diferente e instigante de criar, contar e, ainda, viver histórias.

O RPG substituiu a fogueira e agora, os homens, sentam-se à volta de mesas, rabiscando papéis, rolando dados e construindo, cooperativamente, uma narrativa previamente iniciada por um deles (o mestre).

Assim, para além do aspecto lúdico, fundamental em qualquer jogo, o RPG possibilitou o PROTAGONISMO de todos, já que TODOS, JUNTOS, constroem e contam, simultaneamente, a história. E, a partir disso, todos ganham ou perdem, já que a história foi construída e contada, independente de seu desfecho.

E apesar dos inúmeros tipos de jogos de RPG que foram surgindo, bem como apesar dos inúmeros cenários também surgidos, sem esquecer, claro, os incontáveis sistemas de regras criados nestes mais de 50 anos de existência do hobby, uma coisa não mudou e nunca mudará: o contar e criar histórias, coletivamente. E é este, no fim, o principal objetivo de um jogo de RPG.

P. S.: Texto escrito inicialmente para o blog Amálgama RPG.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

V de anarquia

"A anarquia deve abraçar o estrondo das bombas e canhões.../...Todavia, deve amar ainda mais a doce música." (V)



É impressionante a força da arte. Arrebenta as portas da nossa mente, aos chutes, e invade bruscamente, deixando uma completa desordem de sensações e sentidos. Esse foi o único jeito que consegui iniciar um texto para falar de V de vingança, do genial Alan Moore e seus parceiros David Lloyd, Steve Whitaker e Siobhan Dodds.

Escrita na década de oitenta, a narrativa é violenta, anarquista e reflexiva. É um grito anárquico e silencioso que, ao fim, deixa em cacos um sistema fascista e opressor construído à medida que suprime liberdades coletivas e, principalmente, individuais de uma sociedade apática e anestesiada por dois poderosos flagelos: ilusão e medo.

V, alcunha do protagonista, transita silenciosamente pelas entranhas do Partido, corroendo e destruindo-o aos poucos. Sua face é ocultada por uma máscara, deixando subentender que qualquer um pode ser V. Qualquer um pode levantar-se contra a injustiça e lutar para destruí-la. Seja homem ou mulher, branco, negro, pobre, rico, minorias...

Ou ainda, e mais simbolicamente, o indivíduo ou o coletivo, TODOS podem e devem rebelar-se contra qualquer poder tirânico. Basta abrir os olhos e perceber-se  vítima, preso aos grilhões e correntes dessa grande gaiola que é a vida. Essa talvez seja a mensagem de V de vingança.

V é anarquia. É a possibilidade de nós mesmos regermos nossos futuros. E é isso que Evey aprende com o enigmático mascarado. Quando ela passa a compreender isso, é interessante notar que seu nome passa a ser grafado EVE até o final da trama. Ou seja, tudo é V, e enfim a personagem amadurece e acorda para uma nova realidade: a de transformar seu mundo.

É ela agora que personifica a ideia que é V - daí a sua imortalidade, pois as ideias, quando concebidas, não morrem mais.

Em V de vingança,  a ausência do recurso onomatopeia a torna ainda mais silenciosa. Silenciosa, mas não muda! E é o silêncio imposto por fascistas que ora ou outra estoura em rugido e violência no corpo da massa, que o destrói completa e furiosamente no afã de liberdade.



