segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Considerações sobre Alvar Mayor, de Carlos Trillo e Enrique Breccia



Alvar Mayor, publicado em volumes definitivos no Brasil desde 2019 pela Editora Lorentz, é um quadrinho que, por ser bastante diferente do que as grandes editoras costumam publicar por aqui, merece ser lido, apreciado e discutido não apenas por aqueles habituados ao mundo da nona arte, mas também por amantes e críticos de arte em geral.

Concebido na década de 70 do século XX por dois dos maiores nomes dos quadrinhos da Argentina, Carlos Trillo e Enrique Breccia, Alvar Mayor é uma obra ímpar, composta por pequenas narrativas que individualizam temas universais tais como o amor, a morte, a vingança, o existir, a loucura etc., cada qual com níveis de profundidade variados e sempre interessantes de serem observados. 



A personagem que dá título à criação, Alvar, não é um grande herói - no sentido habitual da palavra quando referente aos quadrinhos; antes, porém, é bastante humano, e é isso, também, que faz a publicação ser objeto de apreciação. Ele é falho, assombrado por remorsos de um passado que vamos tentando apreender ao longo das narrativas, que são contadas de maneira não linear, esparsas, quase soltas displicentemente ao bel-prazer dos autores, tais quais contos folclóricos narrados à medida que vão sendo rememorados.

Além disso, a personagem é solitária por essência, mas não a solidão egoísta tão presente em outras HQs, antes é uma solidão quase lírica, imprescindível ante às incertezas do futuro e da sua "poética, perigosa, mas necessária caminhada" (como consta na introdução do Volume 2, recém-lançado). Alvar é, portanto, dividido e arrastado constantemente de seu presente pelo incerto e escuro porvir e pelo peso das experiências pretéritas. 



Mesmo suscetível ao erro e às falhas inerentes ao ser humano, Alvar é íntegro, de personalidade racional e forte, e sempre disposto a lutar por alguma causa que lhe pareça nobre. É um observador astuto do outro, empático, e sempre aprende lições que os caminhos da vida estão a ensinar. Erra, mas adquire sabedoria com seus erros, enquanto perambula pelo mundo sempre em busca de algo, mesmo sem saber ao certo o quê. E tudo isso movido pelo sentimento do amor: talvez o amor ao mistério do acaso; talvez o amor de Lucía, sua eterna amada; ou mesmo o amor pelo caminhar constante, a esmo, desbravando terras e pessoas desconhecidas - solos férteis ao nascimento do novo, seja ele qual for.

Encontramos aventuras, ação, emoção, dinamismo e muito mais nas narrativas de Alvar Mayor; mas tudo isso é secundário ante às reflexões que elas próprias nos trazem. São histórias que terminam, mas continuam por algum tempo em nossa consciência, sendo preenchidas e complementadas por nossas experiências pessoais. Histórias que continuam ressoando na gente. Todas elas materializadas, figurativizadas, no singular preto e branco do artista Enrique Breccia, um gênio que faz de cada página um painel artístico de elevado padrão estético. Um assombro de traços realistas, de luz e sombra.



Como tudo é atravessado ideologicamente, e com sua contextualização histórica referente ao século XVII, Alvar Mayor tece críticas à colonização desumana ocorrida nas américas, ao homem branco, predador e opressor, a toda elite gananciosa - que vê o lucro antes mesmo do humano - e, ainda, àqueles que, tais como cegos, enxergam apenas e tão somente a si mesmos, nunca a realidade circundante. Ponderações que, espalhadas aqui e ali ao longo das inúmeras páginas, tornam a leitura ainda mais rica e instigante. 

Com a colaboração de uma equipe bastante competente (em tradução, edição, revisão, restauração de originais etc.), a Editora Lorentz acerta pela segunda vez no mercado das histórias em quadrinhos do Brasil: a primeira por publicar e "ressuscitar" Dylan Dog, o Investigador do Pesadelo em nossas terras e, agora, com os belos e importantes volumes de Alvar Mayor. Materiais de alta qualidade, rico e diferenciado conteúdo (temático e estilístico) e preço bastante justo. Um ganho muito significativo à nona arte em geral e aos leitores brasileiros.



quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Ao peculiar (e assombroso) 7 de SETEMBRO DE 2021

Há mais de 50 anos, lá nos anos 60 do século XX e no início da Ditadura Militar no Brasil, o (então exilado) poeta amazonense Thiago de Mello (1926) escreveu FAZ ESCURO MAS EU CANTO: porque amanhã vai chegar. Deste livro, transcrevo (em caixa alta) uma estrofe do poema CANTO DE COMPANHEIRO EM TEMPO DE CUIDADOS:

O TEMPO É DE CUIDADO, COMPANHEIRO.

É TEMPO SOBRETUDO DE VIGÍLIA.

O INIMIGO ESTÁ SOLTO E SE DISFARÇA,

MAS COMO USA BOTINAS, FICA FÁCIL

DISTINGUIR-LHE O TACÃO GROSSO E LUSTROSO,

QUE PISA  AS FORÇAS CLARAS DA VERDADE,

E ESMAGA OS VERDES QUE DÃO VIDA AO CHÃO.

O TEMPO É DE MENTIRA. NÃO CONVÉM

DEIXAR LIVRE O MENINO DA ESMERALDA.

MELHOR É PROTEGÊ-LO DA VIOLÊNCIA

QUE AMARRA  A LIBERDADE EM PLENO VÔO.

A SOMBRA JÁ DESCEU, E MUITAS FAUCES

FAMINTAS SE ESCANCARAM FAREJANDO.

CUIDADO COMPANHEIRO, ESCONDE A ROSA,

ESPANTA A MARIPOSA COLORIDA,

É PERIGOSA ESSA CANÇÃO DE AMOR.

Que as nuvens escuras, cada vez mais volumosas em nosso céu, se dissipem e que o sol possa, com liberdade, brilhar sempre! E que esse peculiar e assombroso 7 de setembro de 2021 não se torne uma incessante tempestade.

sábado, 19 de junho de 2021

19 de junho de 2021

Brasil.

500 mil mortos!

MEIO MILHÃO DE MORTOS!

mas

mais de um ano depois

e depois de milhares de mortos

a Covid

19

tornou-se um convite

e uma ode

à Morte.

?


e a gente

indiferente.

?

domingo, 30 de maio de 2021

O estranho Porvir em OMAC, de Jack Kirby

É sempre interessante conjecturarmos, a partir do passado e inseridos num dado presente, sobre as possibilidades de um possível futuro. Algumas dessas conjecturas materializam-se esteticamente, é o caso de OMAC - Operativo Máximo para Ações de Combate (Panini, 2021), criação do quadrinhista estadunidense Jack Kirby (1917-1994) para a DC Comics, nos idos da década de 1970.

O quadrinho é uma distopia futurista que resvala em 1984, de George Orwell, e vai além por sua criativa inventividade - mesmo centralizando-se no âmbito do gênero Super-herói. OMAC é um super-homem modificado tecnologicamente por um singular satélite espacial denominado de Irmão-olho, uma Inteligência Artificial resultante de uma secreta e avançadíssima tecnologia. Assim, em um universo onde homem e máquina se confundem, o jovem inseguro e desajustado socialmente Buddy Blank é recrutado pela AGP - Agência Global de Paz e torna-se o heroico OMAC, o "exército de um homem só", combatendo todo tipo de ameaça criminosa. 

Obviamente que tão somente isso, por si só, não mereceria uma resenha como esta, pois isso é o básico em qualquer universo ficcional das HQs de super-heróis. O que realmente chama a atenção, e que verdadeiramente suscita qualquer discussão, são os perigos que surgem no Porvir - o futuro que J. Kirby criou -, germinado a partir da soma de vasto poderio tecnológico mais a insensibilidade e ganância humanas. São, portanto, as ideias referentes ao futuro da humanidade que fazem com que a obra, dos anos setenta (é bom frisar), seja bastante interessante e mereça ser discutida.

A primeira delas surge, estranha e inquietamente, já na capa da HQ: a mulher, até então vista como objeto de prazer, é retratada como um "brinquedo" montável ("Amiga para montar", um ambíguo nome) que engana, seduz, confunde e, nas mãos do crime, explode seu alvo. E ainda: uma organização mundial de segurança e paz, sem distinção de nacionalidade entre seus membros graças a um spray cosmético que manipula a pele do rosto, modelando a todos de igual forma. E mais outra: venda ilegal de corpos jovens com o intuito de receber os cérebros, via cirurgia computadorizada, de sexagenários sem escrúpulos e abastados financeiramente ("Corpo novo, alma velha", literalmente - como nomeado em um dos capítulos).


Além desses, há vários outros conceitos a permear as páginas que compilam as oito edições da série nesse único volume. Alguns muito intrigantes - como veículos que se locomovem com energia magnética, similar a um ímã - e outros tantos assombrosos: pessoas miseráveis, aparentemente moradores de rua, que se submetem a experimentos radioativos ou hormonais e tornam-se monstros que passam a trabalhar para a criminalidade - única alternativa financeira; super-ricos, a elite econômica que pode ALUGAR (isso mesmo!) cidades inteiras para suas festivas excentricidades. Ideias bastante peculiares que se concretizam no Mundo do Porvir - o espaço ficcional da história.

Explicações simples, mas muito verossímeis, tornam-nas bastante críveis dentro do universo de OMAC, ainda mais quando levamos em conta algumas particularidades referentes ao contexto histórico da época em que Kirby o concebeu (Guerra Fria, Ameaça nuclear, Corrida espacial, Avanços tecnológicos etc.). Por mais incríveis, absurdas e insólitas que possam parecer, como roubar a água de rios e oceanos, condensá-la em pequenos blocos pesadíssimos e chantagear outras nações à adquiri-la, tais ideias ainda são bastante lógicas e racionais dentro da narrativa. E isso, essa verossimilhança, é algo grandioso nas tramas da personagem.

Jack Kirby, que criou, roteirizou e desenhou OMAC, é mesmo um gênio da 9ª Arte. Incontestavelmente! Não apenas por estar no cerne das maiores criações do universo dos quadrinhos, como Capitão América, Quarteto Fantástico, Senhor Milagre, X-Men, Novos Deuses, Thor dentre inúmeras outras, mas pelo modo como as materializa. Seu traço é simples, porém preciso, seguro, direto; seu texto é inteligente, criativo e visionário e a junção de ambos (arte e palavra) resulta numa dinamicidade e plasticidade únicas. Seus quadros movimentam-se e fazem ruídos, com um ritmo, uma harmonia e vivacidade marcantes. E tudo isso aparece em OMAC, a cada virar de página. Que artista!

Não obstante isso, essa riqueza no trabalho com os elementos constitutivos da linguagem dos quadrinhos, OMAC - Operativo Máximo para Ações de Combate ainda consegue escapar ao maior clichê do gênero Super-herói: apesar de parecer, ele não é invencível! Quem vier a ler a presente edição ficará espantado com o final. Isso porque o confronto entre máquinas inteligentes (talvez o próximo estágio evolucionário) e o homem pode representar o fim de ambos, já que isso parece ser, ao menos no quadrinho, um caminho ascendente e sem volta de evolução e degradação da humanidade. Essa é a triste, mas importante, reflexão à qual chegamos ao final da leitura desta singular criação de Jack Kirby. Pode ser, portanto, um alerta, um aviso e uma oportunidade para conjecturarmos outros caminhos possíveis para o futuro, outras possibilidades para o nosso Mundo do Porvir.




quinta-feira, 11 de março de 2021

Dois Haicais (frutos da pandemia e da quarentena)


nesse breu escuro

decerto ainda haverá

Luz: nosso futuro

         (Haicai LIV)


        Depois desses dias

de abraços urgentes

iremos além: faremos

(en)laços ardentes

         (Haicai LVI)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Intertextualidade, arte e Dylan Dog

As artes, em geral, referenciam-se constantemente por meio de alusões, paráfrases, citações, paródias etc., dialogando entre si de maneira explícita ou implícita. A isso os estudiosos da área de Letras, responsáveis pelos estudos sobre linguagem, língua e discurso dão o nome de intertextualidade (ou interdiscursividade) que, grosso modo, é a relação dialógica que determinado texto (ou discurso) estabelece com outro(s) texto(s) ou discurso(s). Os quadrinhos, enquanto produção artística e textual, não escapam a isso e estão repletos de referências a outros objetos textuais; estão em diálogo constante em relação a diversos discursos artístico-culturais e são, portanto, ótimos meios de apreendermos e abordarmos esse fenômeno bastante presente em nosso cotidiano.

Um bom exemplo para essa discussão são as histórias em quadrinhos de Dylan Dog, o Investigador do Pesadelo. Por mesclar em suas narrativas as literaturas fantástica, de horror e policial, o cinema, a pintura e a cultura londrina como plano de fundo para suas insólitas tramas, tem-se presente a intertextualidade, já que a personagem dialoga, direta e indiretamente, com todas essas referências literárias, cinematográficas, pictóricas; com todos esses textos (ou discursos). Ou seja, ao lermos alguma HQ de Dylan Dog, também lemos esses outros textos e discursos que constam em suas páginas, intertextual e interdiscursivamente.



Na edição 12 de Dylan Dog Nova Série - A morta não esquece (Mythos Editora, 2020), a intertextualidade é fator fundamental para a construção dos vários sentidos da história. É uma edição que dialoga explicitamente com publicações anteriores do Investigador londrino, fazendo referência à clássica primeira HQ de Dylan e às edições 1 e 7 desta Nova Série. Personagens, falas e situações são retomadas, referenciadas num diálogo constante ao longo de toda a narrativa. 

Claro que essas alusões intertextuais são, muitas vezes, implícitas e sutis. E, para sua percepção e apreensão, nesses casos, dois pontos são fundamentais aos leitores: a curiosidade e o seu repertório sociocultural. Em relação à curiosidade, o leitor deve ter em mente que num texto bem construído tudo se relaciona harmoniosamente, ou seja, NADA está ali por acaso, por engano, em excesso: TUDO gera efeitos de sentidos e TUDO se entrelaça na (e para a) construção de significados do texto. 

Exemplos disso, dentre os muitos que há na citada história, são as referências culturais apresentadas na primeira página de A morta não esquece, quando a roteirista Paola Barbato e o desenhista Bruno Brindisi nos mostram algumas "velharias" (uma caixa antiga do jogo D&D, algumas revistas clássicas de Creepy, Vampirella, Heavy Metal...) das quais Dylan precisa se desfazer. Isso já antecipa sentidos e significados: a trama da vez fará alusão ao passado (e talvez à dificuldade de esquecê-lo). Tudo, mais uma vez, relaciona-se com harmonia ao todo do texto, basta sermos curiosos para perceber e tentar correlacionar o que nos parece solto, díspar ou que está sobrando na página - algo que pode, por vezes, passar despercebido por parecer apenas capricho ou brincadeira dos autores.

Quanto ao repertório sociocultural do leitor, o que ele conhece da cultura e sociedade em geral, sua bagagem cultural, a relação intertextual em questão é bastante sutil, mas muito intrigante: na página 34 vemos, no momento de uma batida policial, uma estranha cena que mostra vários coadjuvantes mortos, empalhados e dispostos em insólitas poses.



Mesmo bastante incomum, dificilmente tal imagem nos remeta a algo conhecido, e provavelmente não encontremos nada semelhante em nossos conhecimentos prévios, em nosso repertório sociocultural. É algo bastante sutil e pode, facilmente, passar despercebido à medida que a leitura avança. Mas, lembremos: NADA num texto bem construído é por acaso; logo, uma imagem como essa também não é. E é aí que a curiosidade do leitor age mais uma vez: se lermos a imagem mais detidamente, conseguimos perceber que no livro sobre a mesa está escrito "M. MERISI". Uma rápida pesquisa nos revelará que esse é o nome de Caravaggio (importante pintor Barroco do século 16), daí é só contemplar algumas de suas obras para deparar-se com a bela e enigmática O martírio de São Matheus.



Assim, o que parecia algo aleatório, na verdade revela-se um diálogo intertextual interessantíssimo e, o mais relevante em se tratando de um objeto textual, vasto em criar efeitos de sentidos e significados para a narrativa. O principal deles, nesse caso, é o fato de A morta não esquece ancorar-se em rixas e problemas familiares para construir-se - basta lembrarmos de Nora Cuthbert e sua singular família -; temas que também são abordados pelo quadro de Caravaggio. Portanto, e mais uma vez: em textos bem construídos nenhum elemento é resultado do acaso; todas as partes são deliberadamente dispostas e correlacionadas.

No mais, são "detalhes" como esses que tornam a leitura cada vez mais enriquecedora, pois instiga e inquieta a curiosidade do leitor - e este deve ser sempre um curioso! - e amplia seu repertório sociocultural, algo fundamental para ler não apenas quadrinhos, mas a sociedade e o mundo em geral - visto que tudo se entranha e se engendra nesse texto maior, nesse grande discurso que são a existência e as grandes criações da humanidade.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Duas palavrinhas acerca de A mão errada (Dylan Dog - Nova Série 11)

Os quadrinhos de Dylan Dog não param de surpreender - positivamente, claro. Dessa vez, o longevo fumetti italiano, criado na década de oitenta por Tiziano Sclavi e atualmente publicado aqui no Brasil pela Mythos Editora, nos apresenta A mão errada, uma história sombria e perturbadora sobre arte, obsessão, vida e morte. 