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Instante

Pixado, 
no muro, 
a cinzenta verdade:
"Somos instantes".
O poeta urbano, 
calejado do dia a dia,
suspira profundamente 
e desabafa:
"somos instantes".
Instante fugaz de felicidade,
de certezas
de esperança
diante da vida.
Segundos de uma eternidade universal
pertencente apenas aos astros 
e ao brilho prateado das estrelas.
Indivíduos transitórios,
passageiros efêmeros
que arranham 
desesperados
a existência débil 
que se insinua
sarcástica 
a toda a gente.
Relâmpago de vida,
de amor,
que cai sabe-se lá onde
e faz-se escuridão
para sempre.
                       (11-07-2012)

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Jardins do mundo

Considero-me bela e sou, inegavelmente, vasta. Assim como o são outras tantas como eu, espalhadas mundo afora. Isso apesar de pouco notada e relegada a um canto qualquer. Sou pobre, mas não miserável. E um tanto quanto melancólica (não triste ou depressiva!). Mas isso, quem não o é?... Entretanto, sou perpassada por ímpetos furiosos de alegria e contentamento, principalmente quando o riso simples da vida passeia por mim.

Ainda que tomada de pobreza e abandono, abrigo em mim, em meu seio farto, um montão de gente. E as pessoas parecem gostar, sinceramente, de mim. Preenchem meus limites e me atravessam com uma porção de desejos e anseios. Plantam seus sonhos e esperanças em mim e eu, paciente e profundamente tocada, os vejo crescerem. E mesmo que muitos venham a perecer, eles, ainda assim, melhoram o meu solo e me preparam para ir recebendo sempre mais um pouco. Pois quem mora comigo nunca deixa de sonhar mundos melhores... porque sabe que somos fortes e, a bem da verdade, movemos e edificamos possíveis futuros...

Sou, sim, um grande abrigo de todo mundo. E gosto mesmo é da alegria causada pelos esperançosos que me habitam. Que caminham pelas vastidões do meu corpo sempre em repouso, observando horizontes, queimando ao sol, ou sob o manto escuro de estrelas. 

Gosto das cócegas que fazem em minha pele, incessantemente. Gosto dos sonhos construídos, diariamente, sobre mim. Das brincadeiras, das lágrimas, das alegrias. Do barulho constante, dos gritos e dos risos, do vai e vem quase caótico dessa torrente infindável de gente dentro de mim. Todos exalando vida e movimento intermináveis. Todos fazendo com que eu, e as outras tantas iguais a mim, viva - como realmente devem viver todas as cidades das periferias do mundo.

E nos cantos e fundos de quintais do planeta, em favelas e comunidades, em morros marginais estamos nós. Belas, vastas. Grandes e diferentes jardins. Escondidos e abandonados jardins de beleza, vida e diversidade. Tomados por flores que, desvairada e aleatoriamente, vão se emaranhando, se misturando e se confundindo com a própria existência. 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Ela

(Soneto I)

Espectro sombrio e sepulcral
Que oprime e faz fenecer toda a vida,
Que a sufoca de maneira fatal
Quando vagas, Oh! Caveira incontida.

Em seu louco passeio só de ida
Espalha o Medo e o Fim pelo caminho...
Pobre Homem, numa luta renhida
E vã, cai flagelado, em desalinho.

E no chão permanece, até o pó!
Privado do mundo, lançado ao Nada
Apodrecendo, abandonado e só!

Morbidez e egoísmo: essa é a Morte.
Qu' Eterna, insaciável e calada
Passa. E nós? Qu' imploremos ao Deus Sorte.
  

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O interior da gente

O interior da gente é escuro e estranho; margeia o irracional. São estilhaços e mais estilhaços de loucura pra tudo quanto é canto. Pequenos fragmentos de um grande espelho quebrado que nos revela e, paradoxalmente, nos esconde. Espelho este que, a cada vislumbre, mais e mais nos deforma.

Nesse pequeno-infinito universo, como criancinhas amedrontadas, chora e tateia, estupidamente, nossa razão. Recolhendo e juntando cacos na vã tentativa de montar o inútil quebra-cabeça de nós mesmos. Na infrutífera batalha para encontrar e dar sentido a essa torrente de aleatoriedades que resume o nosso Eu.

É sempre uma descida difícil em nós mesmos. E sempre temos que fazê-la. E enfrentar nossos medos, monstros e tormentos. Sozinhos.