Na trama, vemos uma artista que perdera a mão direita e que, a partir da superação desse trauma passa a pintar com a esquerda. Porém, sua arte, agora, não mais representa a beleza da vida, como antes, mas sim cenas mórbidas de terror, dor e morte e que, extraordinariamente, se relacionam com homicídios cometidos, segundo a polícia londrina, pela própria artista dos quadros, a aclamada Anita Novak. Um caso insólito e intrigante, perfeito para o Detetive do Pesadelo Dylan Dog.

Com excelente roteiro de Barbara Baraldi, escritora italiana de horror gótico, e com desenhos de Nicola Mari, A mão errada é, pois, uma narrativa sequencial PERFEITA, que une a atmosfera dos romances policiais, o lado doentio e depressivo da escrita gótica e pertinentes reflexões sobre a arte, vida e morte - tudo materializado figurativamente pela densidade sombria dos cenários noturnos dos traços  de Mari - possivelmente influenciado pela vanguarda expressionista.

É uma narrativa resultante da junção de opostos: amor e obsessão, sensualidade e erotismo, sonhos e pesadelos, início e fim da existência, arte e realidade. E é impossível dissociar tais dicotomias, tais dualidades, porque entranhadas e em eterno conflito no interior do ser humano. Aqui, Dylan - o homem - é arrastado, mesmo a contragosto, pelas personagens Anita, a artista do horror, e Rita Leigh, artífice da vida - ambas figurativizando, respectivamente, a bela e misteriosa senhora das trevas, a morte, e a radiante e atraente dama da luz, a vida. Há ainda a tímida Marnie, que simboliza a doçura do amor e, paradoxalmente, a violenta obsessão passional.

Bastante interessante é a caracterização destas personagens: Anita, o horror e morte, nos é apresentada de maneira simples, como alguém comum; Marnie representa os extremos, indo de uma aparência meiga e pura à violenta e obsessiva; Rita é a gótica, maquiagem carregada e tatuagens pelo corpo, bela, vivaz e intrigante, como a vida. Resumidamente, são representações que rompem paradigmas socioculturais, que tentam ressignificar o senso comum e que mostram que as aparências são apenas cascas, uma capa que recobre as profundidades do eu. Resta-nos, tão somente, arrancá-la e penetrar as camadas de sentidos que nos inquietam e nos impelem, mais uma vez e sempre, às questões universais, eternos mistérios, de vida, amor e morte.

Além de bem construída e amarrada, sem pontas soltas, a narrativa surpreende como trama de suspense policial. Todas as figuras que circulam pelas páginas são estranhas e potenciais suspeitos dos brutais crimes investigados - o que nos deixa "perdidos", tentando encontrar pistas e correlacionar os diálogos, as feições e ações das personagens com os grotescos assassinatos. Dylan (e o leitor também!) segue assim, página após página tateando no escuro, às cegas, até o extraordinário desfecho que, justamente por isso, se torna bastante original.

As imagens de Nicola Mari, que aliam o estranho e o gótico a figuras expressionistas, concretizam muito bem o caráter noturno, sombrio e macabro do texto de Baraldi. São imagens densas, de traços grossos e fortes, responsáveis por revelar o aspecto dual da existência. Uma dualidade impossível de ser dividida, dissociada que, quando assim compreendida e aceita, deixa-nos inicialmente perplexos e, ao fim, extasiados - como nosso caríssimo Dylan Dog ao final de A mão errada, quando Anita e Rita, vida e morte, horror e beleza, sombra e luz unem-se, sensual e eroticamente, na última página da história. E que história!

P. S.: Curiosidade: As personagens femininas são muito semelhantes entre si; os detalhes são o que as diferenciam umas das outras (vestes, tatuagens, corte de cabelo etc.). E, pelas poucas fotos da roteirista Barbara Baraldi que estão na internet, é provável que ela mesma tenha "emprestado" seu rosto para caracterizá-las.

P. S. 2: Toda a narrativa acontece à noite e há referências explícitas a O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde e ao escritor George Bataille. Ambos, no caso, abordam dualidades em suas obras.





terça-feira, 25 de agosto de 2020

Considerações sobre Mayombe, de Pepetela

Escrito durante o período de lutas revolucionárias, populares, que buscavam a libertação de Angola ante o jugo opressivo do colonizador português, Mayombe, do escritor angolano Pepetela (pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (1941)), é um romance moderno, áspero, crítico e carregado de lirismo. A obra, escrita enquanto seu autor participava ativamente da guerrilha angolana, registra partes daquele contexto histórico por meio da ficção e, desde sua publicação no início dos anos 1980, alçou Pepetela a um merecido reconhecimento literário, garantindo-lhe em 1997 a maior honraria da literatura de Língua portuguesa, o Prêmio Camões.

Narrado principalmente em terceira pessoa e estruturado em cinco capítulos (A missão, A base, Ondina, A surucucu e A amoreira), mais um Epílogo, trabalha a realidade de maneira ficcional ao contar sobre um grupo de guerrilheiros embrenhados na imensa floresta Mayombe, lutando por liberdade e por um mundo melhor. Uma luta mortal, árdua, vagarosa e constante numa guerra em defesa do nacional, do social e, em igual medida, do individual - já que preconceitos, ideologias referentes a tradições culturais, conflitos interiores, pessoais, também são os inimigos e, portanto, devem ser vencidos. 

O espaço que predomina na narrativa é o da densa e pujante floresta Mayombe - quase uma personagem na história. É ali onde acontecem as ações da guerrilha e é ali, também, que a liberdade ansiada por todos mais se mostra. A gigantesca mata é a metáfora da Angola pretendida pela revolução: livre, forte, bela, vigorosa e mãe de todos. É o espaço que encerra e protege as personagens, os fortes guerreiros que, mesmo atravessados por subjetividades, feridos e cicatrizados por suas vivências, empenham-se na construção utópica de uma nova sociedade.

Todas as personagens, no livro, têm grande importância e é difícil destacar as principais, os protagonistas. O Comandante Sem Medo, Ondina e o Comissário Político são os que mais se aproximam desse protagonismo, mas Teoria, Muatiânvua, Lutamos, Mundo Novo dentre outros mostram perspectivas extremamente relevantes sobre os acontecimentos da história. Assumem, nesses momentos, o espaço do narrador, algo bastante moderno e peculiar em um romance com foco narrativo em 3ª pessoa.

Quanto a isso vale ressaltar que tanto Ondina quanto Sem Medo não agem como narradores durante a obra o que, numa primeira leitura seria de se estranhar. Entretanto, é importante salientar que todos que o fazem mostram-se contraditórios, inseguros e, às vezes, até mesmo hipócritas em relação a como pensam e se mostram aos demais e como pensam e são realmente. Logo, fica evidente que há aí um recurso expressivo utilizado deliberadamente pelo autor, o qual resulta, pois, no efeito de sentido de que as personalidades de ambos, Sem Medo e Ondina, já estão construídas, são sólidas e fortes, e mostram-se tais como as vemos, sem meias palavras, sinceras e verdadeiras tais como percebemos através de seus diálogos e reflexões.

Essa força e solidez na personalidade é fundamental na narrativa, principalmente no caso de Ondina que, além de revelá-la como uma pessoa dona de si mesma, uma mulher guiada por suas vontades e desejos, altera até mesmo os rumos da revolução e os destinos de alguns guerrilheiros, pois é ela quem destrói e reconstrói a (até então) frágil personalidade do Comissário Político e reforça ainda mais o Eu e as convicções do Comandante Sem Medo. Isso é bastante interessante na história, já que revela aspectos da guerra interna e subjetiva das personagens, uma guerrilha pessoal no afã de superar medos, anseios, vícios e contradições do ser humano entrincheirado dentro de si mesmo.

Vale ressaltar, ainda, a crítica aos próprios valores e diretrizes preestabelecidos por manifestos revolucionários - valores e diretrizes que, quando estagnados e não rediscutidos, não vistos e avaliados a partir de determinadas nuances e atenuantes, tornam-se dogmas e, portanto, nocivos a toda e qualquer causa comum e revolucionária e sujeitos a cair em vazios teóricos, burocráticos e metodológicos. Tornam-se, sob a ótica argumentativa da personagem Sem Medo, semelhantes ao dogmatismo religioso. Essa, em sua visão, também é uma guerra a ser vencida.

Assim, suscitando reflexões políticas, sociais, filosóficas, humanas e tecendo uma narrativa engajada, que mescla realidade e ficção, Mayombe é uma história de liberdade, luta, coragem e paixão, atravessada por cenas de ação, lirismo e emoções. E, por mais que prevaleçam as dificuldades, melancolias e tristezas de um povo cansado e oprimido, em constante luta (desigual) contra um inimigo muito mais poderoso, há um fio de esperança a entrelaçar e unir tudo e todos - tal como as lianas e cipós da imensa floresta Mayombe; há um sopro de utopia libertária a impelir as personagens em cada uma das pequenas-gigantescas vitórias dessa luta. E é isso o que importa e é por isso que a guerrilha continua, inexorável, a avançar em direção a uma Angola livre e melhor.

sábado, 6 de junho de 2020

sem título

o corpo em quarentena
mas por aí, a mente
divagando

vagando,

captando feito antena
anseios d'um porvir (sementes)
que à força saem voando.

ando

e vejo belas fotografias
agora de todo mundo
emolduradas por simples janelas

(elas -

olhos ternos em meio à pandemia)
que se abrem ao mais profundo
sentimento morador delas:

a Esperança.

sábado, 14 de março de 2020

1984 - Uma breve resenha


Findada a  narrativa de Winston Smith (e Júlia) em 1984, de George Orwell, resta a perplexidade e a constatação da grandiosidade e profundidade do livro.

Dividida em três partes, a trama se desenrola num futuro distópico, com um mundo dividido em três Estados autoritários e totalitaristas, cada qual com seu sistema político opressor. Um mundo que se resume à Lestásia, Eurásia e Oceânia - esta última encerra o espaço por onde trafegam personagens oprimidas e vigiadas pelo líder supremo do Partido único, o Grande Irmão.

O Partido controla tudo. Desde a arte à pornografia consumida pelas massas. Passando pelas notícias, pelo entretenimento, pela educação. Censurando tudo o que não condiz com a ideologia totalitária que o sustenta. Tudo isso com a finalidade única de preservação e expansão de si no poder.

É um mundo perfeito, apático e desesperançado. Vigiado, manipulado e violento. Coletivo e autômato, sem espaço para a individualidade tão inerente a cada um de nós. O indivíduo, em 1984, só existe coletivamente. 

Nesse presente-perfeito eterno, sem passado e cujo futuro será reflexo deste mesmo presente glorioso, o simples fato de duvidar de toda essa realidade torna qualquer um perigoso, ameaçador aos olhos do Grande Irmão. E, por isso mesmo, necessita ser obliterado da existência; passar a nunca ter existido.

É após duvidar da realidade (im)posta pelo Estado, pensamento-crime, que o protagonista do romance inicia um combate desigual contra o Partido e, principalmente, por individualidade, liberdade e identidade. Para autoafirmar-se enquanto ser humano, crítico e racional.

Winston transita no agora juntando estilhaços de memória, porém com a certeza de que, se reunidos e colados, dificilmente formarão um futuro diferente do que a realidade lhe impõe. Ele sabe, e nós também, que a partir da execução de qualquer ato criminoso aos olhos do Partido, o sujeito está, indubitavelmente, fadado à morte. E mesmo tendo ciência disso já nas primeiras páginas da obra, a narrativa nos arrasta para um desfecho surpreendente. Triste e surpreendente.

E, apesar do tênue fio de esperança que perpassa a trama, esperança esta depositada na força colossal, entretanto anestesiada, do povo; apesar dos tímidos sonhos que Winston e Júlia passam a tecer quando juntos; apesar de um movimento conspiratório lutando contra os dogmas do Grande Irmão; e apesar do lirismo presente na narração do dia a dia de uma mulher proleta, estendendo roupa sobre uma laje, cantarolando canções como se a realidade fosse pura e o amanhã belo, ainda assim, ao fim de tudo, é a tristeza que vence. Ela e sua amiga desesperança.

1984 é, portanto, pessimista. Isso é inquestionável. Mas como as distopias são possibilidades de se repensar o agora para garantir um futuro diferente e melhor, seria interessante considerar o casal protagonista como vela numa infindável escuridão. E que, por mais densa e negra que esta venha a ser, duas fagulhas de esperança surgiram. Talvez para mostrar a força do homem e a dificuldade que qualquer poder ditatorial encontrará para subjugá-lo completamente e de forma irreversível. Ser humano é insistir na vida; logo, sempre haverá luta e resistência.

terça-feira, 3 de março de 2020

Duas palavrinhas sobre o quadrinho Carniça, de R. Ramos e M. Bartholo

A arte não tem obrigação de constituir-se enquanto objeto de crítica social. A bem da verdade, a arte não tem obrigação nenhuma. Todavia, quando se nota que esta ou aquela peça estética carrega em si, de maneira sutil ou contundente, posicionamentos referentes a temas sensíveis à nossa sociedade, às nossas realidades, ela passa a transmitir ao apreciador mais riqueza e importância - transcendendo o mero ato contemplativo.

Carniça (2017), publicação independente de Rodrigo Ramos (roteiro) e Marcel Bartholo (desenhos), deliberou em abordar temáticas que permeiam nosso meio social - vício alcoólico, o machismo estrutural, a agressão às mulheres - e, justamente por isso, é um quadrinho que vai além do entretenimento passivo; merece, pois, uma atenção singular enquanto peça artística.

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O protagonista da história, Jonas, depois de mais uma noite de orgia e bebedeira, torna-se o agressor e assassino de sua companheira. Assim, arrasta-se miseravelmente, definhando e apodrecendo página após página, até o mórbido fim da HQ. Fundindo-se, então, de maneira macabra e quase sobrenatural ao título, Carniça, da narrativa.

Sua brevidade, pouco menos de 30 páginas, não diminui em nada sua capacidade expressiva. Esta, que surge visualmente a partir das belas e assustadoras imagens do artista Bartholo - cujas referências criativas ecoam a obra de Portinari -, alia-se a um texto que, para além da realidade brasileira, esbarra na extraordinária literatura de Edgar Allan Poe e, com tal simbiose, narram uma história de horror calcado no cotidiano, perturbadoramente misturando os flagelos do alcoolismo, machismo, feminicídio e remorso - frios elementos do nosso dia a dia.

Publicada num formato maior que o habitual, Carniça é um verdadeiro painel artístico de horror. Suas grandes páginas expõem um traço fantástico e assustador, dando forma a ideias igualmente assustadoras. O texto preciso, sugestivo, permite um vislumbre detalhado das cenas de terror que, com suas cores cinzentas e amarelecidas, emolduradas em preto e salpicadas de vermelho-sangue, nos relega uma infeliz e inquietante sensação de medo e derrota frente à constatação de que se arrastam por aí, apodrecidas, a carniça de inúmeros Jonas mundo a fora.

Por construir-se a partir da cultura brasileira, desigual e, por isso mesmo, mórbida matéria-prima de horrores tais como o da narrativa, e por suscitar reflexões sobre nossa medonha realidade, tirando-nos, mesmo que momentaneamente, da apatia diária na qual estamos imersos e anestesiados, Carniça merece distinção no âmbito da Nona arte. É o horror palpável, real, do nosso dia a dia alimentando a arte e regurgitando questionamentos - incitando-nos a não apenas apreciá-lo, mas discuti-lo e enfrentá-lo.

P. S.: O texto tem pequenas falhas de revisão que devem ser corrigidas em novas tiragens da edição. Eles estão apontados aqui: https://baboseirassubjetivas.blogspot.com/2020/03/revisao-informal-004-fevereiro-de-2020.html

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

palavras abjetas a serem EVITADAS (ou DETURPADAS) no quadriênio 2018-2022:

DIVERSIDADES COTAS EDUCAÇÃO
LIBERDADE HOLOCAUSTO
DIREITOS HUMANOS CONSTITUIÇÃO
ESQUERDA COMUNISMO CUBA
DITADURA DEMOCRACIA
IGUALDADE FEMINISMO IDEOLOGIA
RESISTÊNCIA GÊNERO MULHER
MERCOSUL DIÁLOGO
PROFESSOR (sobre este, o que quiser!!)
INDÍGENAS MOVIMENTOS SOCIAIS
PT MST LGBT
(e seus iguais!)
POLUIÇÃO
PRESERVAÇÃO AMBIENTAL
BIODIVERSIDADE
AQUECIMENTO GLOBAL
REPARAÇÃO HISTÓRICA
LEIS TRABALHISTAS
RACISMO SOCIALISTAS
TOLERÂNCIA DIGNIDADE
POVO
SOCIEDADE
IMPRENSA LIBERDADE DE EXPRESSÃO
MACHISMO FAKE NEWS
ACESSO À INFORMAÇÃO
PAULO FREIRE MARIELLE FRANCO
SENSO CRÍTICO
FUNCIONALISMO PÚBLICO
DISTRIBUIÇÃO DE RENDA
PACIFICAÇÃO EMPATIA
CULTURA PRECONCEITO
INCLUSÃO
IMIGRAÇÃO

(QUEIROZ, ADRIANO
MILÍCIA, RACHADINHA
FAVOR PASSAR UM PANO
RIR E FAZER ARMINHA)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Breves considerações acerca de Procissão, de Vinicius Velo


Meados da década de 20 no sertão nordestino. A seca, os coronéis e o cangaço assolam brutalmente a terra e o povo que habita a região. Resultante deste contexto e embriagados pelo ódio, rancor e obsessão com a vingança, duas poderosas famílias aniquilam-se, geração após geração, numa rixa já secular.