E lutar para não nos deixarmos petrificar e permanecer lá, aprisionados e abandonados nesse casarão assombrado pelos demônios da nossa consciência. Tateando a esmo um mundo insano, estranho e escuro. O interior da gente.



P. S.: Depois de Asilo Arkham - Uma séria casa em um sério mundo pretendia fazer uma resenha. No entanto, saiu este texto...

P. S. 2: A obra é dos autores Grant Morrison (roteiro) e Dave Mckean (arte) e metaforiza, por meio da prisão-manicômio Arkham, os conflitos psicológicos de Batman - numa viagem ao seu eu.




terça-feira, 7 de novembro de 2017

Navegante do acaso

Em meio ao universo-linguagem
o poeta navega.
Tal qual miríades de estrelas
as palavras
vastas
reluzem em sua mente:
aduela
estirada
açodar
coturno
- Velozes estrelas cadentes a cair.
Estranhas (im)precisas ocasionais aleatórias:
antirrábica.
Mudas mas sonoras:
calorento aldeamento...
Austero, sensível e inquieto
finda-se a labuta
(garimpo estelar):
Sobre a mesa
fica este papel
e estas tintas
sem'inúteis (?)
a/c do acaso.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Guerra Remota: 2117

D. T. ainda não completara dezesseis anos, mas sua inteligência e habilidades, aliadas a um desempenho singular para sua idade num dos melhores institutos de educação e pesquisas, o qualificaram um ano antes ao Projeto G. M. - contrariando um pouco seu criterioso regulamento. Findado o período inicial de rigorosos testes e adaptações,  ele estava apto a dar o passo derradeiro de sua promissora carreira: as avaliações em campo.

Disciplinado férrea e arduamente, não demonstrava inquietação alguma, assim como todos os membros do Projeto. Trajou mecanicamente sua vestimenta azul e branca estrelada e dirigiu-se  à sala de operações 1.0.1 - 1984, que ficava cerca de um quilômetro abaixo do gigantesco edifício em que estava, fortificada em aço, concreto e variados sistemas de segurança físicos e digitais. 

Sua impassividade era assustadora. Salvo o brilho úmido e indisfarçável de seus olhos azuis, podia-se dizer que não era humano, mas sim um dos recentes modelos de robôs lançado pela gigante tecnológica Natura Máquina - Vidas inorgânicas. A pele clara, com cabelos lisos e de coloração semi-alaranjada a enfeitar-lhe o alto da cabeça, mais seus traços finos e delicados, aristocráticos, faziam-no lembrar uma importante figura política e histórica do século passado - o principal idealizador e articulador do Projeto G. M, para o qual, agora, trabalhava.

Uma combinação de leituras de suas digitais e de seus globos oculares permitiu seu acesso ao espaço para onde fora designado recentemente. Designação esta acompanhada de êxito e, em virtude de seu precoce ingresso, uma primeira condecoração.

***

A sala era bastante vasta. Uma sucessão de painéis de controle, luzes e monitores preenchiam suas quatro paredes. Uma infinidade de botões e mecanismos altamente sensíveis e tecnológicos, com ares de importância e periculosidade extremas, eram manipulados precisamente por seis indivíduos de aspectos juvenis e sadios, de olhares inteligentes e atentos por trás de grossos óculos.

Impressionava a grande redoma de vidro localizada milimetricamente no centro daquele ambiente. Tinha cerca de cinco metros de extensão e uma altura que se aproximava dos três e meio. Era transparente e com um aspecto de grande poder de resistência. Em seu interior, podia-se ver uma solitária e confortável poltrona giratória. Tubos entravam e saíam de alguns orifícios rente ao chão e conectavam-se, objetivamente, à aparelhagem geral do restante da sala.

Frio e impassível, D. T. repetiu as ações já feitas inúmeras vezes em incontáveis simulações. Caminhou com passos firmes e decididos, em linha reta, até a construção vítrea, tocando-a com seus cinco dedos. Uma luz vermelha rapidamente deu lugar a uma luz verde para, em seguida, uma portinhola deslizar para cima - garantindo-lhe passagem até o assento solitário daquela fortificação de vidro.