Esta é a premissa de Procissão, do artista Vinicius Velo (roteiro e arte), obra em quadrinhos lançada em 2019 por meio do ProacSP - Programa de incentivo à cultura do Governo do Estado de São Paulo. Suas cerca de 100 páginas apresentam um roteiro forte, bem escrito, bastante fluido além de ótimos desenhos, com traços seguros, firmes e precisos, materializando uma trama bem construída e promissora, dinâmica - daquelas que aprisiona a atenção do leitor até a última página.

Tanto o competente texto quanto a primorosa arte são tentativas bem-sucedidas de aproximar-se da realidade, que vem mesclada ao fantástico, retratada na publicação: a dureza de uma terra embrutecida, repleta de histórias misteriosas, lar de um povo forte que teme tanto a ira de Deus quanto a maldade dos homens. A escrita é áspera, ágil e carregada de reflexões sobre a cultura singular do Nordeste. Os desenhos, por sua vez, figurativizam bela e precisamente a temática do sertão, num claro e escuro resoluto, com linhas grossas que revelam um ambiente seco e castigado, mas esperançoso, e personagens igualmente marcadas pela dureza da natureza local. A tonalidade amarelada das páginas da HQ enfatiza a força do sol abrasador daquele espaço.

Além disso, o ritmo da narrativa é outro ponto positivo de Procissão. As passagens de cena, a dinamicidade dos quadros, os movimentos das personagens e as cenas de ação - tudo perfeitamente costurado pelos textos do narrador e dos balões - revelam as claras influências da estética cinematográfica na obra, bem como na Nona arte em geral.

A história, calcada em realidades verossímeis daquele período histórico, o cangaço em oposição ao poder dos coronéis, é enriquecida pelo fantástico e pela religião de um povo tolhido entre a tirania e o medo, a fé na mudança e a força insurgente dos cangaceiros: ideologias antagônicas, visões distintas de mundo que aturdem e mexem com a vida e as emoções do sertanejo.

Vinicius Velo mostra, com Procissão, o quanto é interessante a abordagem de temas brasileiros associados criativamente com a cultura pop em geral. O leitor se reconhece na história e, por isso, pode vir a problematizá-la e relacioná-la com suas vivências - o que eleva a arte sequencial a um patamar acima do mero entretenimento. É Arte mesmo! E é grande justamente por isso.

Procissão é, por fim, mais uma prova de que a Nona arte brasileira está cada vez mais inteligente, criativa, rica e ousada. E que, mesmo à margem das grandes editoras, a produção quadrinhística independente e de qualidade apenas se fortalece com o passar do tempo, solidificando a tríade mais que necessária na construção de um mercado artístico de quadrinhos no Brasil: temática identificada com nossas realidades culturais, qualidade (de criação, acabamento, distribuição etc.) e preço acessível às massas. Que venham mais obras assim!!


P. S.: Texto em comemoração ao Dia do Quadrinho Nacional, 30 de janeiro.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Uma leitura da capa de Dylan Dog, O caminho da vida

A capa de O caminho da vida, a mais recente publicação (no Brasil) dos quadrinhos da personagem italiana Dylan Dog, é certamente das mais interessantes. Desenhada pelo criativo artista Angelo Stano, capista das narrativas insólitas do Investigador do Pesadelo, ela mostra Dylan nas cinco fases da vida do homem - a infância, a adolescência, a idade adulta, a meia-idade e a velhice - numa escadaria sempre ascendente. Tudo simétrica e precisamente disposto na imagem.



São os pequenos detalhes da imagem, colocados ali de maneira rigorosa e deliberada, que nos leva a considerá-la uma peça singular. O primeiro deles é a espaço-temporalidade da cena: temos noção temporal, a partir do caminhar regular e das mudanças físicas da personagem, mas desconhecemos o espaço, o lugar. Relacionando isso com a nebulosidade difusa que engloba a ilustração, torna-se impossível não fazer uma analogia com a existência, pois conhecemos precisamente seus ciclos, no entanto desconhecemos seus extremos, suas pontas: de onde viemos e para onde vamos depois daqui.

A precisão ascendente da passagem do tempo, seu eterno avançar e sua irreversibilidade são o segundo detalhe. A cada três degraus, um salto temporal, uma nova fase na vida do homem: da infância à adolescência; desta para a fase adulta; depois para a meia-idade e, finalmente, em direção à velhice. Um caminhar constante que finda apenas na inevitabilidade da morte. Tem-se, assim, o ciclo completo.

O terceiro pormenor concentra-se nas feições do rosto de Dylan Dog: a curiosidade vivaz infantil; a imprescindível revolta indiferente da juventude; a tenacidade e perseverança ao fitar um horizonte de expectativas pra vida na fase adulta; a frustração e o cansaço da meia-idade; e a melancolia e espera apática na velhice. Cada nova estação da vida bastante próxima das anteriores, tornando nostálgico o viver.

A quarta minúcia da cena encontra-se nos gestos inerentes às referidas etapas da vida. Neles vemos os impulso e desejo da criança; as mãos nos bolsos simbolizando a aparente indiferença do adolescente; os passos firmes e resolutos do adulto; os ombros arqueados e cansados e a face no chão da meia-idade; e, por fim, o arrastar-se e a estaticidade da fase senil. É deste vagaroso, semi-imóvel arrastar-se que chegamos ao último detalhe que torna a leitura de tal capa tão interessante: a ação de caminhar.

Todas as fases vividas retratadas na imagem enfatizam um constante caminhar em direção ao porvir. Apenas a figura já velha de Dylan Dog não caminha mais, apenas espera - na certeza da sua impossibilidade de avançar. O medo, aqui, torna-se evidente, pois o próximo passo, a morte, é o derradeiro; é o fim do caminho da vida. Vontade, coragem e anseio são substituídos definitivamente por seus opostos: agora é esperar rememorando o que foi ter vivido.

Vida e morte, juventude e velhice, mobilidade e estaticidade, agir e hesitar são algumas das palavras que, em oposição de sentidos, fundamentam e estruturam os vários significados e possibilidades de leitura que emanam da arte desta capa. Significados estes que irão se entrelaçar de maneira perfeita ao universo do Investigador do Pesadelo, Dylan Dog.

P. S.: A história O caminho da vida foi publicada na Dylan Dog Série Clássica n° 13, de janeiro de 2020, pela Editora Mythos.





domingo, 26 de janeiro de 2020

Exclamações e mais exclamações: a Mythos e os gibis Bonelli no Brasil

Desde os bancos escolares aprendemos sobre os variados sinais de pontuação: ponto, reticências, interrogação, vírgula, exclamação entre outros. Cada um deles, no nosso português (brasileiro, já que há outros), é carregado de significados, de valores semânticos, e são responsáveis por tentar manifestar na língua escrita os efeitos de sentido presentes na entonação da língua falada. Assim, entendemos que os significados mudam a partir do tipo de sinal utilizado quando da escrita.

Um rápido e simples exemplo segue: NÃO. NÃO... NÃO! NÃO? "NÃO" - cada um desses usos escritos da palavra NÃO carrega, juntamente com a pontuação que a acompanha, efeitos de sentido diferentes (afirmação, hesitação, raiva, dúvida, um discurso direto, uma ironia ou seja lá o que o contexto situacional queira comunicar); não são, obviamente, a mesma coisa. Justamente por isso é natural que profissionais que realizam traduções estejam acompanhados de outros colaboradores que fazem a adequação do texto ao nosso idioma, já que os efeitos de sentido presentes no idioma de origem devem estar também presentes e fazer sentido na nossa língua - tudo o mais próximo possível da obra original e da interação comunicativa pretendida inicialmente.