Ao sentar-se, algo penetrou rapidamente e com um pouco de incômodo sua nuca. Uma leitura de retina foi realizada por uma fraca luz azul, acompanhada de um suave zunido. Um instante depois, um capacete descia e se acoplava em sua cabeça, óculos especiais encaixavam-se em seus olhos, agulhas perfuravam as veias de ambos os braços e um painel de controle surgia-lhe na frente, flutuando à altura do abdome. Tudo isso nos poucos segundos necessários para que a pequena porta da redoma se abaixasse, fechando-se silenciosa e hermeticamente - apartando-o da realidade exterior.

Os seis técnicos trocaram olhares e gestos que denotavam satisfação. A fase de acomodação e simbiose indivíduo-console estava completa.

***

D. T. tinha agora os olhos injetados, fixos em pontos definidos da gigantesca tela de trezentos e sessenta graus que a estranha redoma de vidro havia se transformado, e a qual, rodeava-lhe completamente. Suas pupilas dilatadas e inquietas revelavam tensão e atenção extremadas, e o contínuo injetar de drogas estimulantes em sua corrente sanguínea intensificava ainda mais suas capacidades cognitivas e sensoriais. Seus dedos frenéticos moviam-se com espantosa rapidez - rivalizando com o deslocar de seus olhos. Os controles sob suas mãos eram operados rápida e eficientemente, enquanto sua poltrona girava com desvairada velocidade e precisão. Hora ou outra, seus olhos reviravam e sua respiração e batimentos cardíacos, monitorados com doentio esmero pelos sujeitos fora da construção vitralizada, tornavam-se mais intensos.

O grande abrigo de vidro exibia, em toda a sua extensão curvilínea, imagens de guerra e terror. Explosões e mais explosões tomavam consideráveis partes da tela. Em outras, soldados destroçados, rajadas de armas cada vez mais letais, fogo e confusão preenchiam tal pandemônio. Essas cenas alternavam-se, tal qual antigos jogos de videogames, com visões panorâmicas, aéreas, da totalidade do terreno. Nestas, viam-se umas dezenas de máquinas humanoides, forjadas em aço, devastando e massacrando uma cidade periférica qualquer. Edifícios em chamas, carros destruídos e capotados, pessoas mortas ou correndo insanamente. Se Deus olhava e cuidava sobre a face do globo, nessa hora sua face estava distraída e virada para algum outro canto do universo. Aquele pedaço miserável da Terra, nesse momento, era perscrutado, cuidadosamente, e de um assento remoto e solitário, pelo jovem D. T.

Alteravam-se novamente a visão e as imagens da tela. Mais uma vez via-se tudo de perto, frontalmente: esguichos vermelhos, misturados à poeira, respingavam na câmera dianteira do módulo de batalha. Tudo com os movimentos rápidos e precisos dos dedos de D. T. Inimigos eram atravessados violenta e bruscamente por potentes e letais raios luminosos; em desespero, escondiam-se onde era possível: dispositivos de busca os localizavam e, simultaneamente, os destruíam; granadas solares os secavam até seus ossos retorcerem-se, expostos e calcinados, após céleres toques e deslizar de mãos.

***

Pouco mais de uma hora se passara. O suficiente para que os clarões de bombas fossem diminuindo, dando lugar à devastação caótica e irracional, escombros, cadáveres e uma quantidade estonteante de fumaça subindo e encobrindo um habitual cinzento céu lá no alto.

Estimulantes pararam de escorrer para as veias de D. T., enquanto seus movimentos iam ficando mais lentos e seus olhos começavam a  assumir seu aspecto frio e corriqueiro. O drone de batalha projetava, desta vez e do alto, a imagem de uma dezena de módulos de batalha vasculhando o perímetro e eliminando, aqui e ali, os poucos sobreviventes caídos pelo caminho. A cidade fora tomada. A missão de anexação e expansão territorial tivera êxito.