Assim como ocorre com variadas línguas, entre o italiano e o nosso português brasileiro há similaridades e divergências, e isso em todos os níveis (fonético, morfológico, sintático, semântico etc.), mas nos perece que, em relação aos sinais de pontuação mais comuns encontrados nos quadrinhos italianos da editora Sergio Bonelli (interrogação, vírgula, reticências, exclamação e ponto), publicados no Brasil principalmente pela Mythos Editora, há muito mais convergências que diferenças, ou seja, os sentidos representados pela escrita destes são bastante semelhantes também no nosso idioma pátrio: o ponto de interrogação marca uma pergunta direta (pois há indiretas também); o ponto final representa uma pausa máxima ao fim de uma declaração; as reticências marcam a interrupção da frase, sua suspensão; etc. No entanto causa estranheza o uso singular do ponto de exclamação feito pela Mythos e, consequentemente, a sua falta de correspondência com os sentidos pretendidos, bem como com as normas já estratificadas do nosso português, algo predominante e preocupante em algumas de suas publicações.

O ponto de exclamação, convém ressaltar, é responsável por buscar transmitir, na escrita, emoções: tensão, medo, raiva, espanto, exaltação no tom de voz entre outras - é isso que se aprende desde tenra idade escolar. Não obstante tais palavras, provindas do senso comum, recorremos ao Dicionário Escolar da Academia Brasileira de Letras, de 2011, que, na página 1005, diz que ele é um "sinal (!) usado para marcar o fim de uma frase exclamativa." Por exclamação, entende-se, como definido pelo mesmo dicionário, desta vez na página 559, "(Gram.) Pontuação usada numa frase escrita para expressar alegria, surpresa, raiva etc." Para findar está rápida explanação sobre o ponto de exclamação parafraseamos as palavras do filólogo, gramático e professor Celso Cunha que, na sua Gramática do Português Contemporâneo, pág. 431, corrobora o que foi dito aqui, apontando as VARIEDADES de seu valor pausal para sugerir a mímica EMOCIONAL - seja de espanto, surpresa, alegria, entusiasmo, de cólera, dor, súplica e muitas outras, além de acompanhar interjeições ou termos semelhantes.

Definido e entendido isso, o que observamos como singular regra nos quadrinhos bonellianos publicados pela Mythos é a errônea substituição do ponto final pelo ponto de exclamação ao fim de toda e qualquer sentença declarativa, negativa ou afirmativa, estando ela ou não expressando quaisquer emoções das personagens. Lógico que não pesquisamos todos os quadrinhos italianos que a referida editora traz ao Brasil, mas notamos que isso é a regra nas publicações de, pelo menos, três personagens: o caubói Tex Willer, o detetive do insólito Dylan Dog e o heroico Dragonero - personagens com uma grande soma de títulos lançados em bancas de jornais.

Tex; Tex Willer; Tex Platinum; Maxi Tex; Tex Gigante; Dylan Dog Série Clássica; Dylan Dog Nova Série; Dragonero Especial e Dragonero bimestral. Nove títulos regulares que dão à exclamação as mesmas características do ponto (final), desrespeitando não apenas regras convencionais da ortografia brasileira, mas muitas vezes deturpando variados efeitos de sentido contidos nos referidos sinais de pontuação e deixando à margem o fato de que cada qual tem seus próprios usos e especificidades. A bem da verdade, o ponto, salvo quando empregado pelo discurso indireto do narrador, nunca aparece nos diálogos das personagens - ele foi deliberadamente banido de tais revistas!

Basta, pois, abrir tais publicações, em páginas aleatórias mesmo, e constatar: TODO FINAL DE FRASE DECLARATIVA É MARCADO COM UM PONTO DE EXCLAMAÇÃO. As personagens podem estar conversando trivialmente, cochichando, gritando, enfatizando algo, tomadas por emoções... Pouco importa o contexto, não há distinção para o emprego do referido sinal gráfico! Abaixo, segue uma simples amostra com as páginas (que poderiam ser quaisquer outras) que exemplificam a presente discussão.

Pág. 61, de Tex Willer 11;



Pág. 205, de Maxi Tex 2;



Pág. 206, de Dragonero Especial;



Pág. 35, de Dragonero 1 (bimestral);



Págs. 23 e 29, de Tex - Graphic Novel 2;




Pág. 29, de Dylan Dog Série Clássica 12.



Interessante e importante, além de positivo, ressaltar que em Editoriais, Extras e páginas que apresentam notícias jornalísticas, por exemplo, não há este erro. Um sinal claro e evidente de que nem todas as sentenças ali constantes expressam emoções; daí ser impossível, grosseiro mesmo, mantê-las repletas de exclamações! Vejam (e leiam) os Editoriais de Tex 600, de Tex Gigante 34, de Dylan Dog Nova Série 6, os Extras escritos por Roberto Recchioni e Angelo Stano na Dylan Dog Série Clássica 5 e a página 19 de Dylan Dog Série Clássica 12 (reproduzida abaixo), na qual consta uma notícia de jornal sobre Johnny Freak. Respeita-se o original italiano, a pontuação adequada do português e, obviamente, os efeitos semânticos, de sentido, sugeridos pelos textos.

Página 19 de DYD - Série Clássica 12



Uma coisa, de fato, podemos depreender: o uso inadequado, abusivo e singular do ponto de exclamação apontado aqui é uma atitude deliberada; é uma decisão, por mais errônea e estranha que seja, da equipe editorial da Mythos Editora. O motivo, não sabemos, mas podemos confirmar isso com o trecho original do roteiro de Gigi Simeoni para a história Na fumaça da batalha, presente no Editorial de Dylan Dog Nova Série 7. Tal trecho representa a página 13 da edição 6 da mesma série e a partir dele podemos estabelecer que a Mythos substitui todo ponto final por exclamações, criando, com isso, uma padronização absurda e desnecessária do conteúdo original. Vale ressaltar que a página original dessa história, a número 9 de DYD 343, seguiu exatamente o que fora colocado por Simeoni em seu roteiro. Abaixo, as três páginas.

O roteiro de G. Simeoni presente no Editorial de DYD - Nova Série 7



A página 13 com a tradução e adaptação da Mythos, presente em DYD - Nova Série 6



A página original de DYD 343, da Bonelli



Se tal atitude é uma escolha da editora, como nos parece, é uma escolha errada e, portanto, deve ser repensada, pois o ideal é aproximar-se o máximo possível da obra de arte originalmente concebida, além do fato já mencionado de que cada sinal de pontuação tem suas particularidades semânticas e de uso. A página 15 de DYD - Nova Série 2 é mais um exemplo dessa infeliz e errônea escolha adotada pela Mythos Editora. Segue, abaixo, juntamente com ela, a sua correspondente italiana.

Página 15 de DYD - Nova Série 2, da Mythos




Página 15, do original italiano



Insistimos em afirmar que os quadrinhos são arte, e como tal devem ser tratados (por leitores, autores, críticos, editores...). No mais, pesquisamos outras histórias, também de DYD, publicadas por outras editoras no Brasil - Lorentz, Globo e Record - e, importante enfatizar, o ponto final (ou a pontuação original) foi mantido nas traduções/adaptações. Isso pode ser conferido nas páginas abaixo.

Página 23, de DYD 1 (Record)



Página 65, de DYD, em Fumetti - O melhor dos quadrinhos italianos (Globo)



Página 16, de DYD 3 - Mater Morbi (Lorentz)



É provável que tal atitude, esta singular, inadequada e imprecisa uniformização do texto nos balões, deva-se ao fato de precisar agilizar o trabalho na Redação (única explicação razoável!), já que o volume de lançamentos aumenta cada vez mais. Mas, a julgar pelos valores cobrados por tais produtos, esse é um ERRO imperdoável e que atenta contra os leitores e, por extensão, os autores de tais criações. Esperemos, pois, um amadurecimento editorial de uma empresa gigante no setor e há décadas consolidada no mercado de quadrinhos brasileiro. Esperemos que, doravante, tal erro possa ser corrigido e não se torne a única regra para a publicação de fumetti pela Mythos Editora.


P. S.: Vale destacar que em todas as histórias da Fumetti - O melhor dos quadrinhos italianos, da Globo, a pontuação segue as regras convencionais e o original - inclusive na história de Tex.

P. S. 2: Interessante observar que a coleção Gold de Tex, publicada pela editora Salvat, segue a mesmíssima uniformização do texto. Isso talvez se deva ao fato da equipe editorial responsável pelas histórias ser a mesma da redação da Mythos. Abaixo, um exemplo a partir da página 61 do primeiro número de Tex Gold.



P. S. 3: Dampyr segue o mesmo padrão e Diabolik, que não é da Bonelli, não. Ambos são publicados no Brasil pela Editora 85.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Quadrinhos E política: porque não há texto sem contexto!