Os tubos que conectavam D. T. à poltrona giratória foram retirados, óculos e capacete foram devidamente suspensos, e um último toque de dedos desconectou seu cérebro da fortificação de vidro e fez desaparecer todas as luzes e cenas e monitores ao seu redor. Ele levantou-se um pouco ofegante e tomado por uma leve tontura, com algumas gotas de suor a escorrer-lhe das faces. Dirigiu-se à saída transparente, deixando atrás de si uma caixa craniana vazia e mortal.

Um dos sujeitos da sala apertou-lhe as mãos, amparando-o e guiando-o até seu alojamento, para que ele descansasse. O caminho estava apinhado de jovens iguais a D. T., saídos, igualmente, de outras tantas esferas vítreas, todos em direção a um obrigatório descanso.

***

Horas depois, já descansado e em seu alojamento, D. T. recebeu, via dados digitais e em seu córtex cerebral, o relatório da missão. Rapidamente absorveu as informações e, mais uma vez, surgiu algo que o diferenciava de uma máquina qualquer. Um quase imperceptível sorriso de satisfação, orgulho e patriotismo brotou espontaneamente no canto de seus lábios ao ler as últimas linhas da síntese do documento:

Anexação e expansão de território concluídas com sucesso.

Margem de êxito da missão: 100%;
Baixas entre o inimigo: 100%;
Baixas do Império Ocidental: 0%;
Tempo efetivo de realização da missão: 1h e 13 min.;
Tempo a ser superado: 1h e 05 min.;
Pontuação do soldado D. T. : 0.98 (escala de 0 a 100).
Fim do relatório.


segunda-feira, 31 de julho de 2017

Por dentro

Somos labirintos.
Que se fecha e faz perder
quem entra pra ver.
                  (Haicai XXIV)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Carta espacial pós Rauzito

Ei, moço do disco voador,
que anda meio esquecido
mas que foi cantado com fervor
em tempos idos

Resolvi te escrever isso
só pra você saber
que ainda estamos aqui. E além disso,
esperamos uma visita acontecer

À maneira de antigamente:
com bastante luz...
pouca gente...
um ovoide que reluz...

Divertindo-se com seu belo disco
nos céus deste planeta...
preenchendo-os de riscos
de reluzente cometa...

E se possível
nos garanta aquela viagem
tão sonhada... até mesmo implausível
aos que não têm coragem

Aquela viagem pra qualquer lugar
(pro)fundo do espaço sideral
pra longe de tudo. E pra terminar:
Um abraço terrano mas Universal.

P.S.:
Te peço que venha urgentemente
em dobra espacial, na velocidade da luz
pois por aqui, basicamente,
o Caos é quem conduz

Tudo desaba, vai mal
e o homem não quer mais nem pensar...
tá rastejando num buraco irracional
e contentando-se em lá ficar.

domingo, 2 de julho de 2017

A bela e estranha Dylan Dog - Retorno ao crepúsculo


Dylan Dog

Uma região fronteiriça dos mundos dos vivos e dos mortos. Um homem que conhece tal lugar e deve, mais uma vez, ir até lá, agora ajudando uma jovem desconhecida e com um problema a ser resolvido. Tempo e espaço misturados e confusos, teorias para deter a morte, devaneios, realidades e reflexões sobre a profusão existencial do universo.

Algumas histórias são tão ricas quantos às possibilidades imaginativas e interpretativas que, findadas, nos deixam um mosaico de sentido, um quebra-cabeça semântico que vamos, inquietos, tentando montá-lo; porém, depois de concluída tal montagem, não conseguimos - talvez por estarmos próximos demais do objeto - observá-lo como um todo.