Resultado de imagem para mis quadrinhos

Toda criação artística, por mais fantasiosa, insólita que possa parecer, está fundamentada direta ou indiretamente na nossa realidade, no nosso mundo real. Isso quer dizer que as artes em geral, e antes delas os artistas, nutrem-se deste para conceber seus mundos. Portanto, os mundos ficcionais são nada mais que aspirações, projeções ou, até mesmo, rejeições das nossas realidades.

Dito isso, resta impossível a apreciação estética, a contemplação de qualquer obra artística - literária, quadrinhística, cinematográfica, arquitetônica, pictórica etc. - sem conjecturarmos sobre o que nos cerca, sem traçarmos paralelos com nossas existências, com nossas realidades, enfim com nossas vivências. Repito: é impossível não estabelecer relações entre a arte que apreciamos e a realidade que conhecemos!

Assim posto, fica evidente a inviabilidade, a "ingenuidade" embebida em hipocrisia tendenciosa, a falácia de certos grupos que buscam esconder, ou mesmo expurgar o viés ideológico e político que, invariavelmente, mais ou menos explícito, trazem consigo as histórias em quadrinhos. Desde sempre, e em todos os gêneros no âmbito da Nona arte, é indissociável as realidades ficcionais das realidades político-ideológicas que emanam delas. Gibis infantis, juvenis, adultos, eróticos etc. são repletos de menções históricas, sociais, filosóficas, ideológicas e, também, políticas. São textos, como todos os outros, inseridos em contextos e dependentes destes.

Desde Angelo Agostini com As aventuras de Nhô-Quim, ou Impressões de uma viagem à Corte, de 1869, passando por Richard Outcault e seu Menino Amarelo, de meados do século XIX, bem como pelo escapismo proporcionado pelas histórias dos heróis e super-heróis do primeira metade do século XX, as HQs pensantes surgidas a partir da década de 50, a latina e mundialmente conhecida Mafalda,  dos 60, as criações de Will Eisner, Frank Miller, Alan Moore, Larte, Angeli nos anos 70 e 80 (e ainda hoje!), o terrorismo e as aflições de refugiados e sobreviventes de guerras abordados nos quadrinhos dos anos 90 e 2000... Tudo criação indiscutivelmente marcadas e pautadas ideológica e politicamente. E como negar, esconder ou querer deturpar ou destruir isso?

Como não enxergar, ou querer apagar o fato de que as HQs Disney disseminam, ainda hoje, o modo de viver americano, seu individualismo e seu ideal capitalista? Ou que presentes nas aventuras do caubói Tex Willer, o mocinho dos gibis italianos e o queridinho de um público bastante conservador, estão a defesa das minorias negra e indígena, o apelo à justiça e à lei, o combate à xenofobia e a exaltação do viver pacífico entre índios, americanos, mexicanos...? Uma avalanche de ideias democráticas, progressistas e, até  mesmo, rotuladas como pertencentes à esquerda política!

Como querer não abordar fatos como a exaltação da diversidade, vista na junção de personagens tão díspares e heterogêneos (étnica, racial e culturalmente) colocados pela fantasia de um fumetti como Dragonero, onde, na tentativa (utópica?) de mostrar que a união de elementos diferentes entre si talvez seja o caminho mais apropriado em direção a um mundo melhor e mais justo? Como não poder discutir o fato de que pouco conhecemos das produções quadrinhísticas russas ou alemãs, já que ainda somos colônia cultural dos EUA - o que, por si só, depende de posicionamentos ideológicos e políticos? Resta, pois, ignorar que nos comics de super-heróis, estes lutam pela paz mundial, mas que a paz almejada é baseada em concepções ocidentais? Então é fechar os olhos às charges e tiras que denunciam, dia a dia, os mandos e desmandos dos governos estabelecidos pelo mundo?

Em tempos como os de hoje, em que as bandeiras da intolerância, mediocridade, preconceito, irracionalidade e burrice (travestida de ingenuidade) são erguidas, resta mesmo fechar os olhos da razão e do senso de criticidade para o fato de que os quadrinhos, bem como qualquer criação artística e cultural, são indagações e também respostas às discussões que ocorrem em nossas sociedades. Resta-nos esquecer que tudo é atravessado ideologicamente e que em toda concepção ideológica há ideais políticos (inclusivos, excludentes, anárquicos, destrutivos etc.) e que, portanto, nada é isento ou neutro politicamente - como querem e bradam alguns.

Querem, pois, que não vejamos que, por trás desses posicionamentos de "Quadrinhos sem política", "Arte apolítica" etc., agentes sabem exatamente sobre o que foi apontado até aqui e o quanto isso é perigoso - pensar, pra eles, é um ato perigoso - e, justamente por isso argumentam, falaciosamente, o contrário. Estes, sem dúvida, agem assim pois defendem ideologias e políticas conservadoras e retrógradas, até mesmo excludentes e/ou autoritárias - e são apenas ESSAS que, hipocritamente, eles querem ver em seus quadrinhos! Tudo o mais é ameaça: nunca deve ser exposto, avaliado, discutido; mas tão somente deturpado e, sumariamente, destruído.




sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Hino à Liberdade

liberdade:
uns e outros? não. todos
lutam (e matam) por ela
ante e antes de toda sombra

liberdade!
importa, pois, é tê-la
vivê-la
recuperá-la - se perdida ou
esquecida

liberdade!
uns mais outros (todos) gritam...
levando sua chama
a todo e qualquer breu

liberdade!
imenso fogaréu a aquecer
vagos e escuros corações
reféns de injustiças e
exigentes dela pra ser e lutar



P. S. : A data é especial: a justa soltura do ex-presidente Lula!

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Uma rara e vigorosa flor na Nona Arte


Da fictícia Garden City, um jardim-metrópole que enfeita algum canto dos EUA e cujas ruas recebem bonitos nomes de espécies de flores, surge Júlia Kendall, a  crimonóloga que, juntamente com o Departamento de Polícia da cidade, trabalha arduamente na investigação e solução dos variados tipos de crimes que acometem a vida dos cidadãos.

Saída da fértil imaginação do italiano Giancarlo Berardi (1949), lá pelos idos de 1998, Júlia - além de atuar junto às investigações criminais - leciona numa importante Universidade da cidade a disciplina de Criminologia. É solteira por opção, calculista, racional, educada e amável. Forte e decidida, madura e sensível, é extremamente humana, ética e profissional num mundo cada vez mais duro, frio e violento.


De compleição frágil - mas de caráter determinado -, resistente ao uso de armas (prefere um rijo e pesado cinzeiro de alabastro na bolsa), luta, insiste e resiste num cenário quadrinhístico dominado por personagens do sexo masculino. É, pois, uma vigorosa e rara flor de resistência em meio à dureza e aspereza da sociedade.

Suas histórias são densas, inteligentes e intrincadas; mas líricas, críticas e bastante sensíveis aos diversos temas que permeiam nossa humanidade e a nossa vida social. Pertencentes ao gênero policial, são repletas de crimes, investigações, ponderações psicológicas, sociais, filosóficas etc. Nelas, conflitos pessoais, dramas diários, pitadas de romance e pilhérias coadunam-se a tudo isso para a genialidade e grandeza das tramas.

Depois de duas décadas nas bancas italianas, sob os auspícios da Sergio Bonelli Editore, e no cenário de quadrinhos brasileiro há mais de dez anos, Júlia difere de qualquer outra publicação do mainstream publicada periodicamente por aqui. Isso porque em J. Kendall - Aventuras de uma criminóloga Júlia é realmente a protagonista das histórias e, mesmo estando cercada de homens, ela transita com autonomia e força, se impondo num universo quase sempre bruto, insensível, machista, patriarcal. Nada submissa, diríamos que - para usar um termo em voga no momento - Júlia é empoderada e, talvez, até mesmo feminista, pois quer respeito e os mesmos direitos que apenas os homens parecem possuir, mas que, em sociedades progressistas e democráticas, são de todos.


Atingindo a expressiva marca de 142 edições publicadas pela Editora Mythos - entre publicações mensais, posteriormente bimestrais e alguns especiais, acompanhando os altos e baixos de um mercado quadrinhístico que busca incessantemente consolidar-se -, e apesar de reconhecidamente vir a ser considerado um gibi de grande qualidade, vencendo, inclusive, o HQMIX de 2010 na categoria de Publicação de Aventura/Terror/Ficção, a criação de G. Berardi ainda é pouco conhecida/divulgada/discutida entre os leitores de HQs - principalmente entre os  mais jovens.