Dylan Dog - Retorno ao crepúsculo é uma dessas histórias. Escrita pelos artistas Tiziano Sclavi (texto), Giuseppe Montanari e Ernesto Grassani (desenhos), é uma trama absurda, calcada nas dualidades que perpassam o ser humano: vida e morte, sonho e realidade, desconhecido e cognoscível, mente e corpo, lá e cá... e mais uma porção de opostos que existem, parece, para nos comple(men)tar (e atormentar! também).

Até então nunca havia lido nada da personagem. Confesso, entretanto, que a vontade sempre se fez presente - mas os caminhos, muitas vezes, nos lançam em outras direções... Depois de feito, com a presente publicação da Editora Lorentz, vejo-me surpreendido e embaraçado com a força criativa da HQ - tão bem desenhada e, muito mais ainda, escrita. Em suma, é uma peça fantástica - com tudo de positivo e interpretativo que tal palavra contém em si.

Já nas primeiras páginas fui obrigado a reler, pois percebi que não seria apenas uma simples narrativa de terror. Não. É complexa e metafórica - e tais atribuições vão se intensificando com o desenrolar do enredo, chegando ao ápice de nos mostrar o contista Allan Poe num universo onírico e filosófico, subindo e descendo escadas extraordinárias até deparar-se com um "inferno" bastante familiar ao leitor: o século XX (e o XXI também, claro!).

A personagem principal, o detetive Dylan Dog, é ofuscada pela presença de outra: a dualidade existencial. Assim, a vida e a morte, o real e o surreal são os verdadeiros protagonistas da narrativa, nos sufocando, pressionando e impelindo para alguma de suas extremidades. Nos forçando a observar, aprender e caminhar para fora de nossos mundinhos confortáveis - metaforizados pelo equilíbrio dos polos que, na trama, aparece como a região conhecida por Zona do crepúsculo. Logo, talvez, nem dia nem noite, nem vida nem morte, nem realidade nem fantasias... Mas sim a compreensão e apreensão do todo, pois é um todo que nos define e, portanto, nos orienta o existir. 

Essa Zona crepuscular parece simbolizar o Desconhecido, simples e ao mesmo tempo complexo; e este, metaforiza-se inteligentemente na figura da significativa personagem Opal - encapuzada, escondida, sensível, perseverante... às vezes repugnante e, em outras, atraente e irresistível. É sempre o Desconhecido que nos impele a algum lugar, a algum dos extremos do existir... ou à apatia da vida. É ele que nos move em direção a sentidos e significados. Na narrativa é, pois, ele (ou ela, Opal) que atrai Dylan e o lança na aventura insólita da edição.

É claro que a contextualização existente acerca do conto O caso do sr. Valdemar, de E. Allan Poe, base da narrativa, vem a calhar. Mas, mais interessante é suspender a leitura da HQ lá pela metade e mergulhar na referida e aterradora, sinistra, mórbida peça literária, publicada em meados de 1845. O clima da leitura muda completa e complementarmente pra melhor - garantindo um tom ainda mais sombrio à história. Sombrio e assustador!

Garantindo maior inteligência à aventura, o que não poderia faltar, há as críticas ao homem e ao modo como este encara a vida - críticas ora mais, ora menos, contundentes, porém sempre presentes. Uma delas é a indagação, feita por Dylan, se não estamos todos confinados à Zona do crepúsculo, repetindo gestos, palavras, pensamentos, perguntas e respostas dia a dia, incansável e imperceptivelmente...


Outra, mais crua e direta, é o "inferno" (segundo Poe) que habitamos. Essa torrente infindável e colossal de coisas e pessoas e concreto que atordoa, oprime e sufoca nossas sociedades modernas e civilizadas...



Há, ainda, o questionamento sobre o que é, de fato, o real, e como despertamos para a realidade: dormindo ou acordando?

O uso dos recursos da linguagem dos quadrinhos também é bem feito, enriquecendo ainda mais a HQ, como podemos perceber a partir das sequências dos quadros e imagens contidas abaixo...





Referenciando e homenageando Edgar Allan Poe, Dylan Dog - Retorno ao crepúsculo é absurda e fantástica. Inteligente, estranha, assustadora, inquietante e, acima de tudo, INTERESSANTE; espatifa nosso pensamento e nos deixa atordoados na busca por sentido. É, pois, uma excelente experiência de leitura, e torna tudo o que foi dito neste texto apenas uma pequena mostra das várias e variáveis impressões que a narrativa nos proporciona. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

A graça literária em O caso de Charles Dexter Ward, de Lovecraft

Uma parte interessante a respeito da literatura, que é, grosso modo, a palavra empregada artisticamente, reside no acabamento formal de determinada obra. Sendo, pois, a arte literária a materialização de suprarrealidades, de mundos fictícios - reflexos verossímeis, portanto, da nossa realidade -, a expressão de um conteúdo por meio de palavras, contida na dualidade forma X conteúdo, é indissociável para a expressividade artística de qualquer peça dessa natureza.

Edificar universos. Eis o fundamento da arte da palavra. Seja romântico, fantástico, de horror, aventuresco e investigativo, de crítica social etc., estes universos são forjados pelo léxico, ou seja, tomam formas a partir da inter-relação, seletividade e disposição deliberada deste. Tal qual arquiteto, portanto, labuta o escritor.

Sendo assim, se a literatura é essa dança entre forma e conteúdo, significante e significado, pode-se estabelecer, prontamente, que parte da graça desta arte existe apenas quando o primeiro elemento da dicotomia citada é TRABALHADO - com esmero, apuro e dedicação deliberada. Caso contrário, é somente mais uma história entre tantas outras existentes. Em O caso de Charles Dexter Ward, do norte-americano H. P. Lovecraft, tem-se um perfeito exemplo do que foi até aqui exposto.

Na obra, conta-se a história de um sujeito, Charles, que, interessado em arqueologia e antiguidades, descobre a existência de um parente antigo, praticante de magia negra e pesquisador do ocultismo. A partir dessa constatação o protagonista se lança num passado sombrio e de horrores cósmicos - elementos da mitologia criativa e do estilo do autor.

Na sinistra trama, extremamente rica quanto à linguagem utilizada, e de um alto nível de detalhamento, depois de descobrir a existência de um tio, cuja bruxaria nefasta se resume ao oculto e sobrenatural, Dexter Ward se embrenha em pesquisas acerca de rituais mágicos até, inconscientemente, trazer em si mesmo a reencarnação macabra do sinistro parente - o feiticeiro Joseph Curwen.

Além de ser uma ótima história de horror e investigação, destaca-se no livro o requinte linguístico em alto grau de formalidade, obviamente empregado para a obtenção de efeitos de sentidos relativos ao passado histórico que sustenta a trama, e o detalhamento quando da construção da narrativa, com um bom e paulatino progresso dos acontecimentos - até o seu terrível auge. Tais elementos engrandecem e edificam a leitura da obra.

Com referências a entidades cósmicas e abissais, práticas ritualísticas, investigações ocultas em livros velhos etc., O caso de Charles Dexter Ward consegue ser interessante, envolvente e assustador, deixando de lado sustos bobos e aparições sobrenaturais tolas e desnecessárias bastante presentes nas histórias de terror. Assim, por meio da materialização tensa, profunda e rica desse enredo simples, tem-se a riqueza expressiva da qual se extrai parte fundamental da referida graça literária.

É, portanto, todo esse trabalho formal, esmerado,  por parte do escritor, que torna os mundos ficcionais mais sensíveis, verossímeis e palpáveis ao leitor. Sem a construção e exploração dos sentidos que a forma garante para o conteúdo, qualquer enredo - por mais interessante que venha a ser - torna-se menos instigante e, consequentemente, a obra artística resultará insípida e superficial.