E num universo de revistas em quadrinhos com qualidade duvidosa, que perpetuam quase doentiamente estereótipos, e cujo predomínio se dá pela presença massiva e ostensiva de personagens do sexo masculino, e héteros, J. Kendall - Aventuras de uma criminóloga é uma bem-vinda ilha de inteligência e beleza, um verdadeiro primor dos quadrinhos. Ou, para ficarmos na ambientação de Garden City: uma forte e rara flor no âmbito da Nona Arte.



P. S.: As capas das publicações de Júlia são sempre impressionantes. A genialidade criativa é do artista Cristiano Spadoni.

P. S. 2: Como é comum nas criações da Bonelli, Júlia tem as feições de uma personalidade americana. No caso, da atriz Audrey Hepburn.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Uma discussão necessária sobre o verdadeiro horror em Dylan Dog

Inglaterra, Londres. Craven road, n° 7. É nesse endereço que Dylan Dog, o Investigador do pesadelo, trabalha há mais de três décadas. Criada em 1986 pelo italiano Tiziano Sclavi, a personagem de quadrinhos é sucesso de público e crítica no cenário artístico e cultural da Itália, com suas revistas publicadas periodicamente pela Sergio Bonelli Editore desde então.


Suas histórias, que têm por base o terror e horror, além de investigações que pendem para o lado do sobrenatural e boas doses de ação, tocam temas que dialogam com a Filosofia, a Literatura, a Política, Metafísica, Ciência e tudo o mais que tange às humanidades e ao homem em sociedade. Somando-se tudo isso, o resultado não poderia ser outro: inteligentes e criativas histórias que enriquecem a Nona arte.

No entanto, e talvez por ser criado a partir de um cenário global que via a mulher como um ser frágil e suscetível aos desejos dos homens, toda essa luz faz projetar uma densa sombra que muitos parecem não ver ou simplesmente querem ignorar e não discutir, que é o fato de Dylan Dog assediar mulheres e ser, muitas vezes, machista em suas tramas. E não apenas ele, mas Groucho - seu singular assistente e amigo - também.

O assunto é polêmico e, para muitos, controverso. Mas é uma realidade! E embora se diga, ingenuamente, que Dylan se apaixona facilmente pelas várias mulheres que transitam pelas suas páginas, ao lermos com um pouco mais de atenção podemos notar que isso não passa de um eufemismo, uma tentativa de suavizar e talvez mascarar a dura verdade: o assédio, o machismo e a falta de ética profissional dele para com aquelas que buscam sua ajuda.

Óbvio que em algumas histórias do Old boy, como ele é chamado, isso aparece de modo mais explícito, mais incisivo até. Assim, na primeira edição da personagem, O despertar dos mortos-vivos (n° 1, editora Record, 1991) chega a causar asco a postura de DyD, e Groucho, diante da mulher que busca por seus serviços. As páginas 22 e 23 expõem, textual e visualmente, o que se tornaria uma constante na série da personagem:

DyD: [...] "Amava seu marido?"
Ela: "Não." [...] "Me perguntou isso porque pensa que inventei tudo e que se trata de um homicídio comum, não é?"
DyD: "Não. Perguntei isso porque jamais poderia cortejar uma viúva inconsolável."
Ela: "??"
DyD: [Se aproximando dela] "Em suma, você me agrada muito. Não seja tímida, pode dizer obrigada."
Ela: "Obri... obrigada?!"
[E aí ele a beija]
DyD: "Esclarecido este ponto fundamental, vamos ao trabalho. Como se diz, primeiro o prazer e depois o dever."


Para a presente discussão foram lidas as seguintes edições: a acima (n° 1, da Record); as três publicadas pela Editora Lorentz em 2017; os dez números publicados como Série Clássica pela Mythos Editora; e os seis números da Nova Série - também da Mythos. Um total de vinte (20) histórias e uma estarrecedora sucessão de "cantadas", assédio, machismo, insinuações e ações nada éticas e profissionais que causam estranhamento, desconforto e ojeriza.

Horror paradise, a primeira publicação da Mythos Editora, que marca o retorno periódico das publicações de DyD às bancas brasileiras e que inicia o que se denominou de Série Clássica - com histórias mais antigas do Detetive do pesadelo - é um pouco mais sutil, quase imperceptível, quanto ao machismo da personagem: ele recebe uma fita VHS e nela reconhece, pelas nádegas (página 63), sua cliente: "Hmm... parece mesmo Vanessa!"


O próprio fato de serem mulheres, predominantemente, a precisarem de ajuda e apoio na grande maioria das histórias de Dylan Dog já é, em si, um motivo de preocupação. É como se apenas pessoas do sexo feminino fossem fracas e necessitadas; enquanto que apenas homens, e héteros, pudessem ajudá-las. Há nitidamente um esteriótipo, fruto de sociedades desiguais e patriarcais, que se sustenta na inferiorização da mulher - o que não cabe mais nos dias de hoje!

E isso muitas vezes é tão "natural", tão comum num tipo de sociedade como a nossa, que a própria Mythos Editora - no texto de apresentação da personagem aos leitores - fez questão de estampar na contracapa de suas publicações da Série Clássica os seguintes dizeres:

[...] "E SE VOCÊ É UMA BELA GAROTA, MELHOR AINDA: DYLAN DOG SE APAIXONA POR TODAS AS CLIENTES."

Não é que ele se "apaixona". Antes, porém, é o fato dele ser homem e, enquanto tal, se considerar, muitas vezes, acima, superior às suas clientes. Talvez apenas o macho, primitivo, buscando saciar suas irrefreáveis vontades diante da "presa" submissa e inferior. Este, ao leitor crítico e atento, parece ser o verdadeiro horror em Dylan Dog.

Outro ponto preocupante, e que esfarela o argumento ingênuo do "apaixonado" DyD é o fato de que, na maioria das vezes, suas vítimas (ou clientes) estarem sempre em situações de fragilidade e suscetibilidade emocional. Seja pela perda de alguém, ou por alguma perturbação mental, ou mesmo alguma situação de injustiça profissional ou social. Não importa, Dylan sempre contorna tais fragilidades, as conquista e se relaciona sexualmente com suas clientes (vítimas, nesses casos).

Isso é bastante explícito na edição 3 da Série Clássica (A rainha das trevas) e no número 6 da Nova Série (Na fumaça da batalha), também publicada pela Mythos - com histórias mais atuais. Em ambos os casos nos é mostrado mães extremamente fragilizadas emocionalmente em relação aos problemas com seus filhos e, na tentativa de resolvê-los, recorrem ao Investigador do pesadelo e este, mais uma vez, se usa de sua posição e se satisfaz sexualmente com ambas; ou, como dizem, "se apaixona por elas".

Inquieta também observar que tais relações se dão tanto com mulheres mais maduras, como nos casos já citados, quanto com jovens recém-saídas da adolescência - como visto em O marca vermelha (Série Clássica, n° 2, Mythos). É espantoso, mas o raciocínio é bastante válido: toda fêmea, apenas por ser fêmea, perece ser vista como objeto de satisfação sexual pela personagem.

Essa visão de presa, de objetificação e saciação sexual é brilhante e metaforicamente abordada em O coração dos homens, Nova Série n° 5 (Mythos Editora). É uma viagem ao eu de Dylan Dog e a sua relação com as mulheres. Um eu egoísta e monstruoso que ofusca o seu lado bom.




Com roteiro de Roberto Recchioni e a "estranha" e instigante arte de Piero Dall'agnol, vemos um Dylan confrontando-se, e sendo derrotado, pelo seu eu interior: um eu doente que violenta, aprisiona e se alimenta do coração feminino; que agride, que fere e que devora a mulher. Uma edição corajosa e imprescindível por expor, mesmo que numa metáfora, o modo, inaceitável para o nosso presente histórico, como DyD vê o sexo oposto: um mero objeto de prazer sexual.




Esperamos que esta Nova Série venha para, além de inserir nosso Old boy à modernidade e garantir maior diversidade ao universo fictício da personagem, acabar completamente com tais atitudes do detetive. Que Dylan Dog possa se regenerar desta doença e enfim amadurecer, vencendo este lado ruim que teima em sobressair-se em suas aventuras. E que esta sombra, o verdadeiro e real horror presente nos quadrinhos dele, não venha a apagar a genialidade criativa da ímpar criação de Tiziano Sclavi.


P. S.: Dylan também se relaciona com as mulheres de forma lírica e bonita, como na edição 7 da Série Clássica - Alguém chama do espaço (Mythos Editora). Mas, depois das vinte histórias lidas, isso parece ser exceção.

P. S. 2: Lemos e colecionamos Dylan Dog! Mas não temos o direito de ignorar essas atitudes execráveis da personagem. E, justamente por sermos leitores de DyD, temos o dever de apontar e discutir o assunto, desejando que isso mude!







domingo, 7 de julho de 2019